Crítica | Mônica e o Desejo

estrelas 3

A filmagem de “Mônica e o Desejo” foi realmente agradável e divertida do começo ao fim. Em seguia voltamos do arquipélago e filmamos algumas cenas de interior. Tudo ia muito bem… e depois a censura cortou… Principalmente a cena em que, depois da briga, Harry e Mônica se embebedam juntos. Havia também uma outra cena, de amor, que eu filmei como selvagem e orgíaca, mas a censura cortou tudo. Porém, este é um filme do qual gosto muito e que faz parte dos que revejo sempre com prazer.

Ingmar Bergman, junho de 1968

Após sua passagem pela estética e temática neorrealista nos anos 1940, Ingmar Bergman caminhou pelo realismo e pelas emoções de suas personagens durante a década seguinte, um exercício que chegaria a um estágio laureado no final da década de 1950. Mônica e o Desejo (1953), é um dos filmes desta “segunda fase” do cineasta, um momento em que podemos identificar de obras excelentes a experiências apenas aceitáveis, categoria na qual o presente filme se enquadra. Embora idolatrado por uma legião de cinéfilos, Mônica e o Desejo não se exalta tanto em meio a filmografia de Bergman.

Baseado na obra de Per Anders Fogelström, Mônica e o Desejo é um filme sobre as diferentes fases da vida de uma jovem romântica que sofre de liberdade crônica. Seu encontro com Harry, o idílico retiro para uma ilha, a vida no barco, a chegada de uma bebê e as regras de um matrimônio no início da vida adulta são os ingredientes que formam a obra, ajustados em cerca de três atos bem distintos: o encontro, o amor (ou o verão) e o casamento. Em cada uma dessas partes, presenciamos o crescimento dos protagonistas como pessoas e amantes, para depois vermos as suas primeiras grandes decepções e caminhos distintos traçados, com destaque para a irresponsabilidade, potente libido e vontade de ser livre de Mônica (Harriet Andersson).

O roteiro conserva o caráter de uma “história de pessoas comuns” e problematiza as mudanças que o tempo causa em suas vidas. A cidade de Estocolmo é um dos cenários-chave da história, mas quando o verdeiro momento feliz do casal acontece, não estamos no meio urbano. Ironicamente, todo esse período se passa em regiões próximas à água ou dentro do próprio barco. A escolha do cenário não foi ao acaso, uma vez que a volatilidade desse elemento reflete o momento do casal de apaixonados. Quando eles retornam à cidade, temos a sensação de que aquele estágio conformista e matrimonial de suas vidas é para sempre, guardando a imagem negativa que essa afirmação passa, uma observação feita pelo próprio Fogelström, co-roteirista do filme e autor do romance.

Tanto por motivos orçamentários quanto pela composição estética pretendida por Bergman para essa história, Mônica e o Desejo é um filme tecnicamente muito simples, mas salvo a lamentável montagem, temos uma bela composição individual, indo dos figurinos à direção de fotografia, mais uma vez, a cargo de Gunnar Fischer. A captação da atmosfera existencial lasciva e essencialmente jovem de Bergman feita pelo fotógrafo une-se a um dos temas mais interessantes dos diretores em termos de imagem: o verão. A carga metafórica e poética da estação ganha o seu maior destaque no segundo ato, certamente o melhor do filme e o que mais explicita a essência dos apaixonados, constituindo-se também um epílogo da felicidade.

Fischer concebeu verdadeiros mergulhos na alma dos protagonistas, que sob orientação de Bergman, praticamente atacam o espectador com seus olhares penetrantes e repletos de significados. Dentre os planos mais notáveis, temos o de Harry, ao ver sua filha pela primeira vez, no hospital; o de Mônica, quando tem o seu encontro extraconjugal — aliás, toda essa sequência no bar é primorosa, principiando em uma junkiebox e na mão de um homem marcando o tempo da música, indo até o olhar desafiador e ao mesmo tempo confessor que Mônica dirige ao espectador; e de volta a Harry, ao término da obra, temos o plano com um olhar misto de desamparo, desafio e amor.

A despeito das reservas em relação ao roteiro do filme — tenho-o como um dos exemplos mais abruptos e estranhamente decupados de Bergman (com exceção de algumas poucas sequências) –, reconheço a beleza e a força da temática, além de observar claramente a leveza e literal paixão com que o diretor conduziu o casal Harry e Mônica, especialmente a jovem, que se tornaria sua primeira grande musa. Embora goste da atuação de Harriet Andersson neste filme, considero realmente boas suas aparições a partir da sua parceria seguinte com Bergman, o maravilhoso Noites de Circo, também de 1953. Todavia, há algo em Mônica e o Desejo do qual não consigo gostar: a montagem. Fico pasmo ao constatar a monumental incapacidade dos editores Tage Holmberg e Gösta Lewin em criar um ritmo dramático e uma cadência temporal condizente com o produto que tinham em mãos.

Aqui, um parênteses confessional. Sou um confesso admirador do trabalho de Oscar Rosander, o primeiro editor de Bergman, que por algum motivo, não conseguiu trabalhar em Mônica e o Desejo (mas voltaria em Sorrisos de uma Noite de AmorMorangos SilvestresO Rosto e A Fonte da Donzela). Fico imaginando como seria este filme se Rosander tivesse realizado a montagem. Com base em seus outros trabalhos com Bergman, é possível afirmar que o incômodo uso de fades e a criação de elipses na linha cronológica de Mônica e Harry seria completamente diferente, por certo menos imediatos nos momentos de interação entre as personagens (corrigindo em partes esse caráter bem estranho do roteiro) e mais ágeis e dinâmicos na exposição das paisagens. Para que se tenha noção, o trabalho dos editores aqui deixou tanto a desejar que eles não foram creditados e o próprio Bergman (assumido desorientado editor) teve que levar parte dos negativos à moviola e tentar minimizar o estrago, tentativa que não rendeu muitos frutos.

Apesar dos tropeços, Mônica e o Desejo é um filme intenso e tocante. As atitudes impensadas dos jovens, seu tempo de felicidade e então o enfrentamento da responsabilidade paternal/maternal ganham contornos trágicos, mas plenamente realistas e sabemos que isto não se resume aos jovens suecos dos anos 1950. Bergman ousa expor a juventude através do sexo, do amor, das ações impensadas, do nu (mesmo com a mão da censura, a cena da nudez de Harriet Andersson foi mantida, e é plena de significado, não estando no filme apenas para impressionar ou tornar o produto atraente para uma parte do público). Apesar de não ser um dos meus filmes favoritos de Bergman, sempre me rendo à ideia e ao poder que ele ganha quando se completa, no último take. É como se nós sentíssemos a dor da separação, a possível esperança de um futuro melhor ou mais suportável e o peso ou o ganho da maturidade sobre os ombros. É como se víssemos pela primeira vez a chegada da vida adulta para uma dupla de indomáveis jovens.

* Crítica originalmente publicada em fevereiro de 2013.

Mônica e o Desejo (Sommaren med Monika) — Suécia, 1953
Direção: Ingmar Bergman
Roteiro: Per Anders Fogelström
Elenco: Harriet Andersson, Lars Ekborg, Dagmar Ebbesen, Åke Fridell, Naemi Briese, Åke Grönberg, Sigge Fürst, John Harryson, Georg Skarstedt, Gösta Ericsson, Gösta Gustafson
Duração: 96 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.