Crítica | Missão: Impossível (1996)

missao impossivel 1996

estrelas 4,5

Missão: Impossível foi produzido no crepúsculo de uma era em que filmes de ação, para serem considerados como tal, não precisavam induzir o espectador em vertigem ou ataques epilépticos com montagens velozes e furiosas, pirotecnias desmedidas e absurdas e efeitos em computação gráfica feitos a toque de caixa e usados só porque eles estão disponíveis. E o resultado é um filme de espionagem e ação que pode ser facilmente rotulado como um clássico moderno.

Exagero? Acho que não. Se olharmos para trás, provavelmente concluiremos que o filme de espião moderno – se é que existe essa categorização – com fantásticos exemplares como (quase todos) os filmes da série Bourne e do reboot de 007, têm, em seu DNA, traços de Missão: Impossível. Afinal, o filme produzido e estrelado por Tom Cruise, que era fã da série de televisão sessentista homônima, é uma eficiente mistura da plástica cinematográfica moderna com uma bela reverência aos clássicos de antigamente, com uma simplicidade de roteiro que trabalha a dinâmica de traições e revelações constantemente sem dinamitar a própria base em que se sustenta. Com essa solidez e coesão, graças a um trabalho de roteiro que começou com Sydney Pollack, sendo revisto e fortemente alterado por David Koepp e Robert Towne, mas sem perder o espírito.

Mas talvez o grande trunfo de Missão: Impossível, tenha sido mesmo seu diretor, Brian De Palma, responsável pelos sensacionais Carrie, a Estranha, Um Tiro na Noite, Scarface, Dublê de Corpo e Os Intocáveis, dentre outros. Usando sua invejável experiência, ele iniciou a fotografia principal sem um roteiro final, já trabalhando as mais intrincadas sequências de ação para depois encaixá-las dentro da estrutura mais ampla da narrativa ainda sendo costurada. Em mão menos hábeis, essa seria a receita certa para o fracasso retumbante, mas não é isso que testemunhamos com o resultado final. Da sequência inicial, quando vemos a missão comandada por Jim Phelps (Jon Voight) dar horrivelmente errado, até o embate de um vingativo Ethan Hunt (Cruise) no trem, passando pela inesquecível e icônica sequência do furto da lista de espiões diretamente dos “cofres” da CIA, com direito a malabarismo circense cortesia do próprio Tom Cruise, que adora arriscar seu pescoço, tudo funciona de forma azeitada na história.

É bem verdade que o roteiro se utiliza de clichês do gênero, como o recrutamento de agentes com reputação duvidosa, um protagonista que está 18 jogadas a frente no xadrez, gadgets de cair o queixo (não poderia faltar a máscara da série clássica) e por aí vai, mas acontece que cada uma das peças é encaixada milimetricamente e, depois, costuradas em um conjunto espetacular pela mencionada direção de De Palma e pela carismática atuação de Cruise. E não atrapalham, também, as divertidas presenças de Jean Reno e de Ving Rhames, além dos ilustríssimos Jon Voight e Vanessa Redgrave, essa última em uma deliciosa ponta ainda mostrando como é bela e classuda.

A trilha sonora, composta por Danny Elfman depois que Alan Silvestri saiu por “diferenças criativas” (código para briga com Tom Cruise), mantem sua marca de pura pasteurização. O compositor até tem arroubos de criatividade aqui e ali em alguns filmes, mas, nesse, ele escreve burocraticamente, sem muita pretensão de fazer algo memorável. O que salva o filme, nesse quesito, é mesmo a nova orquestração do excelente tema musical da série de TV, originalmente composto pelo mago Lalo Schifrin. Tal trabalho ficou ao encargo de Larry Mullen, Jr. e Adam Clayton, respectivamente o baterista e o baixista do grupo irlandês U2, que criaram uma poderosa versão dance eletrônica da música utilizada de maneira precisa por De Palma na sincronização com sua película.

Se, hoje, Missão: Impossível talvez não seja comparável ao frenesi absoluto de seus pares modernos, feitos para plateias que não têm capacidade de manter sua atenção se o corte tiver mais do que três segundos de duração, isso não é absolutamente culpa da produção. Culpem a estética atual, preocupada em pasteurizar a ação e em inserir o maior número de informações visuais por fotograma. Uma sequência como a que ilustra a presente crítica, construída vagarosamente, gerando tensão com gotas de suor e com longos momentos em silêncio é impensável para os blockbusters modernos, que precisam apresentar sempre mais, mais, mais para seus espectadores em completo estupor estereoscópico-pipoquento.

Missão: Impossível (Mission: Impossible, EUA – 1996)
Direção: Brian De Palma
Roteiro: David Koepp, Robert Towne (baseado em criação de Bruce Geller)
Elenco: Tom Cruise, Jon Voight, Emmanuelle Béart, Henry Czerny, Jean Reno, Ving Rhames, Kristin Scott Thomas, Vanessa Redgrave, Ingeborga Dapkunaite
Duração: 110 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.