Crítica | Mistérios e Paixões (Naked Lunch)

estrelas 4,5

Mistérios e Paixões é um daqueles filmes que desafia classificações. Baseado de longe no terceiro e mais famoso e controverso romance do polêmico autor americano William S. Burroughs, além de em sua própria experiência de vida, o longa de David Cronenberg exige o estado de espírito correto para que seja apreciado. E qual estado de espírito seria esse? Bem, a resposta não é simples, mas a melhor que tenho a oferecer é esta aqui: comece a assisti-lo sem nem mesmo ler a presente crítica ou pesquisar alguma coisa sobre ele ou sobre seu autor e descubra por você mesmo o que é necessário para chegar ao fim desses estranhos 115 minutos. A jornada pode não agradar – e, se você conhece um pouquinho da filmografia de Cronenberg sabe o que isso pode significar -, mas ela com certeza ficará em sua mente por muito tempo depois, queira você ou não.

Considerada uma obra inadaptável para o cinema, Almoço Nu (como Naked Lunch foi literalmente traduzido no Brasil quando o livro foi lançado) é quase uma experiência literária, a primeira de Burroughs sem preocupação com linearidade e parecendo muito mais uma colagem de vinhetas apenas muito de longe relacionadas. Como o autor escrevia sob a influência de heroína e outras drogas e havia inadvertidamente assassinado sua companheira em um jogo de “Guilherme Tell”, momento marcante de sua vida que o levou a ingressar na literatura nos anos 50, o resultado é estranho para dizer o mínimo e altamente alucinógeno para ser bem claro, ainda que muitos temas tabu – homossexualidade, doenças graves sexualmente transmissíveis (ele de certa forma prevê a AIDS décadas antes) – sejam detalhadamente abordados, o que acabou alçando sua obra como uma dos símbolos da contracultura sessentista (depois que ele, Allen Ginsberg e Jack Kerouac “fundaram” a Geração Beat) e colocando-a até hoje entre os romances modernos mais influentes da língua inglesa.

Mas Cronenberg, que também escreveu o roteiro, compreendeu perfeitamente a complexidade de se trazer uma narrativa dessas para o cinema e escreveu um roteiro que não tem apenas Almoço Nu como base, mas também a própria vida de Burroughs em um resultado levemente mais palatável para a linguagem cinematográfica, mas mantendo os temas-tabu e a pegada, digamos, lisérgica que o autor original imprimiu em sua obra. Afinal, o diretor e roteirista nunca foi um daqueles que fogem de dificuldades cinematográficas. Sua filmografia pelo menos até o final dos anos 80 é repleta de obras difíceis e desagradáveis (ou melhor, difíceis de agradar qualquer um), com um verniz de ficção científica e horror, mas que não são propriamente classificáveis como uma coisa ou outra. Mas todas, sem exceção, são ferinas na sátira e na desconstrução da sociedade, seja ao avaliar o vício pela televisão, seja ao abordar o uso irresponsável da ciência. Cronenberg era, sem dúvida alguma, o cineasta certo para Naked Lunch (Vocês repararam que estou fugindo da versão oficial em português do título do filme, não é? Acho que não preciso explicitar o porquê…).

Se existe uma forma correta de se resumir a premissa do filme, eu não sei qual é. Mas arriscaria da seguinte forma: William Lee (Peter Weller, mais conhecido por seu papel marcante em RoboCop) é um exterminador de insetos que descobre que sua esposa furta o inseticida que ele usa para drogar-se com ele, levando-o a ser preso e a começar a ter alucinações (ou não) sobre ser um agente secreto, sobre máquinas de escrever se transformarem em insetos e sobre alienígenas chamados de Mugwump em uma trama neo-noir que pula dos EUA para Interzone, uma região fictícia no norte da África onde ele começa a mergulhar a fundo nos mistérios do tráfico de drogas. Entendeu? Pois bem, nem eu… Mas Naked Lunch é assim, uma viagem pós-moderna interessantíssima que resvala no Teatro do Absurdo e no surrealismo cronenberguiano. Portanto, esperem muita criatividade e muitos momentos que ficarão provavelmente marcados para sempre em sua retina, para o mal ou para o bem.

Além da trama desafiadora e de um elenco que conta ainda com Judy Davis, Ian Holm e Roy Scheider, o filme conta com magníficos design de produção de Carol Spier e direção de arte de Jame McAteer (ambos parceiros de longa data de Cronenberg) responsáveis por fantásticas construções cenográficas extremamente detalhadas que, com paletas de cores escolhidas a dedo por Peter Suschitzky (o diretor de fotografia de O Império Contra-Ataca, dentre diversos outros clássicos), emprestam ao mesmo tempo realismo e surrealismo às sequências. Reparem, por exemplo, na cenas iniciais, nos Estados Unidos, que usam disposições cenográficas típicas dos filmes noir dos anos 40 e 50, com cores mais mudas e entristecidas, de certa forma emulando ainda a hesitação de William Lee em abraçar aquilo que ele realmente é. Quando a ação passa então abruptamente para a Interzone, a atmosfera muda para cores em tons de sépia e terra que, com elementos de cenário tipicamente árabes e beduínos, nos passa a sensação exata do tipo de local que essa região fictícia deveria ser, o que torna ainda mais interessante e profunda a abordagem homossexual quase explícita de determinadas tomadas e diálogos. Além disso, pontuando cada “momento geográfico”, há a trilha sonora do também parceiro de longa data do diretor, Howard Shore, com toques jazzísticos de Ornette Coleman, que evocam musicalmente cada aspecto da evolução narrativa, às vezes cambando para o suspense, outras para a ficção científica sem nunca ser exatamente uma coisa ou outra.

E, quase que como uma marca registrada do Cronenberg dos anos 70 e 80, há o uso cirúrgico de efeitos práticos que ao mesmo tempo fascina e afasta o espectador (ou pelo menos o espectador desavisado). Aqui, o trabalho ficou ao encargo do subestimado Chris Walas que começou sua carreia em Piranha, de 1978, teve cargo de consultor de criaturas em O Retorno de Jedi, ajudou a criar o design dos simpáticos monstrinhos em Gremlins e alcançou seu ápice no nojentamente aterrorizante A Mosca. Seu trabalho criativo em Naked Lunch é, também, de se tirar o chapéu. Desde os estranhíssimos mugwumps, passando pelas centopeias gigantes e chegando nos absolutamente originais insetos que se transformam em máquinas de escrever ou vice-versa (sim, isso mesmo que você leu), sua inventividade e capacidade de resumir temas complexos em elementos visuais arrebatadores – sem qualquer uso de efeito de câmera ou rudimentos de computação gráfica – merecem nota. É ele quem oferece a proverbial cereja no bolo da bizarrice que Cronenberg precisa para fazer sua fita funcionar.

Naked Lunch é um filme que precisa ser desbravado, mas ele exige perseverança. Certamente não agradará a todos e deixará muito mais pontos de interrogação do que respostas, mas a fusão Burroughs-Cronenberg será, de uma forma ou outra, gostando ou não do resultado, um momento cinematográfico inesquecível na vida de qualquer cinéfilo.

Mistérios e Paixões (Naked Lunch, Canadá/Reino Unido/Japão – 1991)
Direção: David Cronenberg
Roteiro: David Cronenberg (baseado em obra de William S. Burroughs)
Elenco: Peter Weller, Judy Davis, Ian Holm, Julian Sands, Roy Scheider, Monique Mercure, Nicholas Campbell, Michael Zelnicker, Robert A. Silverman, Joseph Scoren, Peter Boretski, Yuval Daniel, John Friesen
Duração: 115 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.