Crítica | Moonlight: Sob a Luz do Luar

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estrelas 5,0

Sexualidade, etnia, status social, chances na vida, entrega às drogas, criminalidade, preconceito, bullying. Todos essas urgentes e atuais questões são rica e belamente abordadas no delicado e fortemente pessoal Moonlight: Sob a Luz do Luar, segundo longa-metragem de Barry Jenkins, que também escreveu o roteiro com base em obra do dramaturgo Tarell Alvin McCraney. Mas, talvez, acima de tudo, o que fica com o espectador quando os créditos começam a rolar é um profundo senso de busca de identidade, tema universal para aonde todos os demais aspectos convergem elegantemente.

Contado em três capítulos, cada um abordando um momento chave na vida de Chiron, de sua infância até tornar-se adulto, o filme costura temas socialmente relevantes e nos convida a discutir sobre nossa própria formação, nossas escolhas versus o determinismo social que pode nos impedir de efetivamente escolher um caminho próprio, verdadeiro, que parte principalmente de nós mesmos. Enquanto Chiron sofre os mais variados abusos, encontrando em um traficante de drogas que o alberga quando muito jovem seu único “modelo”, Jenkins, sem pressa, vai costurando uma narrativa engajante e profundamente rica que lida com os mais diversos assuntos de forma fluida e realista, sem jamais partir para didatismos ou mesmo pausas para que o espectador preencha completamente os “espaços” deixados pelos dois relevantes saltos temporais que faz sem cerimônia, trocando os atores que vivem Chiron no processo.

É particularmente fascinante como Jenkins é hábil em nos apresentar a Chiron três vezes seguidas sem precisar de muitas palavras. O design de produção – notadamente o figurino – e a direção de atores merecem especial destaque aqui, pois criam pontes perfeitas de um momento a outro que nos permitem navegar de forma fluida e certeira pela vida do protagonista sem que sintamos qualquer soluço. Na verdade, seria mais justo dizer que não sentimos demasiadamente nenhum soluço, pois o trabalho do diretor e roteirista, aqui, nos faz ansiar por saber mais sobre Chiron, ou seja, por cada elemento que freneticamente somos obrigados a tentar preencher com a imaginação entre cada salto temporal.

Mas Jenkins nunca nos entrega de bandeja o que queremos. Nada de flashback. Nada de um olhar demorado para o passado. A fita caminha a passos largos para a frente exatamente como a vida. Se piscarmos, um ano se passa. Se dormirmos, uma década se passa. E o que somos passa a ser uma amálgama de influências boas e ruins, externas e internas, conflitantes e harmoniosas ao longo de cada dia de nossas vidas, vidas essas que podem muito bem ser representadas em várias frentes por Chiron e sua luta para compreender exatamente quem é, quem deve ser e quem ele se torna.

No entanto, não há respostas definitivas e muito menos fáceis. O que há são perguntas, quiçá vislumbres do que será e do que poderia ter sido, mas nunca explicações ou momentos que pegam na mão do espectador para levá-lo por um caminho mais suave. Em Moonlight, o objetivo é trazer recortes da vida de um jovem que é, ele próprio, um recorte da sociedade, ao mesmo tempo refletindo a realidade de muitos e léguas distante da realidade de outros tantos. Mas há uma convergência na cola narrativa de busca de identidade, algo que, de forma useira e vezeira, alguma vez na vida, afeta a todos, mesmo os mais resolvidos.

No primeiro terço da obra, Chiron – ou Little – é vivido por Alex Hibbert com timidez e uma inocência de tirar o chapéu, condizente com seu tamanho diminuto e frágil. O garoto foge de valentões de sua escola e acaba entrando na vida do traficante de crack Juan, em uma participação pequena, mas inesquecível de Mahershala Ali, que mais do que justifica sua indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por saber lidar tão perfeitamente com dois opostos: sua persona dura das ruas e sua persona cheia de afeição que passa a sentir pelo garoto perdido. Vemos, em uma sucessão de sequências entremeadas de leve avanços no tempo, a aproximação dos dois e a figura de pai que Juan passa a exercer sobre Little, mesmo considerando o evidente conflito com sua mãe Paula (Naomie Harris, também fazendo jus à sua indicação ao Oscar), viciada nas mesmas drogas vendidas por Juan.

Quando mal nos acostumamos com o drama de Little, Jenkins faz seu primeiro corte temporal, levando-nos para alguns anos no futuro, com Chiron agora chamado de Chiron mesmo, já adolescente e vivido por Ashton Sanders. Seus problemas diários com valentões e sua mãe cada vez mais viciada continuam, mas sua sexualidade começa a entrar mais fortemente em jogo, algo apenas resvalado nas sequências com Little. Os acontecimentos, a partir daí, são ao mesmo tempo enternecedores e assustadores e contribuem para a compreensão do terceiro terço, mais curto e direto, quando vemos Chiron já adulto, agora chamado simplesmente de Black (Trevante Rhodes) e completamente transformado fisicamente. Aqui, talvez simbólicos momentos antes do primeiro dia do resto da vida dele, nós vemos um belíssimo movimento do personagem em busca de um passado que deixou para trás, mas nunca esqueceu, fechando o círculo narrativo de maneira exemplar.

O roteiro é construído a partir do “empilhamento” de experiências de Chiron. A cada nova “encarnação” do personagem, entendemos exatamente como ele chegou ao ponto que chegou e o que cada ação significa para ele e para aqueles ao seu redor. Em mãos menos hábeis, a história poderia ter ficado facilmente cansativa, talvez até repetitiva, mas Moonlight é justamente o oposto disso. Cada segmento traz informações que queremos e que achamos pouco demais, sempre querendo testemunhar cada minuto da vida do jovem e inconscientemente nos transportando – na medida do possível e com base nas experiências de cada um – para aquele cenário. É a vida como ela é, mas de forma poética, com uma leve e discreta camada de fábula no sentido da universalidade dos sentimentos e ações.

E, claro, além de Ali, Harris e de Janelle Monáe (como Teresa, a namorada de Juan), que já valem o preço do ingresso, há a trinca Hibbert/Sanders/Rhodes que deveria coletivamente concorrer ao Oscar de Melhor Ator pela caracterização sem falhas de Chiron em suas três fases. Ainda que o roteiro se esmere em nos fazer acreditar nas transições e mudanças de idade, é só com o trabalho dos três que a intenção vira realidade, mesmo considerando a mudança mais radical, quando o jovem franzino se transforma em Black, persona inevitável criada pelas condições a sua volta e naturalmente inspirada no passado do jovem.

O esmero artístico com Moonlight ajuda a obra a chegar a um belíssimo e raro status de poesia realista em movimento que não se fia em abordagens transcendentais ou fotografia contemplativa para alcançar seu objetivo. Há um cuidado do experiente diretor de fotografia James Laxton (Yoga Hosers) em manter o filme com os dois pés no chão, ao mesmo tempo evocando um ar que resvala na atmosfera documental e mergulhando em cores hipnóticas e de certa forma fantasmagóricas ao lidar com as tomadas noturnas, notadamente as que são banhadas pela luz do luar do título e que carrega tanto simbolismo. O mesmo vale ser dito para a contribuição de Nicholas Britell (A Grande Aposta) com sua trilha sonora de veia clássica absolutamente envolvente, tomada de cordas belíssimas que são eficientemente sincronizadas à projeção por Jenkins de forma que ela apenas sublinhe, mas não determine sentimentos. O resultado final é, sem medo de errar, uma das mais belas trilhas de 2016.

Moonlight: Sob a Luz do Luar é um inesquecível espetáculo intimista que tocará cada espectador de um jeito. Se o filme pode ser visto como sendo sobre a busca de uma identidade, ele nunca perde a sua, caminhando a passos largos na direção de um futuro incerto, mas carregado de vida, escolhas, imposições e, sim, amor.

Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight, EUA – 2016)
Direção: Barry Jenkins
Roteiro: Barry Jenkins (baseado em história de Tarell Alvin McCraney)
Elenco: Trevante Rhodes, André Holland, Janelle Monáe, Ashton Sanders, Jharrel Jerome, Naomie Harris, Mahershala Ali, Alex Hibbert
Duração: 111 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.