Crítica | Mogli: O Menino Lobo (1967)

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estrelas 4,5

Obs: texto contém SPOILERS. Por ser muito extenso foi dividido em duas páginas.

Razão

Certos filmes crescem a partir do momento que passamos a descobrir, pouco a pouco, os acontecimentos de seus bastidores. Todas as complicações e alegrias vindas da produção inteira de uma obra de tamanha complexidade. Seja com as histórias absurdas e fantásticas vindas diretamente da nova Hollywood dos anos 1970 ou aqui, em uma obra considerada pequena diante de outros filmes que Walt Disney produziu ao longo de sua carreira sendo Mogli a última animação que teve seu envolvimento direto.

A concepção para uma animação baseada na obra de Rudyard Kipling veio de Bill Peet, um ilustrador parceiro de Disney desde A Branca de Neve e os Sete Anões. Tendo trabalhado em praticamente todos os longas animados de peso como Pinóquio, Dumbo, Fantasia, 101 Dálmatas, Peter Pan e Cinderela, Peet era uma figura de extrema confiança dentro do estúdio.

Porém, assim como Disney, Peet veria sua história no estúdio acabar também em Mogli. O motivo foi simples e compartilhado em suas memórias: divergências criativas. Peet fez diversos storyboards para o filme, porém, sempre guiando a história para tons mais sóbrios, sombrios e reflexivos vindos diretamente do livro de Kipling. Incomodado pelo pouco envolvimento pessoal com projetos de longas-metragens e das críticas a 101 Dálmatas e A Espada era a Lei, Walt Disney decidiu intervir mais em Mogli.

Ao se deparar com a coloração sombria que seu filme estava tomando, imediatamente foi reclamar com Peet que permaneceu irredutível em relação as mudanças propostas por Disney. Nisso, após desenhar praticamente todos os storyboards da obra, Peet abandonou o projeto e também seu emprego no departamento de animação. Uma cisão que marcou história abalando o restante da equipe.

Entrando de cabeça no projeto, Disney orientou a produção inteira para formar uma das animações mais fantásticas de sua história. A guinada para o tom mais leve, divertido e muito livre da obra original foi feita assim como desejava Disney. Nisso os quatro roteiristas, principalmente Lerry Clemons, se dedicaram em tornar a aventura de Kipling menos fragmentada e burocrática. Simplificaram tudo ao máximo até dar origem a história que temos aqui.

De fato, eles pouco se preocupam em estabelecer algum backstory para Mogli, afinal os storyboards de Peet – sim, muitos foram mantidos por Disney mesmo depois da saída dele do projeto – já conseguem sugerir que Mogli é uma criança perdida graças a uma enchente que levou o barquinho onde estava até a floresta. Os indícios da tragédia só são sugeridos e nunca abordados de frente. Talvez por saber que já estava no fim de sua vida, Disney viu essa necessidade em deixar sua última obra com o tom mais leve possível.

O núcleo narrativo com os lobos, significativamente maior no livro, também é resolvido rapidamente. Há algum vislumbre de Mogli e sua felicidade em conviver com sua família de lobos. Apenas é avisado ao espectador, durante uma reunião do conselho da alcateia, que Shere Khan, um maligno tigre-de-bengala que odeia os homens, voltou para aquele território da floresta à procura de Mogli colocando em risco todos os lobos. Sem a consciência do garoto, Baguera o leva para uma caminhada com a intenção de separá-lo da alcateia.

Com o início da jornada até a aldeia dos homens, a aventura começa de vez. O caráter episódico realmente desaparece e as coisas acontecem com naturalidade a cada inserção de novos personagens abarrotados de carisma. Com todos, há cenas boas de desenvolvimento. Algumas se dão pelas tradicionais canções da Disney que sempre agregam mais para a narrativa do que até mesmo os diálogos.

Os personagens, em maioria servem como alegorias, fugindo do básico. Para a tropa dos elefantes do general Rathi, há certo contexto que sugere um veterano saudoso das tropas dos antigos tempos – Segunda Guerra e Guerra da Coréia, enquanto se comporta com novos recrutas desanimados. Se levarmos em conta o ano da produção de 1967 e com o fim da Guerra do Vietnã acontecendo somente em 1975, é possível depreender o que Disney queria dizer aqui. Até há a menção ao corte de cabelo “rebelde” de um dos elefantes até ser cortado por Rathi à escovinha, corte tradicional do exército. Também é possível interpretar a confusão da tropa como uma boa metáfora à ocupação inglesa na Índia que só veio a terminar em 1947, vinte anos antes de o longa ser lançado.

Esse pequeno núcleo narrativo é onde os roteiristas passam a desenvolver Mogli apropriadamente, se não considerarmos o breve diálogo que ele tem com Baguera após partir de sua casa.  Mogli então, ainda sem entender o que é ser um humano, passa imitar outros animais. Isso ocorre durante o filme inteiro, mas é mais explícito com os elefantes, com Balu e na sequência do Rei Louie.

Aparecendo sem a menor cerimônia, espontaneamente, surge o melhor personagem do longa, o simpático urso Balu. Ao contrário de outras obras como O Cão e a Raposa, Reitherman e os roteiristas conseguem imprimir rapidamente essa forte união entre Mogli e Balu inferindo até mesmo uma mensagem bonita sobre adoção. Na possivelmente melhor canção de uma trilha musical fantástica, eles bolam um divertido jogo onde Mogli tenta imitar as ações de Balu, mas nunca conseguindo ser bem-sucedido graças as diferenças naturais entre os dois: pele, força e peso.

Neste roteiro, Mogli tem suas decisões mais respeitadas por Baguera que não insiste em levar o garoto embora depois que Balu o adota. Aliás, Baguera pouco insiste em praticamente a tudo em relação a Mogli, porém o sentimento de compromisso é sempre presente para socorrer o garoto. É bem verdade que o filme praticamente joga a pantera em escanteio a partir do momento que Balu surge, algo que considero bem adequado visto a energia e presença de cena que o urso possui.

Logo depois do discurso do desapego e livre de stress que Balu prega, evocando o modo de vida descompromissado, Mogli é sequestrado pelos macacos. Então, pela primeira vez, Balu é confrontado com a responsabilidade. Sem reação, ele clama ajuda de Baguera. Isso é importante destacar, pois é o primeiro dos três momentos definitivos da evolução de Balu ao longo do filme – é um cerne deveras profundo e emocionante do longa.

Chegando ao templo abandonado onde o Rei Louie vive, Mogli tenta se adaptar mais uma vez a um novo ambiente. Somente neste trecho, há a menção ao fogo, um elemento que Kipling marreta no livro inteiro com o nome de “flor vermelha”. Algo que Mogli nunca tinha visto em sua vida. O interessante disso é que a motivação de Louie é extremamente perversa e genocida – novamente, estamos falando do século XX, um dos mais violentos de nossa História e, além disso, Rei Louie é um personagem original do longa animado. Louie quer o fogo para dominar a floresta, representar uma ameaça a todos os animais refletido também pelo desejo de se “transformar” em homem – ainda que seja no sentido figurado a partir do momento que ele dominaria o fogo. Entretanto, é interessante como o orangotango tem essa motivação autodestrutiva em sua conquista insana e narcisista, exatamente como nós, homens. Sem saber, o macaco já tinha virado Homem com seus pensamentos torpes.

Já tive esse tipo de percepção sobre as entrelinhas muito inteligentes que Disney colocava em seus filmes, principalmente com Dumbo. Ainda acho um exercício maravilhoso ver como nosso olhar acerca desses filmes mudam tanto conforme ficamos mais sábios. Mogli é um filme extremamente presente na minha infância, eu amava cantar Somente o Necessário e ver Rei Louie cantando Quero ser como você e dançando junto de Balu. No alto de minha inocência, se tratava apenas de uma canção muito divertida e de personagens carismáticos, alegres e cheios de vida. Que realizador genial. Uma perspicácia em tornar seus filmes atemporais que pouquíssimos mestres têm.

Ainda na sequência de Rei Louie, Balu falha em ser responsável. Se encanta pela canção dos macacos e coloca em risco a segurança de Mogli. Porém, com tudo dando certo no final, seguimos para a cena onde ocorre a segunda vez onde o urso é confrontado por Baguera que insiste para que Mogli retorne à vila dos homens. Esse segmento não é nada menos que genial, além do teor do diálogo ser bastante denso envolvendo diversas problemáticas. Mas também quando Balu, de acordo com Baguera, vai conversar com Mogli para trazer as más notícias.

Nessa cena, Reitherman e os animadores acertam em cheio ao apostar nos contrastes da animação de Mogli e Balu. O garoto está todo agitado e feliz em viver como um urso, achando a vida do somente o necessário a melhor coisa que poderia lhe acontecer, pulando pelo cenário caçando uma borboleta e estampando um belo sorriso. Já Balu anda com passos lentos, gesticula com melancolia e desespero, seu rosto é cheio de expressões que buscam a coragem necessária para contar algo que sabe que partirá o coração do menininho. Essa é a primeira transformação de fato onde Balu age sozinho com responsabilidade, ainda que impulsionado por Baguera.

A transformação na atmosfera da linguagem corporal dos dois é sentida a partir do momento que Balu finalmente confronta Mogli que foge para a floresta. Talvez, nessa parte, o filme perca um pouco de sua força costumeira. Nas três cenas que constituem nesse segmento, Mogli se sente abandonado e sozinho, é quase comido novamente por Kaa – a cobra carismática cheia de sinusites e de olhares hipnotizantes – Baguera e Balu pedem ajuda para a tropa de Coronel Hathi – um arco que é logo esquecido, mas que finalmente introduz Shere Khan. O antagonista é excelente, ainda que receba pouco tratamento no roteiro bastante expositivo, porém os diálogos, a malícia expressada por suas caras e bocas, o design de corpo esguio com patas corpulentas repletas de enormes garras e o trabalho de voz impecável de George Sanders tornam esse personagem absolutamente poderoso, vivo em nossa memória.

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MATHEUS FRAGATA . . . Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar.