Crítica | Mister No: Amazônia

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Criado em 1975 por Guido Nolitta (Sergio Bonelli) e Gallieno Ferri — a mesma dupla que, na década anterior, criara Zagor — Mister No veio como uma versão madura e sul-americana do que autor e artista pensaram para o Espírito da Machadinha, em 1961. Espaços geográficos (a mata, os rios, os desafios da natureza), sociais (as tribos indígenas e seu confronto com as cidades) e também comportamentais perpassam as duas séries, criando um diálogo que pode até separar leitores pelo gosto: possíveis admiradores de Zagor podem reconhecer semelhanças, mas não gostar de Mister No, e vice-versa. O fato é que nesta aventura protagonizada por um americano vivendo em terras brasileiras, temos um grande senso de identificação pelo lugar, pelos costumes e cultura representados. Ao menos para mim, essas coisas funcionaram como um bom gancho de diálogo entre o personagem e meu interesse pela série, fator melhor delineado à medida que avancei pelas páginas.

Mister No funciona — pelo menos nesse começo de série — com uma narrativa de enredo principal ocupando cerca de 100 páginas de uma publicação + c. 30 páginas da edição seguinte para completar a história. O presente “arco” da crítica, publicado aqui no Brasil pela editora Record em 1990, engloba as histórias completas do volume inicial da série italiana (chamado apenas de Mister No) e do segundo volume, intitulado Amazônia. Como a ideia é de apresentação do lugar, tempo e personagens, achei bastante acertada a junção dessas duas primeiras revistas como parte de uma “mesma narrativa”, embora cada trama fale de uma coisa diferente: a primeira mostra MN prestando serviço para um “estudioso”, levando-o até um ponto difícil da Floresta Amazônica; e a segunda mostra o protagonista ao lado do jovem Ted Morasby, que está em busca do pai desaparecido durante uma viagem ao longo do Rio Urucu.

Assim como acontece em Tex e Zagor, o leitor de Mister No precisa entender que este não é um gibi histórico, algo de intenções factuais — e notem que mesmo nas ficções históricas tomam-se justificáveis licenças poéticas e dramáticas para algumas coisas, vide Face Oculta, só para ficar com títulos da Sergio Bonelli Editore –, por isso não é lícito cair na bobagem de cobrar verossimilhança histórico-geográfico-antropológica da obra, assim como questões de localização de tribos e aplicação de costumes, palavras, etc. Ainda assim esta ficção demonstra um extremo cuidado de Nolitta em expor o Brasil, fazendo um bom uso de pesquisa geográfica e histórica para construir em torno da região amazônica os dramas que envolvem Mister No nesse início de série. Aparece aqui o Estado do Amazonas, com destaque para a cidade de Manaus e localidades como os rios Tefé, Juruá e Urucu e os povos Bororos, Aimarás e Guaribos.

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Entre nomes inventados, misturados, emprestados do Peru e uma aplaudível pesquisa, o leitor que sabe lidar com esse tipo de narrativa terá aqui representações muito interessantes de um pedaço da Região Norte do país, de onde temos a posição de Mister No como “guia turístico”, alguém que passa por mais dissabores do que arranja trabalho. Fortemente chegado em uísque/cachaça/álcool; bom de briga, ex-piloto do Exército Americano (tendo atuado na Segunda Guerra Mundial) e com um senso de moral difícil de ler e mapear à primeira vista, o protagonista dessas histórias funciona como um pêndulo entre o heroísmo e o anti-heroísmo. Ele apresenta algo similar a uma crise de consciência aqui e ali, mas não se furta em defender-se à altura quando preciso — nem que pare isso precise matar um inimigo. Claro, a gente já viu isso em personagens da Bonelli antes, mas há um forte cinismo na maneira como No é escrito e lida com essas questões. O resultado? Histórias engajantes e divertidas, explorando um pedaço do nosso país que, convenhamos, ainda hoje é envolta em mistério para a maioria dos brasileiros.

Tanto a primeira quanto a segunda trama do “arco” possuem incômodas facilidades de resolução de conflitos no meio do caminho (a pior, para mim, é como No e o “estudioso” que guiava conseguem sair de um lamaçal movediço). Na segunda edição a quantidade é menor, mas elas ainda estão lá. E toda vez que algo do tipo aparece, o leitor não deixa de rir pela clara ingenuidade com que esses “pequenos milagres do destino” são inseridos na narrativa. Por não interferirem de modo intenso no desenvolvimento do texto, acabam sendo digeridos mais facilmente, apesar de terem peso na qualidade final da história, que, para nossa alegria, dá um bom salto de qualidade da primeira para a segunda. Certamente uma publicação da Bonelli que, com um plano certo de publicação, poderia criar uma boa base de leitores aqui no Brasil. Afinal de contas, são histórias imaginadas para a nossa terra. É difícil resistir a esse tipo de exposição.

Mister No, Volumes 1 e 2: Mister No + Amazzonia (Itália, junho e julho de 1975)
Editora original: Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Mister No n°1 (Editora Record, 1990)
Roteiro: Guido Nolitta
Arte: Gallieno Ferri, Franco Donatelli
Capas: Gallieno Ferri
232 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.