Crítica | Monstro do Pântano: Gênese Sinistra (Raízes I)

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estrelas 4,5

No final de semana seguinte fui a uma festa pré-final de ano na casa de meu parceiro de longa data, Marv Wolfman. Mais tarde naquele dia, por razões que infelizmente não me lembro, eu estava escorado no meu carro no gelado ar da tardinha com Bernie Wrightson olhando a neve cair e proseando. Bernie tinha terminado há pouco com sua namorada e estava meio deprimido. Falei que sabia como ele se sentia. E aí tive a chance de mencionar que estava trabalhando numa história que combinava com o nosso humor. Sugeri que ele podia se interessar em ilustrá-la como um jeito de exorcizar seus demônios, e ele prontamente concordou. Nascia assim o Monstro do Pântano.

Len Wein, 1991

Minha história com o Monstro do Pântano começou tarde, e por um ponto bem adiantado na própria linha do tempo do personagem: os Novos 52. Absolutamente espantado com o que lia (e digo isso de forma muitíssimo positiva), segui firme até a edição 11, quando tive que colocar o título de lado por um breve período, para abrir espaço para outros, na época, mais urgentes para mim. Cerca de dois meses depois (isso em abril de 2013), eu comprei um encadernado então recém-lançado da Panini, Clássicos DC/Monstro do Pântano – Raízes Vol.1, contendo as seguintes publicações originais: Monstro do Pântano #0 (The House of Secrets, jun/jul, 1971); e as revistas #1 a 6 da Swamp Thing Vol. 1, publicadas entre o final de 1972 e o final de 1973. Esse Raízes trazia então o início de tudo, tanto a versão da House of Secrets, com a primeiríssima aparição do herói (edição que teve um valor sentimental para Len Wein e Bernie Wrightson) quanto a versão sem o valor sentimental, quando os artistas aceitaram o lançamento de uma revista própria para o Monstro. Foi aí que a “febre do pântano” me pegou.

Swamp Thing é o título dessa história de estreia do Monstro do Pântano, quase um poema branco com imagens, contando-nos uma saga de amor e traição envolvendo o desafortunado Alex Olsen (que na “versão comercial” do personagem viraria Alec Holland) e Linda Olsen Ridge (Linda Holland, no segundo tratamento), mais o “amigo” Damian Ridge, que conspirou para afastar Alex de Linda, sabotando os experimentos laboratoriais do amigo cientista. A ação causaria uma explosão, a morte de Alex e a consequente deposição do corpo nas águas do pântano, de onde ele sairia como… um Monstro.

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Como tudo começou…

Len Wein faz um trabalho ágil e muito interessante ao nos apresentar esse conto desiludido sobre perda e, de certo modo, também sobre vingança — ou talvez de exercício da justiça. Essa atmosfera macabra, de isolamento e medo do desconhecido, ganha ainda mais força com os excelentes desenhos de Bernie Wrightson para o estilo vitoriano da casa e o ambiente da plantation onde se encontra. Uma apresentação incrível para um personagem que, reinterpretado pouco tempo depois pelos mesmos artistas, se tornaria uma das figuras pantanosas mais interessantes e queridas da História dos quadrinhos.

House of Secrets Vol.1 #92 (EUA, julho de 1971)
Roteiro: Len Wein
Arte: Bernie Wrightson
Capa: Bernie Wrightson, Jack Adler
Editoria: Joe Orlando
8 páginas

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Monstro do Pântano Vol.1

Edições: #1 a 6

A edição #1, Gênese Sinistra, reapresenta a origem do Pantanoso. Aqui, ainda temos a indicação da fórmula biorrestauradora, o belo relacionamento do casal Alec e Linda Holland e a apresentação do Conclave, uma organização que pelo menos durante todo esse volume se mantém uma incógnita para o leitor. A origem mais técnica e menos sentimental narrada nessa edição tem mais a cara de uma aventura que pretendia ter vida longa (diferente da edição #0, o conto original que nasceu sem pretensão de ser uma publicação bimestral/mensal). Vários elementos externos são abertos na história, o que de cara permite que o roteiro se bifurque em intrigas e vá resolvendo isso ao longo das outras edições.

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Em O Homem Que Queria a Eternidade parece pela primeira o mago/necromante Anton Arcane, além de suas criaturas sintéticas, os não-homens. Nesta aeição temos uma pegada de horror clássico e de “Filmes B”, com direito a personagens e situações bem cinematográficas dentro desse gênero, ilustrada com primazia por Bernie Wrightson e lembrando-nos muito o que conhecemos de histórias sobre o Drácula. O sentimento do Pantanoso é mais uma vez colocado em destaque por Wein, algo que seria o mote não apenas dessa, mas também das aventuras posteriores.

A história de O Homem Remendado começa a ficar mais intricada. Este curioso “homem remendado” é, na verdade, Gregori Arcane, irmão do mago/necromante e pai da bela Abigail Arcane. Aqui temos Matthew “Matt” Cable voando para os Bálcãs em busca do Pantanoso. Tenho a impressão que a forte amizade entre ele e os Holland foi criada após a primeira edição, porque no início não senti a tríade como sendo melhores amigos, nem mesmo diálogos expressivos entre eles havia naquela ocasião. De qualquer forma, Matt ainda não sabe que a pessoa a quem ele quer capturar é, na verdade, seu melhor amigo transformado…

Mais uma vez lembramos um filme de terror em O Monstro na Charneca, um daqueles filmes bem no estilo Jacques Tourneur. Matt e Abigail rumam em direção aos EUA num avião quadrimotor, mas caem na Escócia. É como se uma espécie de maldição os seguisse, porque eles são acolhidos pelos pais de um lobisomem que querem “destransformar” o filho. O Pantanoso, que pegou carona no avião (forçada de barra absurda, mas confesso que é bem divertida), está lá para ajudar. Essa é praticamente uma “edição de passagem”, ou seja, existiu para que a ida de um lugar a outro no amplo cenário que se tem para explorar não parecesse tão abrupta, o que foi um acerto de Len Wein, mas acabou apresentando uma história um pouco “menor” do que as suas edições anteriores.

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Provavelmente meu top 3 de edições favoritas desse volume, A Última das Bruxas Ravenwind dá continuidade à saga. O Monstro do Pântano, após o perrengue com o lobisomem da família MacCobb, segue seu caminho, estranhamente diverso do que Matt e Abigail tomaram (estranhamente porque ele seguira o casal até ali e, do nada, deixou essa “perseguição” de lado). Em dado momento, o Monstro é descoberto em um navio e acaba se jogando na água. Sua chegada se dá na cidade de Divinity, no Estado do Maine, onde um verdadeira “caça às bruxas” está acontecendo. Tudo nessa edição é bacana, e tem uma ótima crítica social e exposição do papel da mulher numa cidade retrógrada e religiosa.

Por fim, A Mecânica do Terror. A história narrada nessa aventura é interessante, mas como está bastante desligada da sequência anterior, em sentido de continuidade, fica difícil se apegar tanto a ela. Apenas o início e o final, com a chegada do representante do Conclave (sim, o mesmo lá da primeira edição) temos uma conexão com a saga que acompanhávamos até o momento. Mas a maravilhosa arte de Bernie Wrightson supera qualquer coisa, e é impossível desprezar completamente essa história, ainda mais porque leva o Pantanoso para… Gotham City!

Com um roteiro bastante ligado ao ambiente do terror, Len Wein consegue contar uma saga macabra cheia de detalhes e intrigas das mais impossíveis. O autor não se furta em apresentar situações improváveis, o que dá maior sustentação à própria existência do Monstro do Pântano. Ainda não temos a ligação praticamente mística do Pantanoso com a natureza. Seus inimigos são homens ambiciosos, cientistas loucos, magos e outras criaturas ou fanáticos. A cada edição, percebemos que ele não vai ser deixado em paz nem tão cedo.

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Nestas e primeiras edições, as personagens foram bem delineadas e suas motivações, por mais neuróticas e um tantinho forçadas que sejam (refiro-me à postura de Matt Cable), são apresentadas com eficiência pelo autor. As coisas parecem convergir para os membros do Conclave. A organização está por trás de toda a história dos Holland, desde que se mudaram para um laboratório secreto no meio de uma região pantanosa em Louisiana.

A intriga parece que está apenas começando…

Clássicos DC / Monstro do Pântano – Raízes . Vol.1 – EUA, 2012
Lançamento no Brasil: Abril, 2013
Editora: DC Comics (nos EUA) e Panini Comics (no Brasil)
Coletânea das edições: Monstro do Pântano #0 (publicado na House of Secrets em 1971) e as edições #1 a 6 da Monstro do Pântano Vol.1 (1972 – 1973).
Roteiro: Len Wein
Arte: Bernie Wrightson
164 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.