Crítica | Mommy (2014)

estrelas 5,0

Um quadrado. A tela do cinema se dimensiona e se aperta para excluir os excessos e ampliar os detalhes. Essa escolha estética cativa desde a primeira cena de Mommy e provoca um “uau” explosivo ao atrelar isso ao estado de espírito dos personagens. Por duas vezes a tela se abre com o intuito de arregaçar as emoções que aliviam o drama ao máximo, a partir da ideia central de liberdade. Afinal, este é um filme de impactos, colisões e contrastes. E tudo o que é encadeado pela edição — de timing certeiro –, desde as músicas que conectam até as ações que inspiram, consegue dialogar com a luz e sombra de cada personagem, com cores que aquecem a paleta e dão uma concepção de profundidade à narrativa.

É nisso que Mommy se destaca, na maneira intrínseca como abusa das possibilidades estéticas e cria intensidades que eletrificam o espectador. É impossível desviar o olhar. A caixinha desenhada na tela te proíbe de buscar fôlego, que só chega quando o personagem Steve permite. A interpretação do ator revelação de Cannes, Antoine-olivier Pilon, é emocionante e sensitiva. Ele é Steve. Doce e carinhoso, o rapaz sofre com TDAH mas nem isso ou os acessos de fúria o impedem de sonhar em estudar na Julliard.

Composto, quase que exclusivamente, por cenas potentes e cheias de emoção e beleza, esse longa canadense percorre um traçado interessante com o roteiro escrito pelo diretor Xavier Dolan. Nele, um governo fictício acaba de aprovar a lei S-14 que permite aos familiares abandonar os jovens problemáticos aos cuidados do governo a qualquer momento, sem contar com burocracia alguma. O cenário do filme já se fecha nessa possibilidade e assim vemos as implicações e desafios de mãe e filho.

A mãe vive um contexto deslocado — o que pode muito bem ser identificado pelo guarda-roupa com influência dos anos 70 — e volta a viver com o filho, depois da expulsão por delito de um internato correcional. Esse é o golpe inicial que desarranja o prumo de Die, interpretada por Anne Dorval. Essa mãe não tem as respostas, ela não é a figura resolvida que vai ajustar a desordem. Ela é tão perdida quanto o filho. Nesse sentido, as referencias ao filme Esqueceram de Mim trazem familiaridade à trama e é mais uma história dentro da história com a relação do filho que só cria problema e fica abandonado em casa, mas dessa vez a mãe se iguala no estado de desamparo.

Outra história contida em um olhar e que aparece de relance é a sexualidade do garoto.

Entre tantos esbarrões, uma pessoa entra em cena para equilibrar a equação. Do outro lado da rua onde moram está a personagem de Suzanne Clement, Kyla. Uma mulher com claros problemas emocionais que a fazem prender as falas dentro dela mesma, soltando com dificuldade aquilo que ela quer dizer. Juntos, os três se apoiam para sobreviver aos conflitos e recuperar a esperança. Uma esperança que ganha mais um fôlego no último segundo do filme.

O desacato às imposições parte da maneira como o diretor foge do tradicional e permeia o escopo das personagens. Com seu 5° filme, ganhador do Prêmio do Júri em Cannes, Dolan mostra que sabe como fazer funcionar uma história usando criatividade visual e sensibilidade de composição e execução, além do refinamento em extrair interpretações marcantes dos atores. A cena final fica. A cena inicial fica. Todas elas ficam grampeadas na mente do espectador que é convidado para uma experiência sensorial feita sob medida para a tela de cinema.

E o filme é uma linguagem própria de comunicar o amor de Xavier Dolan com a figura materna. Segundo a nota do diretor, em sua estreia com Eu Matei Minha Mãe (2009) ele quis de certa forma punir a mãe e agora essa é a chance dela de se vingar. “Porque é para ela que eu sempre quero retornar. É ela que eu quero ver ganhando a batalha, é para ela que eu quero inventar problemas de modo que ela tenha o crédito de solucionar todos eles, é através dela que eu me questiono, é ela quem eu quero escutar gritar alto quando não dizemos uma única palavra. É ela que eu quero acertar quando estávamos errados, é ela, não importa o quê, que terá a última palavra“. E esse amor batiza o longa, Mommy.

Mommy (Canadá, 2014)
Direção: Xavier Dolan
Roteiro: Xavier Dolan
Elenco: Anne Dorval, Antoine-olivier Pilon, Suzanne Clement, Patrick Huard, Alexandre Goyette, Michèle Lituac, Isabelle Nélisse, Pierre-Yves Cardinal, Viviane Pascal, Natalie Hamel-Roy
Duração: 134 min.

GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.