Crítica | Monstros!

estrelas 4,5

O que eu posso dizer sobre quadrinhos sem diálogos ou narração que meu colega e co-editor aqui do Plano Crítico, Luiz Santiago, já não tenha dito – e com muito mais propriedade do que eu – quando escreveu sobre O Número 73304-23-4153-6-96-8? Assim, como introdução para o texto abaixo, sugiro que leiam o que Luiz escreveu sobre a arte da narrativa puramente visual. De minha parte, apenas tenho um aspecto a reiterar: não tenham preconceitos com quadrinhos assim. Vocês podem estar perdendo tesouros.

Gustavo Duarte, cartunista talvez mais conhecido pelo trabalho no jornal Lance!, lança sua quarta HQ, dessa vez pelo selo Quadrinhos na Cia. da Companhia das Letras e não mais de forma independente como suas obras anteriores (Birds, Táxi e Có). Isso certamente mostra o reconhecimento de seu característico e divertido trabalho de arte sequencial.

Completamente mudo, Monstros!, lançado em 1º de outubro, chamou minha atenção por sua dedicatória: “Para o Dr. Gori”. Como poderia ignorar alguma coisa dedicada ao símio extraterrestre mais sensacional da televisão que só dava dores de cabeça para Spectreman? Agarrei a revista, de 88 páginas, só por causa disso, sem nem pensar no que estava comprando.

Só depois reparei na belíssima capa, com um mostro estilizado e uma inscrição em ideogramas japoneses que, presumo, significa Monstros!. E só em seqüência é que notei o silêncio, a completa ausência de falas. Fiquei mais intrigado ainda.

Como o título diz, Monstros! nos conta sobre uma invasão de monstros, mas não em Tóquio como estamos acostumados a ver e sim em Santos, no litoral paulista. O primeiro a sair do mar é o monstro da capa, uma versão engraçada de Godzilla, com direito àquela espinha dorsal característica. O segundo é um polvo gigante com um tentáculo com um arpão amarrado que não consegui não conectar com o louco Capitão Ahab de Moby Dick (posso estar enganado na inspiração de Duarte, claro). O terceiro é a resposta de Gustavo Duarte à Gamera, a tartaruga gigante que enfrenta Godzilla ou a qualquer um dos bichos de borracha que lutou contra o valente Spectreman.

É óbvio que os coitados dos paulistas não têm chance de sobrevivência não é mesmo? No entanto, os monstrengos não contavam com a astúcia do velho Pinô, dono de um bar que, no meio da confusão, fica às moscas fazendo com que o velhinho arregace as mangas para acabar com as pestes.

Com uma narrativa visual fluida e lindíssima, que deixa muito claras suas intenções e permite muito divertimento, Gustavo Duarte faz uma HQ de categoria, fortemente galgada nos mangás, mas com um traço tão característico e, sobretudo, eficientemente simples e limpos, que acaba ganhando contornos próprios e inconfundíveis com qualquer outra revista. Há dezenas de painéis na revista que eu facilmente teria pendurado nas paredes de meu apartamento, certamente para o desespero de minha esposa.

Cada monstro é único e espertamente desenhado. São confortavelmente próximos a monstros mais conhecidos, só que suficientemente distantes para qualquer um apontar e dizer: “Ah, foi o Gustavo Duarte quem desenhou!”. E o velho Pinô, uma espécie de Van Helsing santista que só aparece na metade da revista, é um prazer à parte. De um mero dono de bar, vemos, aos poucos, que o velhinho é muito mais do que isso. Não vou contar nada para não estragar o deleite da leitura – digo, visualização – mas basta dizer que ele usa um livro do mago ocultista Aleister Crowley para cozinhar uma poção com a maior naturalidade do mundo, muito parecido com Panoramix e seu caldeirão de poção mágica para certa aldeia gaulesa.

E as cores? Usando apenas preto, branco e verde água, Gustavo Duarte dá um show, com a colocação de cada uma delas em locais cirurgicamente escolhidos, produzindo o maior efeito possível. Reparem o uso do preto para preencher fundos de alguns quadros, ruas e determinadas composições. Mesmo em uma HQ de tom cômico, o preto funciona perfeitamente como foreshadowing para situações mais voltadas para ação e suspense dentro da estrutura de sua obra.

Com uma temática dessas e a ousadia do uso de poucas cores e nenhuma palavra, porém, esperava maior flexibilidade na estrutura dos quadros página a página. Não é nada que atrapalhe a leitura, mas o estilo mais comportado de Duarte nesse quesito chega, em determinados momentos, a destoar do tom da HQ, que teria lucrado com algumas experimentações aqui e ali.

De toda maneira, Monstros! é leitura – ah, errei de novo: visualização – essencial para fãs de quadrinhos e a revista merece figurar orgulhosamente nas estantes. Só falta eu conseguir um pôster do monstrão da capa!

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.