Crítica | Monstros S.A.

estrelas 4,5

Após sua primeira empreitada em uma continuação, a Pixar Animation Studios retorna para suas ideias originais, partindo de uma ideia tão original quanto brinquedos que andam e falam, que surgira durante o processo criativo de Toy Story. Pete Docter, em seu primeiro trabalho de direção para a tela grande, traz à vida um universo de monstros, cuja fonte de energia é proveniente do grito de crianças, os quais os funcionários da empresa Monstros S.A. coletam assustando os pequenos durante a noite, utilizando portas interdimensionais que ligam nosso mundo ao deles. Uma “viagem” não? Pois é isso que, magistralmente, a Pixar consegue novamente nos levar.

O enredo gira em torno de Sullivan, ou Sully (John Goodman) e Mike Wazowski (Billy Crystal), uma dupla que trabalha na tal indústria. Após um incidente, Sully acaba permitindo, acidentalmente, a entrada de uma criança, Boo – consideradas altamente tóxicas pelos monstros -, em seu universo. Prontamente o protagonista entra em uma aventura para colocá-la de volta em seu quarto. Pouco sabia, contudo, que uma conspiração maior está por trás daquilo tudo. O longa, portanto, segue esse roteiro bem linear, com alguns twists inseridos precisamente – um deles, inclusive, bastante similar ao de Toy Story 2, reciclagem que veríamos posteriormente, também, em Toy Story 3.

O que sobra de simplicidade na trama, contudo, excede na construção desse mundo, aproveitando essa ideia original, o roteiro de Andrew Stanton e Daniel Gerson faz constantes brincadeiras com nosso dia à dia, criando cômicos paralelos com nosso modo de vida e personalidades presentes no ambiente de trabalho. Referências a outras obras cinematográficas também não param, como de costume, e de Star Wars partimos para Os Eleitos (The Right Stuff, no original). A exploração dos conceitos introduzidos no filme ainda são explorados de maneira surpreendentemente criativa, nos trazendo sequências memoráveis, como o vai e vem entre dimensões presente no clímax do longa. Isso, é claro, sem falar no próprio design de cada criatura, que compõem um mundo vasto, colorido e, é claro, divertido, no qual cada personagem conta com uma particularidade única, que vai desde a troca de cores por Randall (Steve Buscemi, em um ótimo trabalho de dublagem) até o olho gigante de Wazowski.

Entrando, então, na constituição de cada ser presente em tela, não poderia deixar de falar dos pelos de Sullivan, que juntamente com a roupa da pequena Boo, representa o maior avanço em termos de animação da obra. Para emular o movimento de cada pelo, a Pixar desenvolveu um programa de simulação, denominado Fizt, para que fosse possível garantir o maior realismo do ser, criando não só uma movimentação fluida, como possibilitando a projeção de sombras entre os fios. O mesmo software foi utilizado na composição da roupa da criança, que precisava não só apresentar uma textura adequada, como um comportamento natural que não saltasse aos olhos do espectador.

Esse avanço tecnológico, naturalmente influi diretamente na narrativa da obra – ao garantir o realismo de tais personagens centrais a relação entre os dois se torna mais crível. Cada abraço de Boo pode ser quase que literalmente sentido, ampliando um dos melhores aspectos do filme: a relação paternal existente entre os dois, que nos faz encher de lágrimas na cena final.

Monstros S.A., portanto, representa mais um gigantesco acerto do estúdio que nos trouxe Toy Story, Vida de Inseto e Toy Story 2Uma aventura verdadeiramente extasiante, repleta de conceitos extremamente criativos e um trabalho de animação de deixar o queixo cair até mesmo para os padrões atuais da indústria – afinal, onde mais vemos pelos animados de forma tão realista? O sucesso, tanto de crítica quanto de público, garantiria ao filme uma continuação em 2013, Universidade Monstros, mas isso é assunto para outra crítica.

Monstros S.A. (Monsters Inc. – EUA, 2001)
Direção:
 Pete Docter, David Silverman, Lee Unkrich
Roteiro: Andrew Stanton, Daniel Gerson
Elenco: Billy Crystal, John Goodman, Mary Gibbs, Steve Buscemi, James Coburn, Jennifer Tilly, Bob Peterson
Duração: 92 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.