Crítica | Missão: Marte

estrelas 3

Um dos problemas mais graves de Missão: Marte, um filme bastante atípico de Brian De Palma, é a sua grande quantidade de “focos dramáticos”, que ao final acaba nos dando a impressão de que o filme não tem foco algum. Pergunte-se: “do que se trata Missão: Marte?” e tente responder isso de forma a fazer jus ao filme e você verá que as coisas vão mudando de figura ao longo da explicação. Primeiro, uma introdução longa, tediosa e desnecessária; segundo, uma missão mais ou menos obscura com falhas tremendas de desenvolvimento e terceiro, uma interessante missão de resgate que é afetada pela adição de camadas e mais camadas de tramas que só fazem desviar a atenção.

O roteiro da obra foi construído tomando como base as fotografias tiradas pelo orbitador e aterrissador Viking 1, lançado pela NASA em 1975. Em uma dessas fotografias há uma espécie de “face” humanoide que gerou inúmeras teorias a respeito da existência de vida no planeta. Anos depois houveram fotografias mais próximas e melhor detalhadas da região de Cydonia, em Marte, e embora os olhos e a boca da tal face pareçam ter sumido, o formato, como uma daquelas máscaras de teatro grego, permaneceu. Em um dos diálogos de Missão: Marte é dada uma possível explicação geográfica/geológica para isso.

Se tivesse um único foco e não perdesse tempo em um contexto que sequer é retomado como parte da narrativa — e não, aquele pequeno “filme” que o personagem de Gary Sinise vê passar diante de seus olhos não conta, porque tais takes poderiam ser apenas uma lembrança jamais vista por nós e isso não faria diferença alguma –, a obra poderia ter um resultado final muito melhor. Mesmo não sendo um filme ruim, Missão: Marte decepciona pelas decisões que os roteiristas e o diretor tomaram ao resolver alguns problemas, desenvolver personagens (exceto o astronauta vivido por Don Cheadle, aliás, em ótima interpretação, todos os outros possuem abordagem abaixo da média, especialmente o personagem de Jerry O’Connell) e levar a trama para o final, que de repente adota um caminho de ficção científica especulativa, com direito a alienígena de carinha simpática, código DNA para entrar na “face-nave” e término de viagem com um pé no anticlímax e outro no “como assim?“.

Mas juntamente com os bons momentos da segunda missão, destaca-se no filme o seu excelente trabalho técnico, não só pela execução mas também pela forma como se integra ao filme. Tendo entre os estúdios responsáveis pelos efeitos o Tippett Studio e o lendário Industrial Light & Magic de George LucasMissão: Marte possui um dos mais interessantes visuais para um filme que se passa no planeta vermelho e podemos contar isso dos detalhes das rochas, direção do vento, intensidade das tempestades, representação do relevo do planeta, da superfície e de seu céu… Todos os requisitos para exposição do cenário foram bem constituídos e isso é uma das coisas que faz valer a sessão, que se completa com a fotografia de Stephen H. Burum — sabiamente modulada para não deixar tudo chapado em uma placa de vermelho sem variações de tonalidade e representações de variação de luz, como muitos fotógrafos costumam fazer ao representar o planeta na ficção — e pela acalentadora trilha sonora do mestre Ennio Morricone, que ora acompanha o filme como uma valsa, aos moldes de 2001: Uma Odisseia no Espaço, ora assume o papel de narradora para os momentos de emoção à flor da pele.

Brian De Palma arriscou bastante ao assumir a direção de Missão: Marte depois que Gore Verbinski foi afastado, por problemas de orçamento. O diretor conseguiu um filme que se salva apensar dos diálogos questionáveis e uma série de erros na construção do enredo. Isso não quer dizer que não existam bons momentos na fita — já destacamos que a segunda missão tem os melhores pontos da obra, e com isso incluo até a sensacional sequência dentro da “face-nave”, que isoladamente é muito boa, perdendo-se, infelizmente, no contexto geral –, mas não há como ver o filme do começo ao fim com a mesma simpatia que temos para algumas de suas partes.

Missão: Marte (Mission to Mars) — EUA, 2000
Direção: Brian De Palma
Roteiro: Jim Thomas, John Thomas, Graham Yost, Lowell Cannon
Elenco: Gary Sinise, Tim Robbins, Don Cheadle, Connie Nielsen, Jerry O’Connell, Peter Outerbridge, Kavan Smith, Jill Teed
Duração: 114 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.