Crítica | Monty Python em Busca do Cálice Sagrado

em busca do calice sagrado

estrelas 4

Depois da boa aceitação do filme E Agora para Algo Completamente Diferente (1971) a trupe britânica Monty Python embarcou em um projeto realmente novo, que direcionava a comédia maluca que os tornou famosos na série Monty Python’s Flying Circus para as lendas arturianas, onde o famoso rei dos bretões, ao lado de seu fiel escudeiro Patsy, procura bravos guerreiros para compor a Távola Redonda, em Camelot.

A produção de Em Busca do Cálice Sagrado foi bastante conturbada e exigiu muita criatividade do grupo e paciência entre eles mesmos para que o filme fosse completado. Primeiro, houve problemas com o orçamento, resultando na retirada dos cavalos, o que gerou a hilária mímica do Rei Arthur “cavalgando” pela Bretanha em um animal imaginário. Depois vieram algumas divergências criativas e os problemas de alcoolismo de Graham Chapman (Rei Arthur), que esquecia as falas e passou a maior parte da produção embriagado, dificultando as filmagens e atrasando a produção.

Somam-se a isso os impasses de mudança do tempo (a trupe precisou filmar em dias considerados ruins para a fotografia. No entanto, chegou um momento em que não era mais possível esperar uma trégua da chuva, neblina, névoa ou tempo fechado, pois os gastos seriam ainda maiores, então enfrentaram as condições mais impróprias para se gravar um filme, especialmente uma comédia), as reescritas e mudanças de piadas em cima da hora e a dificuldade de montar um filme com esquetes que, de alguma forma, se completavam… e temos então o arcabouço de dificuldades que, nas mãos de outros diretores, poderia fazer do produto final algo intragável. No caso de Em Busca do Cálice Sagrado tudo isso se tornou uma das comédias mais lunáticas e respeitadas do cinema, influenciado (assim como praticamente todos os trabalhos do Monty Python) um grande número de comediantes, dentro e fora do cinema, nos anos seguintes.

É claro que para um filme com um argumento de esquetes cômicas, mesmo que ligadas por um elemento principal, existem problemas de narração e não, eu não faço parte da massa crítica ou de espectadores que consideram O Cálice Sagrado uma obra-prima do cinema. Porque não é. A despeito da soltura que cabe ao filme, vindo de sua proposta mais livre de roteiro, é impossível não levar em consideração a descontinuidade, o tratamento mais superficial ou simplesmente “jogado” que observamos em alguns blocos na obra, como o surgimento dos atalhos no núcleo, que vai do Arthur procurando guerreiros valorosos para sua Corte até ele, ao lado de Sir Lancelot the Brave (John Cleese), Sir Robin the Not-Quite-So-Brave-as-Sir Launcelot (Eric Idle), Patsy (Terry Gilliam), Sir Bedevere (Terry Jones) e Sir Galahad the Pure (Michael Palin) recebendo uma ordem divina (a figura do jogador de críquete William Gilbert Grace) para procurar o malfadado Cálice Sagrado.

SPOILERS!

A máxima “em comédia, tudo vale” é quase aplicável aqui, mas é preciso se lembrar de que isso só funciona 100% se o elemento cômico, especialmente em um filme, não queira convencer de que todo o niilismo, dadaísmo, surrealismo, insanidade e linhas kafkianas possam tomar qualquer rumo e às vezes boicotar a si mesma sem sofrer algum dano no sentido geral da obra. Claro que nos esquetes individuais o filme triunfa quase que por inteiro, havendo poucos momentos “fillers” (e nenhum sem graça) ao longo da projeção.

Destacando as cenas do Cavaleiro Negro que luta contra Arthur, perde os dois braços e as duas pernas e ainda assim propondo um “empate”; a primeira cena do castelo dominado por franceses, que jogam animais nos ingleses e são “surpreendidos” por um coelho e texugo de madeira, em uma tentativa falha dos arturianos em imitar o Cavalo de Troia; a sequência com os Cavaleiros Que Falam “Ni”; e a famosíssima cena do Coelho Assassino, é fácil entender que a comédia do Monty Python está bem acima dos padrões mais insanos que se possam imaginar e possui qualidade não apenas em sua bizarrice, mas no tom e timing das piadas. Infelizmente uma pequena parte desses gatilhos cômicos passam por repetições desnecessárias (como a volta dos franceses, no final), atrapalhando importantes momentos da história.

As excelentes interpretações da trupe, a direção de arte tão peculiar quanto o roteiro, os figurinos que são uma mescla da Idade Média Central (a história se passa no ano 932) e das suposições indumentárias típicas dos contos do Rei Arthur, a trilha sonora entre o militar/épico e o suspense e as excelentes animações que servem de ponte entre os esquetes; tudo isso faz de Em Busca do Cálice Sagrado um filme delicioso de se assistir. Apesar das quebras que o roteiro traz, esta é uma obra que abraça todo tipo de consideração secular, desde críticas sociais aos libertários e anarco-sindicalistas até comportamentos religiosos e fanáticos típicos dos anos 70 no Reino Unido. O espectador ainda tem bons momentos de quebra da quarta parede e uma maneira muito inteligente do grupo em inserir a metalinguagem no filme, novamente, como recurso de continuidade, que mesmo não funcionando todas as vezes, jamais deixa de ser engraçado. Esta é uma daquelas sagas que só humoristas muito bons e completamente loucos poderiam colocar nas telonas e fazer o público rir, às vezes de nervoso, às vezes pelo exotismo das situações e, na maioria das vezes, por estar diante de comédia fina, violenta e absurda de qualidade incomparável.

Monty Python em Busca do Cálice Sagrado (Monty Python and the Holy Grail) — Reino Unido, 1975
Direção: Terry Gilliam, Terry Jones
Roteiro: Terry Gilliam, Terry Jones, Graham Chapman, John Cleese, Eric Idle, Michael Palin
Elenco: Terry Gilliam, Terry Jones, Graham Chapman, John Cleese, Eric Idle, Michael Palin, Connie Booth, Carol Cleveland, Neil Innes, Bee Duffell, John Young, Rita Davies, Avril Stewart, Sally Kinghorn, Mark Zycon
Duração: 91 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.