Crítica | Mitologia Nórdica, de Neil Gaiman

A habilidade de Neil Gaiman em criar universos fantasiosos, sejam literários ou em quadrinhos é realmente impressionante. Seu Sandman é até hoje celebrado como uma das mais importantes HQs da história e suas contribuições literárias, como Deuses Americanos e Stardust – O Mistério da Estrela, são triunfos da imaginação. É por isso que a compilação de contos Mitologia Nórdica é tão surpreendente e, ao mesmo tempo, bem-vinda.

Surpreendente, pois Gaiman não está contando suas próprias histórias, mas sim histórias de outros, de uma cultura, atemporais. Ele revela, aqui, parte de sua obviamente extensíssima pesquisa para compor suas obras, já que a mitologia nórdica é parte integrante de muita coisa que ele já escreveu. É como espiar para dentro do processo criativo de um autor do naipe de Gaiman, uma pequena aula de como contar histórias há milênios muito bem estabelecidas no imaginário popular. Bem-vinda, pois sua obra não tenta ser mais do que o básico da mitologia nórdica. O autor não cria em cima, nem floreia as lendas. Não tenta criar uma história dentro de uma história, nem focar mais em um personagem do que em outro. Ele apensa conta, com suas palavras, aquilo que aprendeu durante anos de pesquisa para fins variados.

É, em última análise, quase que uma versão sofisticada de “Mitologia Nórdica para Leigos”. Portanto, o livro provavelmente desapontará aqueles que esperam histórias profundas, densas, repletas de detalhes. Muito ao contrário, Gaiman nos passa por escrito algo que, se duvidar, é muito próximo do que aquela mãe ou pai Viking do século IX ou X d.C. contava a seus filhos em uma noite gélida no que hoje é a Noruega ou Dinamarca. Ou aquilo que chefes de tribos nórdicas discutiam com seus fieis soldados antes de entrar em uma batalha, dando-lhes a certeza de que Odin e Thor estariam do lado deles na luta, mas que, caso tombassem, teriam lugar garantido no Valhalla, o Hall dos Deuses localizado em Asgard, para onde certamente seriam levados pelas belas valquírias.

Gaiman se esmera em ser simples. Por vezes, é uma simplicidade que poderá incomodar aqueles acostumados ao estilo mais rebuscado do autor, mas que, ao longo dos 15 contos, precedidos de uma introdução e de uma lista dos principais personagens e sucedidos por um glossário, resulta em divertidas historietas que dão ao leitor um belo, ainda que incompleto (mas a proposta não é ser uma obra exaustiva), panorama das lendas sobre o multi-colorido panteão de deuses e deusas nórdicos.

O autor procura manter uma certa cronologia, começando com Antes do Princípio, e o Que Veio Depois, um incrivelmente curto conto de origem do universo sob a ótica nórdica, que estabelece as figuras principais da mitologia, como Bor e, claro, Odin, o Pai de Todos. O mesmo vale para o conto seguinte, A Yggdrasil e os Nove Mundos, que amplia a origem de tudo e estabelece os demais mundos dessa literal árvore que, em seus galhos, envolve os diversos universos, inclusive o de Midgard, a Terra. Mas há histórias menos ambiciosas, de caráter bem mais prosaico, algumas até engraçadas como Os Tesouros dos Deuses, que explica o porquê do martelo de Thor ter um cabo curto demais (Nunca reparou nisso? Pois tem!) e O Casamento Incomum de Freya, que tem Loki como uma das figuras centrais. Outras histórias são mais trágicas e belas, como Os Filhos de Loki ou A Morte de Balder, ambas funcionando como prelúdios ao Ragnarök, que é o objeto do último conto, aliás.

Não há exatamente oscilação de qualidade no trabalho de Gaiman em contar as histórias e nem na lógica da escolha do que ele conta. Mas, claro, como é normal em compilações, há aqueles contos que ressonam melhor e pior com o leitor, mas isso se dá muito mais em razão da história em si do que por qualquer outro fator. Pessoalmente, por exemplo, O Hidromel da Poesia e As Maças da Imortalidade são dois contos que pouco me atraíram, mas isso variará fortemente de um leitor para o outro, por razões bem mais subjetivas do que uma análise como essa, mais ampla e geral, teria o objetivo de abordar.

O fato é que, se o leitor souber o que esperar de Mitologia Nórdica, ou seja, não um livro típico de Gaiman, mas sim uma compilação de contos baseados na referida mitologia contados de maneira informal, quase como se ao redor de uma fogueira, ele poderá funcionar muito bem. Quem, porém, esperar uma estrutura de romance ou mesmo mais profundidade nas histórias por ter bom conhecimento do material-base tem potencial de sair levemente desapontado da leitura.

Mitologia Nórdica (Norse Mythology, Reino Unido – 2017)
Autor: Neil Gaiman
Editora original: Bloomsbury Publishing
Datas de publicação: fevereiro de 2017
Editoras no Brasil: Editora Intrínseca
Datas de publicação no Brasil: 2017
Tradução (edição da Intrínseca): Edmundo Barreiros
Páginas (edição da Intrínseca): 288

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.