Crítica | Monsieur Verdoux

estrelas 4,5

Entre O Grande Ditador e Monsieur Verdoux, o filme seguinte de Chaplin, sete anos se passaram. O hiato é perfeitamente justificável em vista das questões geopolíticas que assolaram o mundo com a ascensão nazista na Europa nessa época, mas há, também, um outro fator menos conhecido que afetou exclusivamente Chaplin, o chamado “Caso Barry”, que levou o produtor/ator/diretor a disputar a paternidade de uma criança pela aspirante à atriz Joan Barry, com quem tivera um caso intermitente entre 1941 e 1942.

E essa discussão judicial ainda ganhou contornos mais profundos, pois o então diretor do FBI, J. Edgar Hoover usou o episódio para fazer ruir a reputação de Chaplin em razão de seu viés político, com uma intensa e absurda perseguição com base no Caso Barry. E, como se isso não bastasse, não muito depois que a ação de reconhecimento de paternidade foi ajuizada, Chaplin anunciou o casamento com Oona O’Neill, filha de Eugene O’Neill, então com 18 anos, enquanto ele próprio já estava com 54. Em outras palavras, foi um período conturbado na vida desse grande artista que culminaria com sua expulsão dos EUA em 1952.

Mas Charles Chaplin não se fez de rogado e, em meio a toda essa controvérsia, correu atrás da produção de Monsieur Verdoux, talvez seu filme mais incendiário e certamente o que é menos compreendido pelo público em geral, muito em razão de sua má recepção nos EUA e do completo desaparecimento do amado personagem Vagabundo, em troca de outro bem mais complexo e absolutamente inusitado. Assistir Monsieur Verdoux, por isso, exige um certo estado de espírito e a compreensão de que esse talvez seja o menos chapliniano filme de Charles Chaplin, ainda que suas marcas estejam presentes.

E, se o contexto histórico da produção desse drama com fortes tons de humor negro (realmente, não consigo considerar Verdoux como uma comédia) não o fez abrir os olhos para o filme, então saiba que a história partiu de uma ideia de Orson Welles, que queria dirigir a obra com o próprio Chaplin atuando. Chaplin negou, mas viu potencial narrativo e acabou adquirindo os direitos, passando a produzir, escrever o roteiro e protagonizar. Reparem bem: Monsieur Verdoux é o “filho” de dois monstros do cinema mundial. Mais um fator que torna o filme obrigatório para cinéfilos.

Sei que pareço vendedor de facas Ginsu, mas tem mais! Monsieur Verdoux, além de ser uma ideia de Welles, é baseado livremente na vida de Henri Désiré Landru, um francês que, no final do século XIX, passou a seduzir viúvas para tirar o dinheiro delas e, quando conseguia, ele as matava, desmembrando-as e incinerando-as em um forno. Ele foi, literalmente, o Barba Azul dos contos de Perrault, apelido que Chaplin traz também para o filme e para seu personagem título. Em outras palavras, não só temos o conturbado aspecto pessoal da vida de Chaplin por trás, como uma “parceria” com Welles e uma mais do que inusitada história em que o ator que criara o inesquecível Vagabundo vive um serial killer polígamo. Se quiser parar de ler essa crítica para correr atrás do filme, não o culpo. Siga em frente, assista e volte aqui!

Voltou?

Pois bem. O que Chaplin faz com uma história sanguinária dessas é transformá-la em um “filme de Chaplin”. E esse é o maior estranhamento que o espectador sentirá (depois de se acostumar a ver o ator como outro personagem e um assassino ainda por cima…): o gravíssimo assunto que a película aborda é tratado com lentes leves, de humor negro, mas sem que os crimes, que nunca aparecem em tela, sejam banalizados. O roteiro de Chaplin faz uma arriscada – mas arriscaria dizer, perfeita – mescla entre drama e comédia física, bem no estilo dos filmes que o consagraram. Não digo que é imediata a aceitação dessa mistura, pois não é, mas, dada uma chance justa ao filme, a recompensa é fantástica. Chaplin dosa muito bem os momentos pesados com seu peculiar humor, gerando sequências absolutamente inesquecíveis como ele tentando assassinar uma de suas desbocadas esposas, Annabella Bonheur (Martha Raye), em um barquinho no meio de um lago, ou quando ele tenta seduzir uma viúva (Marie Grosnay, vivida por Isobel Elsom) que se interessa em comprar a casa de uma de suas finadas ex-esposas ou ainda quando, na penúltima sequência cômica, ele tenta se esconder de Annabella em mais um casamento seu.

A surpresa vem do quão parcimoniosa é a inserção de momentos tipicamente chaplinianos, o que acaba permitindo ao espectador flutuar entre os dois gêneros cinematográficos – drama e comédia – sem sentir a marola criada. Quando vemos Verdoux cair pela janela no primeiro “momento pastelão”, nos assustamos, mas essa é a extensão de nosso estranhamento. Chaplin faz issso para marcar seu ponto e para nos retirar da letargia que eventualmente sua (des)caracterização tenha criado nos primeiros dois minutos. Depois, não é que esse estranhamento desapareça, pois ele não desaparece, mas ele passar a ser fluido, bem construído e “invisível” dentro da estrutura narrativa proposta.

Ajuda também o cuidado com o design da produção. Em vista da poligamia de Verdoux, diversos cenários diferentes se fazem necessários, um para cada esposa. Todos são muito característicos para tornar fácil a diferenciação pelo espectador, não deixando dúvida do ambiente em que Verdoux está, especialmente considerando que ele ainda tem um “quartel general” e uma esposa e filho verdadeiros (a razão de ele fazer o que faz se prende a seu amor por sua família) em uma espécie de casinha do interior francês. O cuidado com figurino também reflete essa multiplicidade de lugares (todos na França), com o próprio Verdoux alterando suas “fantasias” (pois são mesmo fantasias) dependendo da personalidade que adota.

E Chaplin, como de costume, compôs também a trilha sonora, fugindo do tom jovial e alegre – por vezes melancólico – de trabalhos anteriores e mergulhando em uma mistura, como o filme exige, entre humor e drama, até thriller em determinados momentos, como no começo, com a família de uma das esposas de Verdoux preocupada com o paradeiro dela e ao final, na controversa sequência do julgamento. E a transição se dá como a que existe entre comédia corporal e drama, suavemente e sem maiores percalços depois que o espectador passa pelo primeiro – e breve – susto de aclimatação.

Falando na sequência do julgamento, esse é o momento que realmente não funciona em Monsieur Verdoux.  A controvérsia que exige ao redor dela é muito mais política do que qualquer outra coisa, pois a paranoia americana, à época, viu o discurso antibelicista como algo mais profundo, anticapitalista. E, de fato, há contornos dessa natureza, mas esse é só um posicionamento político do autor e nada mais. O que incomoda não é sua posição, mas sim a maneira como ele trata a questão. E, para isso, precisamos voltar um pouco ao filme em si. As atitudes de Verdoux são, de certa forma, justificadas dentro da narrativa como a saída que o personagem encontrou para manter sua família depois que ele é demitido de seu emprego de mais de 30 anos em um banco. Seu rancor em relação ao sistema bancário – e, portanto, capitalista – é visível em suas várias manobras na bolsa de valores ao telefone. O trabalho de Chaplin no roteiro, nesse tocante, é irretocável.

O problema é que, de maneira muito canhestra, quando o filme se aproxima de seu encerramento, não só a família de Verdoux sai da narrativa sem maiores justificativas, deixando o espectador quase que pendurado sobre o assunto, como, no julgamento por seus crimes, Verdoux aproveita para literalmente fazer um longo e pouco característico discurso sobre como suas atitudes não são nada se comparadas com as mortes infligidas pelas guerras, direta ou indiretamente. Suas críticas até procedem, mas elas não justificam a atitude do personagem e, pior do que isso, criam um momento expositivo que simplesmente não combina com todo o trabalho anterior. O assunto já estava claro de maneira indireta por tudo o que veio antes e o discurso parece mesmo aquilo que ele é: uma reclamação de Chaplin (não de Verdoux) em relação à sua perseguição nos EUA. Apesar de compreensível, havia formas mais elegantes de se alcançar o mesmo objetivo.

Apesar desses problemas ao final, Monsieur Verdoux é uma obra de grande estatura que merece ser assistida não só por seus méritos intrínsecos, como, também, pela combinação de fatores que a levou às telonas. Pode ser um dos menos lembrados filmes de Charles Chaplin, mas é, também, um dos melhores.

Monsieur Verdoux (Idem, EUA – 1947)
Direção: Charles Chaplin
Roteiro: Charles Chaplin (baseado em ideia de Orson Welles)
Elenco: Charles Chaplin, Mady Correll, Allison Roddan, Robert Lewis, Audrey Betz, Martha Raye, Ada May, Isobel Bennett, Helene Heigh, Margaret Hoffman, Marilyn Nash, Irving Bacon, Edwin Mills, Virginia Brissac
Duração: 124 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.