Crítica | “Morning Phase” – Beck

estrelas 4

Seis anos após o lançamento de seu último álbum, Modern Guilt, Beck voltou à sua carreira formal — já que, durante este tempo, andou compondo músicas, produzindo álbuns para outras bandas e trabalhando em outros projetos. Fruto de composições feitas em períodos diferentes ao longo desses anos, o décimo álbum de estúdio do cantor, Morning Phase foi produzido em sua cidade-natal, Los Angeles, e contou com a contribuição de músicos locais famosos (tais quais Joey Waronker, Smokey Hormel e Roger Joseph Manning Jr) e a ajuda do consagrado David Campbell, pai do cantor, com os arranjos orquestrais.

Conhecido como um artista de rock alternativo e folk, Beck foi um grande ícone dos anos 1990. Com o tempo, sua música foi amadurecendo e concretizada com o lançamento de diversos álbuns aclamados pela crítica. Com Morning Phase não foi diferente. Indicado e vencedor de várias premiações, ele conta com treze faixas, dentre as quais algumas são somente instrumentais. A presença de instrumentos de corda é extremamente explorada no álbum, que apresenta letras melancólicas, tristes, saudosistas e bucólicas, levando à inevitável comparação ao antecessor de 2002, Sea Change. Se, por um lado, as músicas são extremamente bonitas (independente de suas temáticas), Beck pecou na originalidade, optando por um álbum que parece mais seguro, próximo daquilo que já foi produzido, com a base folk, acústica, intimista e simples.

Morning Phase se inicia com duas faixas que são complementares: a instrumental Cycle e Morning. Podemos considerar a letra desse início como uma das mais otimistas do álbum. É permeada a ideia que aparece constantemente na obra: a metáfora de que é manhã; um novo dia, uma nova luz, tempo de recomeço, assim como explicita o trecho Can we start it all over again?. Com um ritmo calmo e previsível, Morning Phase começa bem, porém de maneira muito semelhante ao já citado Sea Change, correspondência que já pode ser notada nos primeiros acordes.

Seguindo a mesma linha das faixas anteriores, Heart Is a Drum retrata a liberdade e apresenta com mais propriedade o eu lírico do álbum: por vezes onisciente, às vezes personagem, ele procura ser livre, idealiza sua amada e um romance, utiliza imagens e metáforas belíssimas e, acima de tudo, tem medo da solidão. Tal temor do eu lírico é ainda mais explorado em Say Goodbye, que aparentemente receia os dizeres de um adeus. Esta última ainda apresenta levemente as influências do blues e do funk do músico.

O principal atraente do álbum de Beck é, além das músicas extraordinárias, o fato de contar uma história. Não são letras de um romance banal que vemos frequentemente por aí; é um amor melancólico, um eu lírico com personalidade, com medos e, apesar das idealizações, humano. A análise dessa face do artista mostra como Morning Phase se distingue em dois âmbitos: quando só se dá atenção à melodia, triste, lenta e dolente, e quando as letras são sondadas, mostrando imagens sublimes e a existência de esperança. Essa combinação exibe o quão maduro e completo este álbum; além dos instrumentais espetaculares, as letras são simples e, simultaneamente, conseguem nos mostrar muito.

Essa humanidade é retratada com mais afinco em um dos singles do álbum, Blue Moon, que aborda tanto a necessidade de mudança e explorar daquele que vive a música, quanto o medo de ficar sozinho, expresso pelo trecho Oh don’t leave me on my own. Sendo uma das faixas mais “comerciais” do álbum, o uso de sintetizadores é recorrente — não tão quanto os álbuns da atual indústria musical — e contrapõe com os acordes do violão.

Unforgiven introduz ao ouvinte um lado mais sóbrio e ainda mais melancólico de Beck. Com um ritmo não tão alegre, a letra apresenta uma temática um pouco mais diferente das anteriores. É como se fosse o rompimento de todo aquele amor e esperança anteriores; o eu lírico percebe que precisa, de fato, fugir e ainda espera por sua amada. Wave segue a mesma linha, porém é ainda mais sombrio e carregado. A orquestração é fantástica — talvez a melhor de Morning Phase — e lembra muito um estilo pós-punk, bastante característico da época do auge de Beck na década de 1990. A letra simples não significa que a música seja rudimentar: além da harmonia já citada, as imagens e metáforas nas curtas estrofes são magníficas. Além da primeira faixa Cycle, desta vez temos outro instrumental, Phase, que é uma continuação de Unforgiven e Wave — conquanto não seja apresentada logo após delas no disco.

Após duas faixas extremamente densas, Beck começa a explorar as influências country e folk em Don’t Let It Go, Blackbird Chain, Turn Away e Country Down. Enquanto Don’t Let It Go é um acústico muitíssimo agradável, Blackbird Chain segue mais um country clássico. O ritmo distante não impede a aproximação das letras: ambas representam, novamente, o medo do eu lírico da solidão e o pedido para sua amada não lhe abandonar e mostra como nunca irá desistir dela, como no refrão “I’ll never never never never never never never refuse you” de Blackbird Chain. Enquanto em Turn Away — uma das mais belas do álbum — Beck suplica para que prestemos mais atenção ao que a música tem nos oferecer, em como ela pode nos auxiliar resolver problemas, em Country Down o cantor recorre novamente ao escapismo, principalmente como uma perspectiva de mudança.

Waking Light é um dos dois singles do álbum e o encerra com uma perspectiva otimista. A letra é encantadora, e indica um novo começo, semelhante ao do início de Morning Phase. Mesmo com todas as turbulências, uma nova luz emerge, a noite vai embora e finalmente podemos despertar. A orquestra é, novamente, fenomenal e se encaixa perfeitamente com os dizeres da faixa; ela consegue realmente expressar um sentimento de recomeço, do novo.

Analisando Morning Phase por si só, podemos encaixá-lo perfeitamente como uma obra prima e um dos melhores de 2014, com uma excelência técnica inigualável e uma carga emocional densa que consegue transmitir tudo aquilo que propõe. Embora o álbum continue sendo tudo isso, é preciso ir mais a fundo e, obrigatoriamente, compará-lo com a carreira de Beck. Já tivemos a oportunidade de conhecer o lado humano e acústico do cantor em Sea Change e em outras canções de outros álbuns. Morning Phase não trás nada inédito e, mesmo podendo acrescentar muito ao mundo da música — principalmente o contemporâneo — pode parecer desnecessário na carreira de Beck.

Ao que diz respeito à qualidade musical e analisando álbuns isoladamente, Morning Phase pode ser, de fato, o melhor do cantor; todavia, a falta de algo insólito é um problema inegável. Resta torcer para que Beck incorpore seu eu lírico e busque uma mudança também em seu percurso musical. Tudo bem, as canções são, efetivamente, belíssimas, a orquestra é magistral, contudo ainda seria bom ver um pouco além do cantor solitário, melancólico e acústico.

Inédito ou não, é preciso reconhecer o disco como uma obra sensacional. Eis o que torna o disco de Beck diferente daqueles que tocam apenas uma canção de amor: ele é humano, utiliza metáforas e recorre a recursos literários e poéticos que normalmente não são explorados. A retratação de uma história é traçada de maneira esplêndida, principalmente na hora de caracterizar e dar personalidade ao eu lírico. Além disso, é clara a influência de escolas literárias como o Romantismo (principalmente no escapismo) e o Arcadismo (o bucolismo, a busca incessante pelo locus amoenus e o convencionalismo amoroso são temáticas frequentes). As metáforas e imagens construídas com uma linguagem simples levam pra sua música algo que falta nas canções contemporâneas: poesia.

É impossível não aceitar o mérito do artista. Em meio a uma indústria musical que padroniza e cria uma série de hits homogêneos — que daqui um tempo serão esquecidos —, com cantores produzidos e que insistem em especular paradigmas, arquétipos e preconceitos, Beck é um artista completo e faz algo que poucos desses “intérpretes” (é, eles não merecem o título de artistas) fazem: ele compõe e toca os instrumentos. É incrível ver que Morning Phase ganhou um espaço significativo em todo esse mundo musical artificial e tem o poder de, quem sabe, romper com uma série de barreiras que a indústria impôs e trazer de volta á música sua verdadeira essência.

Morning Phase
Artista: Beck
País: Estados Unidos da América
Gravadora: Universal Music
Lançamento: 21 de fevereiro de 2014
Estilo: Folk Rock, Country Rock

GABRIEL TUKUNAGA. . . . Da Sala Precisa de Hogwarts ao Overlook de Jack Torrence, sempre fui fascinado por lugares inóspitos e indecifráveis — ainda que fictícios. Da paixão ao inexplorado, surgiu a incessante busca pelo lugar de pertencimento. Como não faço questão de resolver esse inconveniente agora, tornei-me um entusiasta que ainda tem a pueril esperança de mudar o mundo. Cinéfilo, admirador dos livros, da História e da política, ainda tento sondar e conhecer mais cada um desses itens que, felizmente, jamais poderão ser totalmente decifrados.