Crítica | Moana: Um Mar de Aventuras

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estrelas 5,0

Quem acompanhou os trabalhos da Disney em suas animações nos últimos anos (basicamente todos que não vivam em uma caverna) assistiram à triste transição da animação tradicional para a realizada em computação gráfica – digo triste não porque não aprecio desenhos neste estilo e sim porque a beleza dos traços que trouxeram à vida O Rei LeãoA Bela e a Fera, A Bela Adormecida dentre dezenas de outros quase não é vista mais (e não me refiro exclusivamente a este estúdio). Esse sentimento apenas foi ampliado com a mudança nos roteiros dos filmes, que desde então não nos entregaram nenhuma grande obra-prima como Aladdin ou A Pequena Sereia, aventuras que traziam uma perfeita amálgama de drama e comédia, com fortes toques pessoais e digo isso mesmo tendo adorado Zootopia (Frozen considero bem fraco). Tratam-se de ótimos filmes, mas não contavam com aquela alma Disney que tanto amamos. É com grande prazer que digo, portanto: Moana: Um Mar de Aventuras resgatou esse sentimento.

A trama gira em torno de Moana (Auli’i Cravalho), a filha do líder de uma aldeia da Polinésia, que sempre ansiou por viajar pelo mar afora, mas que fora limitada pelo seu pai, que teme os perigos do mar. Logo quando criança, porém, ela fora escolhida pelo Oceano para acabar com a maldição gerada pelo semideus Maui (Dwayne Johnson), que roubou a pedra-coração da deusa Te Fiti há muitos anos. Cabe a ela viajar, portanto, pelos mares, encontrar o semideus e devolver a pedra ao seu lugar original.

O longa-metragem é o primeiro realizado completamente em CGI pelo diretor Ron Clements, que conta com um currículo invejável composto pelos já citados Aladdin A Pequena Sereia, além de Hércules, Planeta do TesouroAs Peripécias de um Ratinho Detetive A Princesa e o Sapo. De fato, conseguimos enxergar com clareza a sua marca nessa aventura que se passa na Polinésia. Podemos perfeitamente ver as influências de seus filmes passados em diferentes trechos da obra, desde o mar de Ariel, até as proezas do herói grego. Impossível, portanto, para quem assistiu essas outras animações, não sentir uma forte nostalgia ao ver Moana, mas daquelas nostalgias que chegam a deixar uma lágrima no canto dos olhos a cada sequência que nos remete a essas outras fantásticas histórias.

Mas isso quer dizer que estamos falando de uma mera cópia do que veio antes? Definitivamente não! Por meio dessas misturas ganhamos algo novo, certamente um triunfo do roteiro assinado por Jared Bush, que consegue, em apenas 107 minutos, trabalhar cuidadosamente cada um de seus personagens. Desde cedo, conhecemos o espírito aventureiro de Moana, que nos lembra fortemente de Ariel, os temores de seu pai e descobrimos mais sobre o semi-deus Maui, uma mistura do Gênio de Aladdin com Hércules. Bush sabe muito bem transitar entre o humor e o drama, sem exagerar nos dois, a tal ponto que em um momento estamos com olhos marejados para, no seguinte, nos empolgarmos ou rirmos.

Mas talvez nenhuma palavra consiga descrever Moana tão bem quanto aventura. O texto segue por um caminho óbvio, apoiando-se fortemente na clássica jornada do herói, mas sentimos nele uma alma própria, fazendo com que suas diferenças se sobressaiam, nos fisgando totalmente. E dessas qualidades devo ressaltar o apaixonante trabalho de animação realizado aqui. O longa estabelece uma forte identidade visual, misturando alguns aspectos da animação tradicional por meio das tatuagens de Maui, com uma computação gráfica de fazer os olhos brilharem, com um oceano simplesmente vislumbrante. Definitivamente, o mar nunca esteve tão vivo em uma animação quanto aqui. Pequenas particularidades devem ser observadas também: o cabelo dos personagens é um belo destaque à parte, que chega a colocar um sorriso em nossos rostos, que acompanhamos a evolução desde Monstros S.A., seguido por Valente (sim, da Pixar, mas eles abriram o caminho para o que vemos hoje em dia).

Como não falar também das diferentes canções do filme? Aqui ouvimos outra marca dos saudosos longas do estúdio, com uma presença maior de músicas cantadas. Aqui não vemos algo chiclete como Let it Go e sim melodias que catapultam a narrativa para a frente e ajudam a construir essa visão do mundo da protagonista. Canções como We Know the Way chegam até a contar com trechos no idioma local, nos lembrando fortemente de Hawaiian Roller Coaster Ride, de Lilo & StitchHow Far I’ll Go, por sua vez, resgata toda a personalidade da personagem principal com exatidão, resumindo perfeitamente sua vontade irrefreável de desbravar os mares, passando a forte mensagem de que devemos perseguir nossos sonhos, independente das adversidades. I am Moana já representa o marco da jornada da heroína, colocando em palavras toda a sua evolução. Aqui acrescento um toque maior de pessoalidade, destacando a canção You’re Welcome, cantada por Maui, que certamente traz um delicioso sorriso ao rosto do espectador.

Naturalmente que o marcante trabalho de dublagem tanto de Auli’i Cravalho, quanto de Dwayne Johnson desempenham um papel essencial, a tal ponto que não conseguimos enxergar o famoso “The Rock” em Maui, o vemos como o personagem que ele é. Ambos conseguem nos cativar, tanto nas melodias quanto no restante do longa em si e somos transportados diretamente para essas ilhas. A dublagem brasileira, por sua vez, faz uma ótima tradução do filme e das músicas, mas acaba pecando no cenário melódico visto que Any Gabrielly não conta com uma voz tão potente quanto Auli’i, não atingindo as notas necessárias.

Não podemos deixar de lado o forte caráter feminino do longa-metragem. Ao contrário de Frozen, que busca forçar isso a qualquer custo na narrativa, a animação em questão insere esse aspecto de forma orgânica à narrativa – estabelece a protagonista como uma forte mulher desde o início, mas somente conforme progredimos na trama que sua importância para esse mundo vai se tornando cada vez maior. É verdadeiramente prazeroso enxergar isso, visto que rapidamente nos aproximamos tanto dela quanto do semideus e assistir a crescente amizade dos dois é revigorente, uma marca de personagens bem escritos, que vemos evoluindo a cada instante da projeção.

Moana: Um Mar de Aventuras é uma grata surpresa para quem esperava um ótimo filme da Disney, mas que não esperava que o estúdio retomasse aquela sua alma de anos passados. Com humor, drama e aventura, temos aqui o melhor longa-metragem da casa do Mickey desde Lilo & Stitch, o que não é dizer pouco. Embora tenha um texto um tanto quanto previsível, seguindo a jornada do herói bastante à risca, conseguimos ser fisgados por completo através de seu espírito empolgante e apaixonante. Não é um filme perfeito, mas suas qualidades apagam seus defeitos de tal maneira que nos sentimos compelidos a assistir o desenho novamente logo após sair a sala do cinema. Definitivamente merecedor de todas as indicações que recebeu nessa temporada de premiações.

Moana: Um Mar de Aventuras (Moana) — EUA, 2016
Direção:
 Ron Clements, Don Hall, John Musker, Chris Williams
Roteiro: Jared Bush, história de Ron Clements, John Musker, Chris Williams, Don Hall, Pamela Ribon, Aaron Kandell e Jordan Kandell
Vozes originais: Auli’i Cravalho,  Dwayne Johnson,  Rachel House, Temuera Morrison,  Jemaine Clement, Nicole Scherzinger,  Alan Tudyk, Oscar Kightley
Duração: 107 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.