Crítica | Monstro do Pântano e Homem Animal – Mundo Podre: Reinos Verde e Vermelho

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A preparação para o crossover Mundo Podre, um dos melhores eventos da Era dos Novos 52, envolveu uma sólida história sobre vida e morte desenvolvida nas revistas do Monstro do Pântano e do Homem Animal, tendo cada uma delas uma amostra e uma interpretação diferente do que essa dualidade pode trazer e o que pode representar para a vida na Terra. Ambos os avatares (Buddy, do Vermelho e Alec, do Verde) vão paulatinamente percebendo o mundo à sua volta mudar, afetado por algo que saiu do controle: a aceitação do Parlamento da Decadência para que Anton Arcane se tornasse o seu representante. Com poderes inimagináveis, o infame vilão e seus Não-Homens se lançaram contra toda a forma de vida na Terra, em um elaborado plano de dominação que envolvia o apodrecimento de toda a carne e toda a erva. Um verdadeiro mundo podre.

Abarcando as edições #12 e 18 das revistas Animal Man Vol.2 e da Monstro do Pântano Vol.5, além dos números #13 a 15 da revista Frankenstein, Agent of S.H.A.D.E., Mundo Podre é a história de uma linha do tempo apocalíptica da Terra dominada pela matéria morta, transmutada em vida-zumbi monstruosa, rompendo amplamente o equilíbrio que as forças do Verde, Vermelho e Podridão vinham mantendo já há muitos milênios. Ao longo de toda a saga — e especialmente na reflexão final que temos na revista do Pantanoso — os autores deixam claro que vida e morte, desintegração e renascimento, saúde e doença dos seres vivos fazem parte do mesmo ciclo que envolve flora, fauna e humanos em constante mudança. Nós é que nos acostumamos a olhar apenas para o lado “positivo” dessa relação, ou seja, para a vida; e esse sentimento nos acompanha ao longo de toda a história, com essa dificuldade ganhando força à medida que vemos as terríveis consequências do descontrole de um dos lados da trindade que equilibra vida-e-morte. É neste ponto que está a grande questão trabalhada em Mundo Podre.

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Ao deixar claro que nenhuma das partes deve ganhar proliferação absoluta (esta foi uma das temáticas de A Extinção é Eterna e Animal vs. Homem, inclusive), suplantando as outras duas forças, a reflexão também serve como motor para entendermos a ação de Arcane e a batalha de Alec e Buddy ao lado de diversos amigos contra o Podre, com destaque para as ações de Desafiador, Constantine, Mutano, Orquídea Negra e Aço. Durante toda a travessia, temos um excelente projeto artístico em jogo, com destaque para o trabalho de Yanick Paquette na revista do Monstro do Pântano, que tem não só o melhor conceito como também a melhor arte do crossover. Mas tanto esta vertente estética como as duas outras principais (de Steve Pugh em Homem Animal e de Alberto Ponticelli em Frankenstein) demonstram com muita precisão a nojeira de um mundo dominado pela putrefação. A finalização visualmente irregular, com diagramação diagonal ou em divisão de cenas nos mais diversos formatos (evitando-se painéis totalmente abertos), traços grossos e expelição dos mais diversos fluídos também são constantes nos três títulos do arco.

Em histórias grandes assim, é sempre difícil validar a escolha de um crossover como meio de narrar um grande evento. Mesmo depois de tantos e tantos anos lendo quadrinhos, eu ainda tenho resistência para cruzamentos de aventuras assim, independente da [boa] qualidade do projeto, como é o presente caso. No entanto Jeff LemireScott Snyder (esses dois, principalmente) e Matt Kindt fazem o esforço valer a pena. Eles não ficam apenas nos “motivos simplórios” para a interação entre as revistas, antes, criam narrativas genuinamente interessantes que observamos sob três pontos de vista distintos, caindo como uma luva a todo o conceito de vida, morte, apodrecimento da matéria e renascimento, dinâmica então corrompida pelo golpe dado por Arcane, que conseguiu enganar o seu próprio Parlamento. E claro, é diante dessa última situação que captamos alguns tropeços no amarrar das pontas dessa história.

A colocação de Arcane na jogada e do grande impacto para o Vermelho já vinha sendo mostrado desde A Caçada, a abertura do título do Homem Animal nos Novos 52. A mesma coisa — e de modo bastante familiar — também vinha sendo desenvolvida na revista do Monstro do Pântano. Ocorre que a criação do Mundo Podre e o desenvolvimento dele a partir de uma ligação com esse avatar descontrolado terminou quase forçada. O Parlamento das Árvores até fala de uma “Força Superior” e a presença das almas do Parlamento da Decadência é um dos indícios de que forças para além da matéria estão agindo aqui. Todavia, o texto constrói uma grande busca pela vida, mostra a decomposição alastrada, mostra batalhas épicas e, no fim das contas, a resolução para tudo isso se dá um pouco mais “simples” do que deveria… Talvez se Snyder tivesse segurado um pouco a intenção e o plano final de Abigail, o leitor tivesse uma impressão diferente da história e de seu desfecho, que é excelente, mas não livre de incômodos ao juntar e justificar o movimento das últimas peças, especialmente no ponto relacionado à derrota do vilão — com destaque para a pouca exploração da tal “bomba verde” na atmosfera, via tanque construído por Bruce antes de ser infectado.

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Mundo Podre é uma história abarrotada de nuances do nosso cotidiano, uma leitura crítica dos autores para a mistura até contraditória entre os avanços da ciência e o retardamento da consciência de humanidade nos homens, que acreditam que podem substituir aquilo que a Natureza lhes dá por algum tipo de produto sintético, obtendo os mesmos resultados a longo prazo. E aqui cabe de tudo: os que negam que existe um problema gigantesco acontecendo; os que são egoístas demais para fazerem algo sequer em sua própria bolha; os que se sacrificam para fazer do mundo um lugar melhor, mesmo sem ter certeza que isso valerá a pena… A trama cria uma possibilidade de mundo que, mesmo com a resolução maior, acaba tendo trágicas (e compreensíveis) consequências para os dois principais heróis envolvidos. E talvez essa seja a grande lição final de Mundo Podre. Brincar com a Natureza sempre tem um preço. E ele pode ser cobrado imediatamente ou demorar um pouco para ser processado, mas é uma certeza inquestionável de que a conta virá. Seja Verde ou Vermelho, seja bom ou mau, a Podridão estará sempre à sua espera.

Animal Man Vol.2 #12 a 18 + Monstro do Pântano Vol.5 #12 a 18 (EUA, 2012 – 2013)
No Brasil:
Mix Dark, edições #12 a 16 (Panini Comics, junho de 2013 a janeiro de 2014)
Roteiro: Jeff Lemire (Homem Animal), Scott Snyder (Monstro do Pântano)
Arte: Steve Pugh, Timothy Green II (Homem Animal), Marco Rudy, Yanick Paquette, Andrew Belanger (Monstro do Pântano)
Arte-final: Steve Pugh, Joseph Silver (Homem Animal), Marco Rudy, Dan Green, Andy Owens, Yanick Paquette, Andrew Belanger (Monstro do Pântano)
Cores: Lovern Kindzierski (Homem Animal), Val Staples, Nathan Fairbairn, Lee Loughridge, Tony Aviña (Monstro do Pântano)
Letras: Jared K. Fletcher (Homem Animal), Travis Lanham (Monstro do Pântano)
Capas: Steve Pugh, Yanick Paquette, Nathan Fairbairn, Jae Lee (Homem Animal), Yanick Paquette, Steve Pugh, Nathan Fairbairn (Monstro do Pântano)
Editoria: Joey Cavalieri, Kate Durré, Matt Idelson (Homem Animal), Matt Idelson, Chris Conroy (Monstro do Pântano)
24 páginas (cada edição)

Frankenstein, Agent of S.H.A.D.E. Vol.1 #13 a 15 (EUA, 2012 – 2013)
Roteiro: Matt Kindt
Arte: Alberto Ponticelli
Arte-final: Wayne Faucher
Cores: José Villarrubia, John Kalisz
Letras: Pat Brosseau, Dezi Sienty, Carlos M. Mangual
Capas: Alberto Ponticelli, Hi-Fi Design, Wayne Faucher
Editoria: Kate Durré, Joey Cavalieri
24 páginas (cada edição)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.