Crítica | Moonrise Kingdom

estrelas 5

O que um bisturi na mão de Ivo Pitanguy, um piano aos dedos de Mozart, um carro de corrida sob o controle de Ayrton Senna e uma câmera à frente de Wes Anderson têm em comum? A resposta é simples: são instrumentos de precisão para fazer mágica.

O tradicional trabalho de câmera do texano Wes Anderson, mesmo quando está dirigindo um desenho animado em stop motion (sugiro fortemente que vejam O Fantástico Sr. Raposo, se já não viram) é de tirar o fôlego de tão belo. Em Moonrise Kingdom, ele talvez tenha alcançado o auge da precisão, ainda que eu espere que não e ele consiga continuar se superando a cada nova fita.

Tudo começa na casa de Walt (Bill Murray) e Laura Bishop (Frances McDormand), em um ilha na Nova Inglaterra na década de 60, com Wes Anderson fazendo um corte na estrutura, de maneira que a vemos como a parte de trás de uma casa de bonecas. Cada almofada, cadeira, abajur e, claro, personagem, está perfeitamente inserido em seu ambiente, com um cuidadoso – quase doentio, diria – trabalho de cenografia. Se fosse uma peça de teatro talvez seu diretor não fosse tão perfeccionista. Com tudo isso a postos, a câmera passa a se movimentar. Nada de movimentos ousados, malucos, daqueles feitos para impressionar de maneira vazia a plateia. Não, são movimentos lineares, travellings da esquerda para a direita e de cima para baixo na vertical, em um perfeito eixo. Quando a câmera para, faz um 360º que revela, em close-up, a filha mais velha do casal, Suzy (Kara Hayward), em sua eterna postura de menina curiosa.

Mas isso tudo é só um aperitivo. Em seguida vemos o escoteiro Sam (Jared Gilman) que, para desespero do escoteiro chefe Ward (Edward Norton), resolve sumir do acampamento para fugir com sua amada Suzy para lugar incerto e não sabido. Claro que Ward pede ajuda ao policial local, o Capitão Sharp (Bruce Willis) que, por sua vez, tem que ouvir poucas e boas da representante sem nome dos serviços sociais (Tilda Swinton), ao longo de sua procura pelo casal adolescente.

Na pequena ilha, todos se conhecem e uma futura tempestade anunciada pelo narrador (Bob Balaban) é o ponto de convergência, onde tudo será, em tese, resolvido. Apesar de toda a técnica do diretor, o foco na história é o grande trunfo de Anderson, que escreveu o filme junto com Roman Coppola, que já havia colaborado com ele em Viagem a Darjeeling (como co-roteirista e diretor de segunda unidade) e A Vida Marinha com Steve Zissou (como diretor de segunda unidade). Cada personagem é cuidadosamente desenvolvido e tem marcante personalidade própria, todas tendentes para a loucura, devo confessar (mas quem de nós não é um pouco louco?). O amor adolescente que vemos florescer é retratado de forma meiga e engraçada, com os dois atores mirins fazendo um show em cena. Esqueçam qualquer semelhança com os namoricos e tórridos casos que cansamos (literalmente) de ver no dilúvio de filmes “de adolescente” que há por aí. Aqui, Anderson dá um tratamento de respeito ao assunto, sem jamais precisar apelar para muito mais do que imagens evocativas de uma paixão incontrolável, mas que se manifesta de maneira civilizada, inteligente e relevante.

Os demais atores estão em seus respectivos ambientes. McDormand e Murray dão, cada um, seu respectivo espetáculo. Impossível não sorrir com a paixão – também adolescente, só que secreta – de Laura e a quase completa sandice do superprotetor Walt. Norton consegue transformar seu personagem, um abilolado chefe de escoteiros, em alguém trágico, digno mesmo de Shakespeare. Isso tudo sem perder a graça. E Willis está cativante como o policial de coração mole que se afeiçoa a Sam. Apesar de lembrarmos do ator como herói de ação, ele tira de letra esse que talvez seja o melhor papel de sua carreira.

No entanto, seria quase criminoso acabar essa crítica sem falar da fotografia e da trilha sonora.

Alexandre Desplat (Deus da Carnificina, Argo), que já se estabeleceu como um dos grandes compositores cinematográficos da atualidade, consegue se superar na trilha delicada e evocativa de Moonrise Kingdom, que é usada de maneira absolutamente perfeita por Anderson para ampliar a latitude das ações que saboreamos na tela.

No quesito fotografia, Robert Yeoman é tão preciso quanto o próprio diretor, valendo destaque para seu maravilhoso filtro que coloca em xeque as cores vibrantes escolhidas por Anderson para decorar o filme. É quase como se víssemos Viagem a Darjeeling por meio de uma televisão antiga colorida, evocando com precisão a época em que o filme se passa.

O grande problema de Moonrise Kingdom é que ele acaba. Mas, como tudo que é bom, deixa um delicioso gosto na boca e uma vontade de assistir tudo novamente.

Moonrise Kingdom (Idem, Estados Unidos, 2012)
Direção: Wes Anderson
Roteiro: Wes Anderson, Roman Coppola
Elenco: Bruce Willis, Edward Norton, Bill Murray, Kara Hayward, Frances McDormand, Tilda Swinton, Jason Schwartzman, Jared Gilman, Harvey Keitel, Bob Balaban, Seamus Davey-Fitzpatrick, L.J. Foley, Eric Chase Anderson, Larry Pine, Jake Ryan, Lucas Hedges, Neal Huff, Gabriel Rush
Duração: 94 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.