Crítica | Miss Julie

estrelas 3Poder. Desde os primeiros registros da vida em sociedade, as relações de domínio parecem prevalecer e serem um dos poucos pontos em comum dentre os mais variados contextos e conjunturas históricas. Questionada através de diversas manifestações artísticas, a soberania de um ser humano em relação a outro parece ser intrínseca e inegável em grande parte dos modelos de organização coletiva propostos até então. Dominância política, econômica, social, étnica, de gênero; os vínculos de poder são multifacetados e podem ser introduzidos de diversificadas maneiras — que, normalmente, não são independentes.

Miss Julie é, basicamente, um retrato cru da inquietante submissão dos indivíduos no final do século XIX em uma Irlanda que ainda mantinha a estrutura aristocrática. Julie (Jessica Chastain) representa o oposto do que a sociedade da época pregava. Filha de um importante barão, ela procura a liberdade, romper com a submissão — em certo momento, nos revela que sua mãe a ensinou a nunca ficar subordinada a nenhum homem — e, mais do que tudo, uma vida intensa. Tomada pela febril necessidade de manter uma existência repleta de ardores, Julie utiliza-se de Jean (Colin Farrell), um servo viajado, estudado e conhecedor de outras culturas, para seu “entretenimento” insistindo em um perigoso jogo de sedução. O elenco é completado com Christine (Samantha Morton), cozinheira e noiva de Jean. Em ambos serviçais, Julie exerce uma relação de soberania. Cercada por muros, uma vida predeterminada, nobres que juraram protegê-la e sufocada pela vida aristocrática, ela encontra em sua situação social a possibilidade de provar a si que ela tem algum poder.

A película de Liv Ullmann é a transposição fiel da peça do escritor do século XIX, August Strindberg, para o cinema. A extrema semelhança entre ambos nos apresenta dois aspectos: conquanto um deles seja positivo, visto que há o respeito na manutenção de uma obra magnífica, no outro temos uma faceta negativa, em que poucos dos méritos do filme acabam, de fato, indo para a diretora. Centrado em três personagens, utilizando, sobretudo de somente um cenário — uma cozinha —, o principal triunfo de Miss Julie está no tema que aborda, em sua importância na representação magnífica que faz ao apropriar-se do movimento estético naturalista e na intensidade e personalidade de Julie, Jean e Christine. De fato, para Liv Ullman acabou restando o questionamento de como iria abordar um enredo tão significativo. Todavia, a diretora acaba não optando pela inovação, e acabamos tendo a impressão de que grande parte das virtudes da produção cinematográfica são advindas das atuações e do roteiro — este ultimo, basicamente composto de maneira inalterável à peça de Strindberg.

O enredo de Miss Julie, assim como seu cenário, é extremamente simples e, para compreender tal fenômeno, devemos lembrar a estética naturalista em que estava inserido o escritor da obra original. É praticamente impossível compreender o longa-metragem de Liv Ullmann sem considerar a escola literária do século XIX, já que as referências a ela vão desde o roteiro até o modo como as filmagens foram feitas. De modo sucinto, o Naturalismo baseia-se no determinismo, darwinismo, crítica social, zoomorfização e realismo.

Julie é filha de um aristocrata rico, enquanto Christine e Jean são serviçais. O determinismo mostra-se presente no momento em que a hereditariedade é deliberativa na função social que cada um exerce, e este papel executada por cada um deles persiste até o fim do filme. Da mesma forma, as relações de poder, além de serem construídas com base na colocação social das personagens, exibem o darwinismo com a mentalidade de que “o mais adaptado vence”. Em Miss Julie, o mais adaptado é o com maior poder, e é exatamente sobre isso que é a película (as constantes variantes e discussões entre as personagens não permitem negar tal foco).

Já a crítica social e a zoomorfização se complementam: na denúncia da deteriorada e antiguada aristocracia, temos também a utilização da animalização de modo a mostrar que o homem é condicionado pelo homem, é um ser instintivo e não passa de mais um ser como os demais — a exemplo das discussões entre as personagens, nas quais constantemente comparam-se a cães e a outros animais e, é claro, no interessante papel atribuído ao canário e ao cachorro que participaram da trama.

Envolvido na crítica social, o realismo ganha um (talvez o único) toque pessoal de Liv Ullman. As cenas são cruas, os enquadramentos são simples, objetivos e dão a sensação de distanciamento, deixando a cargo dos atores a exploração do instinto humano e de seu psicológico. Utilizando-se desse recurso, temos uma via de mão dupla. Particularmente, acredito que essa decisão tenha casado bem com o contexto da obra. Todavia, abre espaço para um dos maiores defeitos de Miss Julie. Em seus 129 minutos de diálogos e atuações densas, é inevitável a sensação de cansaço. Em suma: adaptando fielmente um roteiro praticamente já pronto, Ullman acaba falhando em um de seus poucos desafios, o de cingir o telespectador.

Adaptações requerem ajustes. Transpor uma peça de teatro para as telas do cinema pode parecer uma tarefa um pouco mais simples, que necessita poucas modificações. Contudo, é preciso lembrar todas as diferenças entre esses dois meios de manifestação artística. Ao incumbir sua produção de uma apropriação fiel a um texto teatral, a diretora perde o ritmo: os públicos, a sensação de catarse que pode ser produzida, e muito menos o ambiente de transmissão da obra são os mesmos. Essa discrepância causa uma sensação não só de fadiga de um telespectador que luta para acompanhar os diálogos, como também a sensação de certa artificialidade dos acontecimentos e conflitos psicológicos das personagens.

Conquanto Miss Julie tenha seus defeitos, é preciso destacar o excelente trabalho realizado pelos três atores do elenco. Diante da ausência de efeitos especiais, de grandes e variados cenários, de uma história com reviravoltas e de outras artimanhas que conseguem atrair o interesse de quem assiste ao filme, o grande peso longa-metragem recai, automaticamente, sobre os atores. Jessica Chastain faz uma entrega memorável em uma de suas melhores performances, exibindo com perfeição a dissimulação e instabilidade de sua personagem que, por sua vez, é extremamente complexa. Da mesma forma, Colin Farrell transmita entre vítima e opressor com uma fluidez bastante convincente e sólida. Já Samantha Morton exibe o contraponto do enredo. Com uma coadjuvante que se mantém integra e pura durante toda a película, a atriz britânica consegue transmitir naturalidade, fugindo do tom possivelmente piegas.

Sobrecarregar a responsabilidade dos atores não foi, entretanto, uma decisão engenhosa de Liv Ullman. Faltou balancear as densas e fortes interpretações com as demais peculiaridades da produção, criando uma proporcionalidade. Infelizmente, o ótimo desempenho do elenco não foi suficiente para sucumbir as irregularidades de Miss Julie. Adaptações e remakes são, na maioria das vezes, apostas perigosas. A proposta e mensagem da obra de Strindberg é espetacular e poderia ser bem aproveitada. A privação de correr riscos e a ausência de um estilo próprio da diretora acabaram, por fim, transformando uma interessante oportunidade em algo descartável e banal.

Miss Julie (Miss Julie) – Inglaterra/Noruega/França/Irlanda, 2014
Direção: Liv Ullman
Roteiro: Liv Ullman (baseado na peça escrita por August Strindberg)
Elenco: Jessica Chastain, Colin Farrell, Samantha Morton
Duração: 129 min

GABRIEL TUKUNAGA. . . . Da Sala Precisa de Hogwarts ao Overlook de Jack Torrence, sempre fui fascinado por lugares inóspitos e indecifráveis — ainda que fictícios. Da paixão ao inexplorado, surgiu a incessante busca pelo lugar de pertencimento. Como não faço questão de resolver esse inconveniente agora, tornei-me um entusiasta que ainda tem a pueril esperança de mudar o mundo. Cinéfilo, admirador dos livros, da História e da política, ainda tento sondar e conhecer mais cada um desses itens que, felizmente, jamais poderão ser totalmente decifrados.