Crítica | Missão: Impossível 2

mi2filmpc

estrelas 2,5

Quatro anos após a estreia de Missão: Impossível, sua sequência atinge os cinemas e já logo nos pôsteres conseguimos enxergar o caráter que a obra assumiria: explosivo. Não se trata de um total abandono das raízes do primeiro filme, que, por sua vez, herdou diretamente da série sessentista, mas sim uma mescla dos elementos que fizeram do antecessor um clássico moderno com as típicas características que observamos na grande maioria dos filmes de ação modernos. Um olhar externo facilmente poderia confundir Missão: Impossível 2 com um dos filmes de 007 da era Brosnan, felizmente com um grau de qualidade levemente superior.

A sequência inicial já introduz a problemática central da trama: Quimera, um terrível vírus criado em laboratório é roubado das mãos de seu criador, junto da cura, Belerofonte. Dito isso, Ethan Hunt (Tom Cruise) é tirado de suas férias pela MIF e colocado em um busca de Ambrose (Dougray Scott), principal suspeito do roubo em questão – ainda que tenhamos certeza disso desde os primeiros minutos do longa. Para completar seu objetivo, Hunt deve contar com a ajuda de dois membros da equipe escolhidos por ele e de Nyah (Thandie Newton), antiga namorada de Ambrose e por quem começa a ter sentimentos amorosos.

Já que falamos do romance presente na obra, irei utilizá-lo para exemplificar todos os nítidos problemas no roteiro que permeiam todo o longa. Simplesmente jogado na tela, a relação entre Nyah e Ethan não passa por qualquer evolução, sendo estabelecida no roteiro em dois diferentes estágios: primeiro encontro e paixão adolescente. De uma hora para a outra Hunt se vê perdidamente apaixonado pela ladra e tal característica perpetua pelo restante da projeção. Em ponto algum a personagem feminina é construída e somente existe em função de suas contrapartes masculinas. A influência de James Bond aqui é óbvia, ao passo que a garota funciona como uma equivalente de Bond Girl, noção apenas que se expande em virtude da ausência de sequer uma menção a ela no terceiro filme.

Os problemas na construção desse relacionamento, como dito anteriormente, podem também ser observados no desenvolvimento do restante da trama, que pede muito do espectador um olhar menos aprofundado. Prova disso é a maneira completamente “brega” como os diálogos são construídos – ora super dramáticos (especialmente no romance), ora composto unicamente de one-liners. Um evidente exemplo da falta de cuidado dos roteiristas é a forma como Ambrose parece atuar sem qualquer represália. Sim, temos Hunt em seu encalço, mas não há motivo algum pelo qual o antagonista não poderia ser apreendido mais facilmente, por um número maior de agentes ou até mesmo pelas autoridades locais, visto que já adquiriram provas contundentes de seus crimes. O ápice desse descuido do roteiro se apresenta já na segunda metade do longa, quando, em um tiroteio dentro de um laboratório, nenhum segurança parece ter sido ativado, algo que só ocorre quando uma bomba estoura lá dentro.

Observa-se, portanto, que a inteligência do primeiro filme foi abandonada, dando seu lugar a uma ação genérica. Felizmente a alma de Missão: Impossível se mantém através das decepções que vemos ao longo da projeção, as clássicas máscaras estão mais presentes que nunca e jamais deixam de trazer uma bem-vinda dose do inesperado para o texto. Lembro-me claramente de, quando ainda criança, ficar grandemente confundido por tais reviravoltas e o efeito, se desatentos, pode permanecer ainda, mas trata-se de um fator que apenas eleva o longa.

Esse aspecto, porém, não consegue tirar nosso pesado olhar da edição de Steven Kemper e Christian Wagner, claramente comandados pelo diretor John Woo, que já é conhecido por utilizar uma quantidade desconfortável de vezes o slow motion a fim de criar uma ação dramática mais efetiva, mas que consegue apenas irritar o espectador. Estamos falando, é claro, de uma obra que foi lançada apenas um ano após Matrix (que faz um uso preciso do recurso em questão) e é apenas natural que o sucesso da obra-prima dos Wachowski tenha influenciado os filmes de ação subsequentes. Curiosamente tal escolha apenas prejudica nossa percepção da fotografia de Jeffrey L. Kimball – responsável pelo clássico Top Gun – que, naturalmente está longe de ser uma obra de arte, mas que sabe ampliar a ação dentro de cada sequência moldando a tensão no espectador com movimentos constantes que, em ponto algum, nos deixam confusos.

O que a edição falha, contudo, a trilha de Hans Zimmer não deixa a desejar. Da fantástica variação mais rock da música tema – criada por Lalo Schifrin para a série original – até o tema de Ambrose, Zimmer consegue perfeitamente ampliar o que está na tela, criando um nítido diálogo entre imagem e som. Mesmo a primeira aparição de Hunt na obra é acompanhada por uma escolha musical mais descontraída, como se o músico dissesse que não devemos levar o filme assim tão a sério, criando uma suspensão de descrença necessária na audiência.

No fim, Missão: Impossível 2 se trata de um simples divertimento, um típico “sessão da tarde” que pede um olhar menos aprofundado do espectador, ao passo que, claramente, não conta com o grau de qualidade de seu anterior. Por mais que mantenha aspectos-chave da série original, é um iflme genérico de ação, constituindo facilmente a entrada mais fraca da franquia.

Missão: Impossível 2 (Mission: Impossible II – EUA, 2000)
Direção:
John Woo
Roteiro: Robert Towne
Elenco: Tom Cruise, Dougray Scott, Thandie Newton, Ving Rhames, Richard Roxburgh, John Polson, Brendan Gleeson, Anthony Hopkins
Duração: 123 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.