Crítica | Moby Dick, de Herman Melville

O mar já proporcionou um extenso panorama de obras-primas da literatura mundial. Moby Dick é uma das mais ressonantes na cultura de massa, além de ser um complexo exercício de análise literária dentre as produções do cânone ocidental, pois combina traços da dramaturgia, da farsa, da comédia, da tragédia, da epopeia e é classificada como romance, mesmo tendo capítulos inteiros com descrições de ordem biológica. Isso é o que diz o especialista Wyn Kelley, autor de Herman Melville: Uma Introdução, livro publicado pela Universidade de Oxford. Em suma: um fenômeno literário, destes que mesmo diante de algumas (poucas) inconsistências, ressoa no imaginário cultural como verdadeiro “clássico”.

Antes de adentrar na análise específica da obra, creio que seja relevante fazer um breve panorama da concepção de clássico. O que torna uma obra digna de classificação tão imponente? Em Por Que Ler os Clássicos, o ensaísta Ítalo Calvino alega que “os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo e individual”. Lidos de várias maneiras e reinterpretados em momentos históricos distintos, “os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos”. Moby Dick é uma obra dentro destes parâmetros. Ao ressoar do século XIX para os dias atuais, é um monumento literário significativo para compreender diversos elementos políticos, culturais, sociais e estéticos, motivos, entre tantos outros, que o torna um clássico da literatura mundial. Um livro que sobrevive ao tempo e ainda diz muita coisa para os leitores contemporâneos.

Ao descentrar as regras fixas do gênero literário romance, a narrativa revela o embate entre duas forças: o homem e a baleia, humanidade e natureza. Inspirado no naufrágio do navio Essex, a obra publicada através de três fascículos, em outubro de 1851, aborda a aventura de Ishmael, marujo que embarca no baleeiro Pequod, do capitão Ahab, rumo aos confins do Pacífico, numa empreitada de caça e vingança. Acompanhado de Queequeg, homem com traços primitivos, parte de uma tribo da Polinésia, a narrativa explora a viagem dos tripulantes durante três meses, até o fatídico embate entre o capitão e a baleia, animal que concretiza o destino de todos os envolvidos na aventura.

Em Moby Dick, Herman Melville descreve um momento histórico peculiar no bojo da literatura norte-americana (estadunidense). Era uma fase de produções embasadas nas concepções românticas literárias, com o interesse do homem pelo “ideal”, distanciando-se do “real”.  Contexto histórico marcado pela reafirmação dos ideais de nação, a obra retrata, dentre tantas questões, a característica totalizadora do país enquanto estado-nação, algo que reflete, inclusive, em sua trajetória do século XIX ao contemporâneo.

Conforme aponta Bruno Gambarotto, pesquisador em Teoria Literária, Literatura Comparada e Literatura norte-americana da USP, Moby Dick é um retrato do expansionismo estadunidense no século XIX. Ao utilizar a expressão “o continente é nosso”, própria dos anais da história dos Estados Unidos, o especialista relata que o livro trata do custo humano e da violência oriunda dos objetivos políticos de expansão. Ao refletir as tensões sociais da escravidão como um dos temas que dividia a sociedade da época, a obra vai além da saga sobre um capitão vingativo em busca de vingança e mergulha profundamente numa época importante para compreensão do ideal imperialista estadunidense, algo que interessa não apenas aos estudos literários, mas ao campo das Ciências Humanas de maneira geral.

Os personagens ganham dimensões físicas, sociais e psicológicas amplas. Ishmael é o narrador, sobrevivente da tragédia, responsável por contar a história através de seu ponto de vista. Pesquisador, ele narra com paixão as aventuras, numa riqueza de detalhes, características próprias aos textos românticos, obras geralmente ricas em pormenores. A baleia, personagem adornado por simbologias diversas reforça o “mal” onipresente, o “oculto que vem à superfície”. Enigmática, a baleia surge como representação dos desafios dos seres humanos diante das forças da natureza, metáforas para os esquemas culturais que oprimiam e construíam uma sociedade cada vez mais hegemônica no que tange aos meandros do estabelecimento da indústria como forma de manutenção da sobrevivência. Em suas páginas, a jornada de Ishmael e do capitão Ahab perpassa o auge da caça às baleias como fomento ao crescimento da economia, circulando também por seu declínio, ao passo que a descoberta do petróleo demarcou o ponto final para a extração do óleo de baleias como aquecimento máximo das atividades capitalistas.

Outro tema bastante relevante para a compreensão da obra é o flerte com elementos religiosos diversos. Nação estruturada no protestantismo, os costumes dos Estados Unidos são radiografados por meio dos personagens que gravitam em torno da narrativa. Há passagens emblemáticas, tal como o sermão que os tripulantes precisam participar antes de embarcar, além da citação aos livros de Jonas (“Deparou o Senhor um grande peixe para que tragasse a Jonas e esteve Jonas três dias e três noites no ventre do peixe”) e Jó (“Eu só escapei para dar-te a nova”). Ao se tornar o único sobrevivente da aventura marinha, Ishmael se incube de narrar os acontecimentos, tais como os personagens bíblicos referenciados. Entre tantas as mensagens, temos o destaque para a incapacidade do homem diante do “divino”, representado pela força da natureza simbolizada pela baleia.

Diferente de ícones como Shakespeare e Machado de Assis, conhecidos e citados geralmente por nome e obra, Herman Melville é um autor “apagado” pelo poder da sua obra na dinâmica entre os leitores e o ato de leitura. Moby Dick é “iluminado” de tal forma que constantemente referenciamos as suas páginas, mas pouco se atém ao escritor, nome importante para a formação da literatura dos Estados Unidos. Responsável por outros romances e contos, a saga do duelo entre uma baleia e um capitão vingativo é a sua obra-prima, produção responsável por incluí-lo no estreito cânone ocidental.  Nascido em um ambiente tradicionalista, Melville assistiu a derrocada dos empreendimentos familiares, ao deslocamento da posição social de seu sobrenome e mudanças no sistema capitalista da época, acontecimentos que de certa forma permeiam toda a narrativa. Experiente também como marinheiro mercante, teve a sua aventura baleeira que permitiu imaginar a clássica história que criou.

Amplamente permeado pela cultura de massa, Moby Dick já foi ponto de partida para diversas traduções intersemióticas: histórias em quadrinhos, cinema, música. Muito além destas ressonâncias em outros meios artísticos, a saga do narrador Ishmael é um ótimo exemplar para o exercício da literatura comparada. A sua estrutura, bem como alguns conflitos e temas, interligam-se aos conflitos acerca da honra e da obstinação de Santiago (O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway), bem como ao espaço de interação de Riobaldo (Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa): troque o desbravamento do sertão pelo mar e tenha um digno jogo de espelhos comparativos de cunho literário.

Moby Dick (Estados Unidos, 1851)
Editoria original:
 Harper & Brothers
Autor: Herman Melville
Tradução: Alexandre Barbosa de Souza, Irene Hirsch
Editora no Brasil: Cosac Naify (2008)
Capa brasileira: Luciana Facchini
Páginas: 656

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.