Crítica | Minuet in Hell e Loups-Garoux (Big Finish Mensal #19 e 20)

Após os nossos dois podcasts sobre áudios do 8º Doutor (Sword of Orion e The Stones of Venice), temos agora dois episódios bastante curiosos, um com um 8º Doutor completamente confuso e em um cenário… digamos… infernal; e outro com o 5º Doutor e Turlough em uma longa viagem, chegando até o Rio de Janeiro, em 2080! Boa leitura e vamos às críticas!

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Minuet in Hell

BF #19
estrelas 3

minuet in hell

Equipe: 8º Doutor, Charley, Brigadeiro Lethbridge-Stewart
Espaço: Malebolgia, Estados Unidos
Tempo: 2003

Eu esperava algo completamente diferente dessa história. Algo que não envolvesse a bizarra criação de um “Estado do demônio” nos Estados Unidos, em 2003. Algo que não investisse tanto em um parasita psíquico (o Psionovore) que assumisse a ansiedade de um grupo de fanáticos — uma seita, para ser mais específico — e ao final de tudo se revelasse um ser interestelar. Para um arco com mais de três horas de duração, eu esperava um desenvolvimento mais maduro, mais emotivo e com maior significado canônico, já que é a primeira vez que o 8º Doutor encontra o Brigadeiro Lethbridge-Stewart. Nada disso, porém, aconteceu. Mas mesmo assim, Minuet in Hell é um arco interessante.

Na literatura, Malebolge é o oitavo círculo do inferno, como se vê em A Divina Comédia de Dante. Aqui em Minuet in Hell, que é o remake de um roteiro de Alan W. Lear para os Audio Visuals (produções não autorizadas — mas perdoadas pela BBC — de antes do surgimento da Big Finish), o nome foi adaptado para Malebolgia (que curiosamente também é o nome de um demônio criado por Todd McFarlane em Spawn #1, de 1992), o 51º Estado dos Estados Unidos. Na comissão que acompanhava o surgimento dessa nova divisão política estava, dentre outras autoridades, o Brigadeiro Lethbridge-Stewart. E é claro, diversas semelhanças ou citações a arcos da era do 3º Doutor surgem aqui, especialmente The Mind of Evil e The Daemos.

A pior coisa da história é o vilão. A mistura do inglês caipira de alguma região sul dos EUA (não é especificado onde exatamente fica Malebolgia, mas é “pelas bandas do sul”) com a voz gutural do diabo, as possessões e os gritos de raiva do tinhoso que não era o tinhoso são sofríveis e estragam boa parte da trama. Mas se levarmos em consideração a pane da TARDIS, a perda de memória do Doutor e de Charley e a forma como experimentos mentais são feitos pela seita que costura toda a história temos um bom material em mãos.

Particularmente gostaria que o encontro do Doutor com o Brigadeiro durasse mais tempo e fosse mais… amigável. Ou que o Brigadeiro tivesse maior participação em toda a história, não apenas na reta final. Independente disso, é bom ouvir a voz de Nicholas Courtney e a volta de seu cativante personagem.

Também se destacam aqui a dupla dinâmica da vez, interpretada por Paul McGann e India Fisher. Ao final, há a promessa de algo mais “leve”. E também há a partida de Ramsay, o vortissauro que o Doutor e Charley estavam tentando domesticar desde Storm Warning. Agora liberto no vórtex temporal, o animal pode viver saudável e bem, como bem deveriam ficar os dois viajantes aqui, mas o primeiro indício de um grande problema futuro é citado no roteiro: o parasita temporal (vulgo demônio) identifica Charley como morta. Coisa boa é que não há de vir por aí…

Minuet in Hell (Reino Unido, abril de 2001)
Direção: Nicholas Briggs
Roteiro: Alan W. Lear (com colaboração de Gary Russell)
Elenco: Paul McGann, India Fisher, Nicholas Courtney, Robert Jezek, Morgan Deare, Helen Goldwyn, Maureen Oakeley, Nicholas Briggs, Hylton Collins, Alistair Lock, Barnaby Edwards
Duração: 4 episódios de c. 45 min.

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Loups-Garoux

BF #20
estrelas 3,5

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Equipe: 5º Doutor, Turlough
Espaço: Colônia, Alemanha / Rússia / Rio de Janeiro, Brasil
Tempo: 1589 / 1812 / 2080

Loups-Garoux é surpreendentemente uma história divertida do 5º Doutor em companhia de Turlough nos áudios da Big Finish. Apensar de o roteiro de Marc Platt mostrar várias histórias, motivações e alguma confusão na relação entre os personagens — especialmente do Doutor e Turlough  em comparação a Rosa Caiman, do “Deserto da Amazônia” — a trama funciona bem e se constrói como uma curiosa história de lobisomem, talvez até misturando elementos de histórias de vampiros, como a longa vida, o uso de certos sentidos para detectar os pares e os laços hierárquicos entre as criaturas.

Como eu já comentei nos nossos podcasts, eu não tenho grande simpatia pelos áudios de Peter Davison, mas vez ou outra suas histórias e sua atuação meio inocente, meio indecisa quanto ao que fazer mas sempre disposto a correr riscos e dar a cara a tapa ganha destaque e gera um bom produto, como este aqui. A história começa na Alemanha, depois passa para a Rússia e então para o Brasil, em dois lugares diferentes (mas principalmente no Rio de Janeiro), onde uma família de lobisomens vive disfarçada, sem grandes problemas, em meio à sociedade carioca do futuro, até que misteriosos ataques começam a aparecer na Cidade Maravilhosa.

Acredito que qualquer pessoa ache interessante (ou não, dependendo do caso ou do nacionalismo/patriotismo da pessoa) a representação de seu país em obras estrangeiras. Aqui, mímicas do idioma espanhol e uma organização social pouco semelhante à do Brasil é exposta no texto, embora até possamos dar um desconto porque a trama brazuca se dá no ano de 2080, o que cabe alguma licença de constituição social à essa época, e isso considerando também que estamos falando de um áudio lançado em 2001.

O caminho romântico que temos do meio para o final não deixa de arrancar um riso do ouvinte, que não consegue imaginar o Doutor casado com uma lobisomem… Ágil e modulando relativamente bem os elementos de terror, Loups-Garoux é uma história que consegue passar por cima de suas confusões e terminar bem acima da média. Muitíssimo indicada para os whovians brasileiros.

Loups-Garoux (Reino Unido, maio de 2001)
Direção: Nicholas Pegg
Roteiro: Marc Platt
Elenco: Peter Davison, Mark Strickson, Nicholas Pegg, Nicky Henson, Sarah Gale, Jane Burke, Eleanor Bron, Alistair Lock, David Hankinson, Marc Platt, Barnaby Edwards, Burt Kwouk, Derek Wright
Duração: 4 episódios de c. 45 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.