Crítica | Missão: Impossível 3

estrelas 4

Com a fraca continuação que fora Missão: Impossível 2, J.J. Abrams, Alex Kurtzman e Roberto Orci, mesma equipe que, posteriormente, nos traria o reboot de Star Trek, contava com a difícil missão (não impossível) de dar um novo sopro de vida à franquia, retomando o tom do primeiro filme ao mesmo tempo que sugasse alguns dos elementos do segundo filme a fim de apelar para as audiências que apenas querem ver mais um filme de ação. Missão: Impossível 3 certamente está longe do thriller de espionagem mais “calmo”, na falta de uma melhor palavra, que o original – sua estrutura é aquela de uma bomba prestes a explodir, como bem deixa claro os créditos de abertura, trata-se de um longa que nos leva de um frenesi para o outro e sob a batuta de Abrams não conseguimos tirar nossos olhos da tela.

Ethan Hunt (Tom Cruise) não mais atua no campo, é um homem que treina os novos agentes da IMF (Impossible Missions Force) ao mesmo tempo que busca constituir uma família com sua noiva Julia (Michelle Monaghan) – algo que apenas reitera a péssima construção do romance exibido na obra antecessora. Sua vida foge totalmente dos trilhos, contudo, quando o agente acaba incitando a ira de Owen Davian (Philip Seymour Hoffman), um comerciante do mercado negro que rapta a mulher de Hunt e que promete devolvê-la se, em quarenta e oito horas, o espião conseguir adquirir algo apenas conhecido como o Pé de Coelho. Ethan, portanto, deve partir nessa pessoal corrida contra o tempo a fim de resgatar sua amada.

Algo muito interessante da estrutura desenvolvida na obra é a forma como seu roteiro é fragmentado em atos bastante claros, muito nos lembrando a narrativa de uma série de TV. Vale lembrar que esse se trata do primeiro longa-metragem de J.J. Abrams e seria apenas natural que sua experiência em séries como LostAlias acabasse influenciando sua empreitada. O que efetivamente nos surpreende, porém, é a forma como não há constantes quebras de ritmo ou imersão dentro desse texto dividido, de forma que um ponto, invariavelmente, acaba puxando o outro e criando uma linha narrativa que oscila constantemente entre a calma e a agitação, criando uma ação de, literalmente, tirar o fôlego do espectador.

Para essa construção, o diretor/ roteirista bebe diretamente do material que veio antes – tanto filme quanto série – e escolhe a dedo o melhor para compor sua produção. Enquanto temos a presença de intrincadas operações, sendo o ápice a infiltração no Vaticano – uma sequência magistralmente conduzida, que certamente colocará sorrisos no rosto de qualquer um -, também temos o teor explosivo visto em Missão: Impossível 2felizmente sem a irritante presença do slow motion que tanto atormentou Ethan Hunt no anterior. Abrams sabe conduzir a tensão em seu longa em todas essas diferentes frontes, utilizando clássico macguffin, o Pé de Coelho, para costurar os diferentes capítulos dessa história.

A eficiência dessa fórmula, naturalmente, deve muito a Philip Seymour Hoffman, que rivaliza Jon Voight como vilão mais memorável da franquia. Hoffman, que recentemente ganhara seu Oscar de melhor ator principal por Capote traz toda sua experiência dramática para o papel de Owen Davian, um personagem que é cuidadosamente construído pelo roteiro e que, no fim, consegue gerar uma evidente tensão no espectador. Ele exala poder, algo perfeitamente exemplificado pelo diálogo no avião: mesmo em uma posição de completa impotência, Davian consegue provocar medo em nós e sabemos que, de alguma forma, ele conseguirá escapar. Aqui, portanto, entramos no único aspecto que considero um grande deslize do filme, seu fim. Enquanto todas as sequências são bem resolvidas e amarradas o fim do personagem de Hoffman é simplório demais, quase um recurso colocado às pressas no roteiro, que fora tão bem desenvolvido até então.

Antes de terminar, gostaria de trazer um ponto para o palco. Estamos falando de um filme lançado no mesmo ano (poucos meses antes) de Cassino Royale, que redefiniria a franquia 007 para um tom mais sério e até mesmo mais realista por assim dizer. Comparar ambas as séries, contudo, certamente foge do ideal e o mesmo vale para Bourne. Temos diferentes objetivos em cada uma delas e isso garante identidade a cada uma. Missão: Impossível procura nos oferecer criativas operações com situações, digamos, impossíveis. Como dito pelo nosso Ritter Fan, é uma mistura de ação e leveza que simplesmente adoramos e perder essa mistura homogênea certamente nos traria um aperto no coração.

Missão Impossível 3 pode não trazer um momento em específico tão icônico quanto a do suor no primeiro filme, mas conta com uma estrutura narrativa de tirar o fôlego que o torna simplesmente memorável. Uma mistura quase perfeita dos antigos filmes de ação com os novos, trata-se de uma obra que nos faz enxergar o por que adoramos Missão: Impossível e onde reside a originalidade que o diferencia das outras franquias de filmes de espião. Ethan Hunt não é apenas mais um James Bond.

Missão: Impossível 3 (Mission: Impossible III – EUA/ Alemanha/ China, 2006)
Direção:
J.J. Abrams
Roteiro: Alex Kurtzman, Roberto Orci, J.J. Abrams
Elenco: Tom Cruise, Philip Seymour Hoffman, Ving Rhames, Billy Crudup, Michelle Monaghan, Jonathan Rhys Meyers, Keri Russell, Maggie Q, Simon Pegg, Eddie Marsan, Laurence Fishburne
Duração: 126 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.