Crítica | Monstros (1932)

estrelas 4

Para alguns filmes de terror, o melhor marketing que existe é a polêmica em volta deles, atraindo a atenção do público, exemplos disso são O Exorcista, A Centopeia Humana e A Bruxa de Blair. Mas isto não é algo novo. Em 1932, o filme Monstros também causou muita polêmica entre os espectadores. A obra, além de ter sido banida em alguns países, possuiu relatos de paradas cardíacas durante sua projeção. Tendo sido redescoberta por cinéfilos 30 anos após seu lançamento, Monstros possui admiradores até hoje.

O longa conta a história de Cleópatra (Olga Beclanova), uma trapezista que se relaciona com o forte Hércules (Henry Victor), mas mesmo assim, casa-se com o anão Hans (Harry Earles), herdeiro de uma enorme fortuna. Porém, os demais integrantes do circo onde Hans vivia percebem o interesse dela no dinheiro de seu amigo, e então planejam vingar-se da trapezista.

A polêmica de Monstros está na escolha do diretor Tod Browning em utilizar artistas circenses e deficientes físicos reais como pessoas sem membros, anões, irmãs siamesas, dentre outros tipos de deformidades e/ou má formação. Num mundo ideal isso não deveria ser objeto de discussão, mas se a sociedade atual já demonstra traços de preconceito com essas classes, imagine então na década de 30.

O roteiro é inspirado no conto Spurs, escrito por Tod Robbins, abordando o dia a dia de um circo e as relações entre suas atrações. Além de ter uma história envolvente, possui um forte conteúdo social e de inclusão, ficando explícito em alguns diálogos tocantes, como quando Hans diz “não percebem que sou um homem com os mesmos sentimentos dos deles”.

O filme não apresenta os “monstros” logo de início, pelo contrário, cria expectativa no público através de diálogos entre personagens que já viram as atrações, os descrevendo como aberrações, o que se apresenta uma escolha correta do diretor, pois provoca a imaginação de quem assiste. Quando os “monstros” finalmente são mostrados, eles surpreendem, já que, mesmo sendo fisicamente diferentes, comportam-se de forma infantil, dançando e cantando, fato que contrasta com a imagem terrível que os outros personagens criaram.

Aliás, a obra acerta em diferenciar a atitude dos “monstros” e das pessoas “normais”, uma vez que, aqueles que deveriam causar medo no público são extremamente caridosos, gentis, educados e protegem uns aos outros. Já os que se consideram saudáveis são orgulhosos, agressivos, mentirosos e gananciosos. O longa explora até que ponto a maldade humana pode chegar, quando Cleópatra, junto de Hércules, planeja a morte de Hans. Além de não ter medo em apresentar portadores de necessidades como protagonistas, o roteiro também não hesita em mostrar o lado ruim da humanidade.

A película ainda tem a sensibilidade de mostrar como alguns personagens superam-se para realizar ações simples, como acender um cigarro utilizando apenas a boca ou jantar usando os pés. Já quem se julga saudável normalmente quer tudo “na mão”, sendo uma mensagem de superação poderosa e mostrando como as pessoas, às vezes,  impõe limitações a si mesmas.

Porém, o longa é prejudicado por alguns cortes secos e momentos na história que parecem ter sido ignorados, o que pode ser responsabilidade dos produtores, que reduziram o tempo do filme para apenas 64 minutos, devido ao medo que tinham de chocar demais o público. Devido a isso, durante a projeção, há falta de momentos realmente assustadores, o que é compensado pelo chocante destino da personagem Cleópatra e o fato do filme não mostrar exatamente como ela chegou àquilo só provoca ainda mais a imaginação do público.

O que realmente causa incômodo em Monstros são as atitudes reprováveis daqueles que se julgam “normais”. A obra tecnicamente não trouxe nada de novo, mas possui um roteiro ousado, incrivelmente atual, com temática social forte e hábil em despertar o preconceito que às vezes temos com deficientes físicos, os tratando como aberrações e não como pessoas que merecem respeito. Um personagem diz no início do filme: “por um acidente da natureza, vocês poderiam ser como eles”. A mensagem do filme é que devemos sempre nos colocar no lugar das pessoas, julgando pelo caráter e não pela aparência.

Monstros (Freaks) – EUA, 1932
Direção: Tod Browning
Roteiro: Tod Robbins
Elenco: Wallace Ford, Leila Hyams, Olga Baclanova, Roscoe Ates, Henry Victor, Harry Earles, Daisy Earles, Rose Dione, Daisy Hilton, Violet Hilton, Frances O’Connor, Prince Randian e Schilitzie
Duração: 64 min.

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.