Crítica | Mister Universo

estrelas 2

É difícil de enxergar a diferença entre ficção e realidade em Mister Universo, novo filme do italiano Tizza Covi e do austríaco Rainer Frimmel. Temos aqui um road movie sobre o reencontro da felicidade e como a superstição pode ser utilizada apenas como desculpa para se realizar algo. Com um elenco formado por atores inexperientes, que, de fato, trabalham em um circo, interpretando a si mesmos, a obra nos traz uma dose gigantesca de realismo, mas acaba pecando pelo seu ritmo lento e falta de progressão narrativa, que traz, sim, alguns avanços para o protagonista em termos de crescimento pessoal, mas nada significativo.

A trama gira em torno de Tairo Caroli, um domador de leões e tigres de um circo italiano gerido por sua família. Em um clima de descontentamento, dentre outras razões, pela complicada situação que o circo passa no momento e a morte de um de seus animais por velhice, Tairo decide fazer uma viagem pela Itália em busca de Arthur Robin, que ganhara o título de mister universo em 1957. Como desculpa ele utiliza a perda de sua ferradura da sorte, um pedaço de metal que fora dobrado pelo próprio Robin e agora ele precisa reencontrá-lo a fim de adquirir uma nova.

A trama procede nos levando de parada em parada na viagem de Caroli. Enquanto o que vemos em tela se dá de forma realista, verdadeiramente como um documentário, não podemos deixar de nos perguntar se há algo faltando na progressão narrativa do longa. Vejam: nos muitos locais que visita, procurando informações de Arthur, não chega a existir um aprendizado ou até uma revelação para Tairo. Evidente que o reencontro com inúmeros membros de sua família representa algo dentro do filme e possivelmente era justamente disso que o personagem necessitava, ao mesmo tempo, contudo, é preciso de algo que nos prenda à obra e isso falta em inúmeros pontos.

As diferentes incursões do protagonista nos trazem algumas risadas e momentos dramáticos que conseguem nos atingir, mas ao introduzir uma estrutura capitular, dividida pelas cenas de Caroli dirigindo, somos deixados com poucos motivos para, de fato, continuar assistindo. Aqui a escolha de trabalhar com um elenco amador atua contra o filme, visto que não conseguem engajar o público tanto quanto uma atuação verdadeiramente profissional – a dose de realismo almejada pelos diretores, portanto, atua contra eles próprios, impedindo uma maior imersão do espectador, que pouco tem a se relacionar com os indivíduos que enxergam em tela.

E o elemento naturalista presente na obra não se limita às atuações. Há uma nítida ausência de uma trilha musical, que aparece somente de forma diegética e, na maior parte das vezes, ligada diretamente ao passado do protagonista, através de um antigo hit italiano composto pelo seu tio. Toda a projeção é marcada por um silêncio, que muito bem se encaixa com a disposição de Tairo, que precisa encontrar o que falta dentro de si. Não é por mero acaso que o trecho final conta com uma música crescente, finalizado com um plano focado em Wendy Weber, que trabalha no mesmo circo que o protagonista – o que precisava estava ao seu lado o tempo todo.

A direção ainda emula a linguagem documental ao trabalhar sempre com planos estáticos, que, no máximo trazem uma panorâmica ou um travelling que acompanha os personagens, em momentos bem pontuais. Sentimos, de fato, como se estivéssemos ao lado dessas pessoas, observando suas indagações e todo seu questionamento existencial, mas, em virtude das falhas do roteiro, somos deixados com pouco interesse em ver o que se passa, transmitindo um sentimento quase de apatia, que somente é combatido pelos já mencionados momentos mais dramáticos ou que conseguimos rir.

Mister Universo tenta empregar um forte teor naturalista através de uma linguagem documental, mas tudo o que consegue é não garantir nossa imersão, transformando esse em um filme de ritmo bastante lento, que, de fato, pouco acrescenta. Com poucos motivos para continuar assistindo, o anseio pelo término da obra é praticamente inevitável, ao passo que a jornada de Tairo Caroli não nos traz a revelação que esperávamos ver.

Mister Universo – Itália/ Áustria, 2016
Direção:
 Tizza Covi, Rainer Frimmel
Roteiro: Tizza Covi
Elenco: Tairo Caroli, Wendy Weber, Arthur Robin, Lilly Robin
Duração: 90 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.