Crítica | Mistress America

estrelas 3

Algumas pessoas demoram para crescer. Outras possuem um processo de crescimento (leia-se amadurecimento) mais ou menos problemático, na maioria das vezes tornado caótico por outros que não souberam passar por aquela idade quando tiveram a oportunidade. Ou pelos que relativamente tarde tentam correr atrás do tempo e acham que é lícito atropelar o que encontram pela frente, em sua ânsia de viver a vida, compensando as falhas com neuroses de conquista, adotando uma postura defensiva para tudo a fim de que ninguém “descubra” os problemas por trás da muralha da pessoa vencedora, daquele que ri de tudo e por tudo, em desespero. Estes são os temas transversais que permeiam este filme de Noah Baumbach, Mistress America.

Embora com uma boa direção, diálogos espirituosos e elenco simpático, Mistress America (2015) soa um pouco como uma continuação temática e parcialmente estrutural do cinema de Baumbach. Em uma comparação reduzida poderíamos ver o diretor como uma espécie de Woody Allen em aprimoramento dentro de sua própria proposta e estilo, focado em jovens adultos que se recusam ou tem problemas para amadurecer e normalmente esbarram no amor ou no afeto por alguém próximo, não sabendo lidar com isso. Essas questões, em Mistress America, estão postas tanto no contexto familiar quanto no amoroso, lados da vida dos personagens que se entrelaçam e quase formam uma comédia de costumes com um lado humanista fortemente delineado.

O que jamais se pode negar é que Noah Baumbach sabe criar muito bem ambientes reflexivos para personagens de várias idades. Seu cinema é em tese um cinema de percalços da vida, do amor, do desenvolvimento pessoal; e sua forma de olhar a vida de jovens e adultos em diversas etapas sempre explora uma lição de moral (não no sentido de doutrinação moral, mas com alguma conquista positiva e mensagem ao término, que acaba tocando o espectador e normalmente alguns de seus personagens), não jugando nenhum lado da moeda mas dando para o público a grande verdade dessas obras: são todos humanos com um quê de caricatura.

A direção destaca bastante a docilidade e trapalhadas dos personagens, tornando a comédia leve e, como disse anteriormente, muito simpática. Algumas vezes esse espaço acaba por tornar determinados pontos do filme, que deveriam ser mais sérios, apenas um espaço para o riso nervoso, para o desencontro e a ironia, elementos que destoam da intenção primordial dessas cenas — a sequência na casa de Dylan pulula de momentos assim –. No todo, tais momentos não são ruins, mas vão dando ao filme um caráter um pouco aquém da maior substância que o próprio Baumbach se preocupou em cultivar nos seus filmes ao longo dos anos, e temos claros exemplos disso: Tempo de Decisão (1995), A Lula e a Baleia (2005) e Frances Ha (2012).

Em técnica, Mistress America é uma novidade bem vinda para o cineasta. À parte o incômodo que a montagem nos causa na reta final do filme, alterando desnecessariamente o ritmo da obra e deixando o que não deveria estar lá — um contraste para com o início objetivo e bem dosado na duração dos planos, dando o tempo necessário para determinadas cenas se construírem –, o filme tem uma boa coluna técnica com direção exemplar, elenco em boas performances (alguns exageros nas caricaturas, mas nada grave), ótima colocação de trilha sonora e fotografia de filtro roxo com forte destaque para luzes de apoio (painéis, neons, placas luminosas, luzes de ambientes sempre à vista, muitas vezes em primeiro plano), o que torna tudo muito aconchegante, uma sensação que vamos vendo desaparecer pouco a pouco à medida que o roteiro traz os problemas e a frieza com a qual todos deverão lidar.

Mistress America traz o diretor Noah Baumbach zombando ou brincando com seu próprio cinema. O exercício é bom, diverte a maior parte do tempo e faz pensar, mas está longe de ser o melhor trabalho do atual (mas não tão atual assim) queridinho do cinema independente.

Mistress America (EUA, 2015)
Direção: Noah Baumbach
Roteiro: Noah Baumbach, Greta Gerwig
Elenco: Seth Barrish, Juliet Brett, Andrea Chen, Michael Chernus, Cindy Cheung, Shana Dowdeswell, Kathryn Erbe, Clare Foley, Greta Gerwig, Charlie Gillette, Jasmine Cephas Jones, Lola Kirke, Heather Lind
Duração: 84 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.