Crítica | “More Life” – Drake

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estrelas 3

Drake teve um ano extraordinário em 2016 e terminou como, de longe, o rapper mais rentável do ano. Financeiramente no ápice de sua carreira, ele parece resistir ao máximo o famoso “tempo de folga”. Isso pois o produtor não para de lançar trabalhos e trabalhos ano após ano (desde 2013 temos, todo ano, algum lançamento de Drake). E More Life é o mais novo deles, sendo divulgado como uma “playlist” (?). Muito criticado pela inconsistência de Views, seu último álbum, podemos perceber que o rapper resolve fazer um trabalho mais coerente e bem estruturado em More Life, embora seu disco anterior tenha bases bem mais interessantes.

More Life é longo como a maioria dos álbuns de Drake (1h e 20 min), podendo aqui ser dividido em três etapas. Um bom início, um meio bastante desgastante e um fim que retoma o bom rítmo. E essa longa duração não é de hoje que é um problema sério nos discos de Drake, algo que o rapper parece realmente não se importar. Este vem escolhendo batidas minimalistas que muitas vezes beiram o tédio, isso unido a suas rimas – que são boas, mas raramente impressionam – fazem o desinteresse do ouvinte perdurar por muitos momentos de obras como Views, Take Care e agora More Life.

More Life pode se encontrar perdido na discografia do produtor como algo pouco arriscado, mas também não se trata de um passo pra trás na carreira do artista. A evolução de Drake é sentida em muitos momentos aqui, principalmente quanto a suas composições românticas, que mesmo não sendo isentas de erros, mostram uma evolução enorme se comparado a muita coisa feita em Take Care. Passionfruit é o grande troféu nesse aspecto, com seu clima latino suavemente dançante, soando quase como uma parte 2 de Hotline Bling, abordando muito bem um relacionamento a distância.

O artista toca em temas bastante interessantes aqui, mergulhando em sua carreira e o caminho que percorreu até o ápice de sua popularidade. Vemos ao longo do disco o rapper conduzir rimas sobre as reações das pessoas a seu redor. Madiba Riddim discursa sobre os amigos perdidos ao longo do tempo e os esforços para mantê-los. O single Fake Love usa de seu rítmo pop pra falar do “falso amor” demonstrado a ele e de seus “falsos amigos” de olho apenas em suas riquezas. Loose You é direcionado ao lado negativo que a fama pode oferecer, a inveja e o grande número de pessoas torcendo por sua derrota, enquanto Can’t Everything aborda suas próprias limitações: “quero muito, não posso ter tudo”. Tudo poderia soar extremamente piegas, mas tais assuntos são discutidos com uma maturidade notável.

Já as bases/batidas e samples podem deixar bastante a desejar. Claro, Drake é criativo e em meio a 26 faixas era de se esperar alguns acertos. If You Had My Love, da Jeniffer Lopez – muito bem inserida na ótima Teenage Fever (que aumenta o rumor sobre um caso entre os dois) – e Devotion, do Earth, Wind & Fire, no fim de Glow pegam o ouvinte de surpresa, além das vezes que Drake “sampleia” a si mesmo (Doing It Wrong em Jorja’s Interlude é o mais notório), reforçando a ideia de um álbum que medita sobre sua carreira. No entanto, no geral, encontramos aqui batidas repetitivas, pouco inventivas e que carecem de um frescor de autenticidade.

A lista de participações no disco possui altos e baixos. Drake faz questão de até mesmo entregar faixas inteiras a seus amigos, algo que funciona bem algumas vezes, como as ótimas rimas bem entoadas do rapper britânico Skepta em Skepta Interlude. Por outro lado, faixas como 4422 – com presença da revelação do R&B, Sampha – é tão tediosa em sua constante repetição que desgasta a boa base intimista. E por mais que Drake extraia bons momentos de artistas do calibre de Kanye West, Young Thug e Travis Scott, é uma artista desconhecida que mais chama atenção no álbum: a cantora de R&B Jorja Smith (Jorja Interlude, Get It Together), que demonstra uma personalidade enorme cantando, além de bastante química com o rapper.

Drake já esteve em sua melhor forma no excelente Nothing Was The Same e, de alguma forma, se recusa a voltar a esse nível. Insistente em baladas que passam a se repetir junto a bases pouco criativas, o artista aqui deixa muitos de seus fãs carentes de uma obra mais arriscada. Caro leitor, não leve a mal, aqui há bons acertos que mostram o quanto Drake evoluiu, mas em meio a tantas faixas permanece um sentimento de quem sabe que o produtor/rapper pode fazer algo bem melhor que isso.

Aumenta!: Passionfruit
Diminui!: Blem

More Life
Artista: Drake
País: Canadá
Lançamento: 18 de março de 2017
Gravadora: Young Money, Cash Money, Republic
Estilo: Hip-Hop, R&B

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.