Crítica | Mortdecai: A Arte da Trapaça

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Se eu fosse uma pessoa bruta, sarcástica e “sem paciência pra quem tá começando”, eu certamente escreveria sobre este Mortdecai: A Arte da Trapaça da seguinte forma:

No Glorioso Museu do Cânone da Vergonha Alheia Cinematográfica, há pouquíssimos quadros, digo, filmes, que se equiparem minimamente ao potencial (destrutivo) desta nova bomba estrelada e produzida por Johnny Depp. No que se refere à vergonha alheia – o mais importante de todos os quesitos para quem deseja garantir o seu lugarzinho vip (isso seria entre a franquia inteira de Transformers e o videoclipe Friday, de Rebecca Black) no renomado museu da má qualidade audiovisual –, este é um exemplar dos mais louváveis.

E se você achar que eu passei do limite do bom-senso ao referenciar numa crítica cinematográfica – que supostamente deveria ser um instrumento de análise sério e profundo – a mestra suprema das gafes e dos deslizes de todos os gêneros Suzana Vieira, fique sabendo que apenas faço jus ao material no qual eu, infelizmente, fui incumbido de depositar catorze malditos reais e…, (preciso respirar!), ainda por cima, dedicar parte do meu tempo precioso para escrever sobre ele. Acredite: a aura trash de Susana Vieira se encaixaria em Mortdecai: A Arte da Trapaça como uma luva.

A direção do filme, assinada por um infeliz chamado David Koepp, é pouco imaginativa – o que quase chega a ser um elogio se formos parar para pensar nos verdadeiros aspectos negativos (olha o eufemismo aí, minha gente!) deste desastre. Enquadramentos amadores sinalizam para uma certa falta de sensibilidade da parte de Koepp: em determinado momento, o diretor, para “fazer gracinha”, elabora uma mise-èn-scene de dar inveja a Scorsese e Coppola, em que apenas as pernas de Depp, flexionadas e fixas ao chão, nos revelam com uma expressividade assustadora o quão excêntrico é o personagem principal (como se já não houvéssemos tido conhecimento de tal excentricidade bem antes, diante do festival de redundâncias que é essa… coisa)… mesmo quando ele está se posicionando para travar um duelo de esgrima com um inimigo “mortal”.

Porém, mais infeliz que o infeliz do diretor, é o infeliz do roteirista: Koepp ao menos teve a oportunidade de filmar na companhia de alguns atores bacanas (embora não estivessem em suas melhores formas – relevemos por agora), mas Eric Aronson, pobre coitado, desperdiçou horas de sua vida para escrever uma desgraça que, do ponto de vista da dramaturgia – ou seja, o que há de mais básico do básico do básico – só erra. Sei que a culpa da péssima qualidade do texto é dele, só dele, mas não consigo deixar de me compadecer do sofrimento pelo qual esse sujeito deve ter passado ao perceber/testemunhar na tela do cinema a grande besteira que fez. O cara deve ter família e tudo mais… Que aperto no coração, minha gente!

Fazendo jus ao material de análise – que gosta de reiterar insistentemente a mesma informação para que o espectador entenda bem o seu conteúdo (inclusive acabei de fazer isso agora) – mais uma vez, enumero aqui os quatro fatores principais que guiam a narrativa da produção, para que você tenha uma ideia do que passa pela cabeça do nosso roteirista desnorteado:

1 – 70% do filme é sobre o bigode de Charlie Mortdecai, o mais novo e querido amontoado-de-afetações-recicladas-de-personagens-passados-entregue-por-um-Johnny-Depp-que-não-se-cansa-de-ser-incansavelmente-inumano-diante-da-câmera. Este bigode é quase um personagem da trama, pois se fala tanto nele, mas tanto, que sua presença acaba ofuscando o próprio Johnny Depp. É impressionante o destaque que é dado a este bigode! Grande parte das piadinhas e gags gira em torno dele; o “conflito” do relacionamento entre Charlie e a esposa se dá por conta dele; a interpretação de Depp se caracteriza toda na “expressividade” dele… Enfim, só falta o bigode falar. Inclusive, estou me segurando aqui para não injuriar pesadamente o consagrado ator que interpreta o célebre bigode, pois corre o risco de fãs malucas me abordarem na rua com um “tá maluco? Respeita o moço…”, daí que recursos terei eu diante de tal intimação? Vou deixar estes insultos para o final.

2 – 10% é sobre o fervoroso apetite sexual de Jock, espécie de braço direito de nosso protagonista. Vez ou outra o roteiro se entrega ao pastelão da mais baixa estirpe ao apresentar personagens femininas estereotipadas surgindo – e desaparecendo com a mesma naturalidade – pelos cantos, apenas para servirem de alimento ao humor-que-não-tem-a-mínima-graça do filme. Humor este que, aliás, se faz todo através do apelo a lugares-comuns (presentes nas comédias mais toscas da História) como tosse, pessoa desastrada, comentários imediatos e imbecis para tudo (proferidos, é claro, pelo estúpido personagem principal), pessoas gordas, flatulência e vômito. Não soa – e nem cheira – muito bem, certo?

3 – Considere mais 10% para tratar de um conflito especialmente “importante” para a narrativa: a paixão reprimida do personagem de Ewan McGregor pela personagem de Gwyneth Paltrow. Pronto! Esta é a fórmula mágica do sucesso. Ah, e ainda faltam os últimos 10%…

4 – … que são dedicados à história.

Um tanto quanto desproporcional, não é mesmo? Fica claro que Aronson, o infeliz do roteirista, não sabe definir bem suas prioridades. Não tem problema, eu defino por ele: largue o cinema, amigo, e vá cuidar da sua família – eles devem estar precisando de ajuda neste momento, já que você gastou todas as suas horas vagas “desenvolvendo” esta porcaria e não pôde lhes dar a devida atenção – o que certamente seria o mais sensato e saudável a se fazer, como podemos facilmente aferir… mas agora a tragédia já está consumada.

Para piorar (ao contrário do que dizem os otimistas, sempre pode piorar…), o roteirista ainda insiste em utilizar recursos como a voz em off e os flashbacks em demasia e, é claro, erroneamente: eles estão ali para tentar disfarçar a história pífia e para reafirmar diversas coisas que já foram assimiladas pelo espectador há muito tempo. Assim, em um determinado momento, Aronson resolve trair de vez o bom-senso e os conceitos mais primitivos de roteiro ao simplesmente explicar, através de voz em off e de um flashback, a “grande virada” da narrativa, como se precisássemos que desenhassem para nós um jogo da forca para entendermos o que é uma pessoa enforcada (uma aulinha de português: na frase “quero me enforcar”, onde está o sujeito? Resposta: na sala de cinema assistindo a Mortdecai: A Arte da Trapaça). Trata-se então – vamos desenhar? – de uma mistura de um off horrendo com um flashback tenebroso, que resulta numa sequência desnecessariamente esdrúxula e repugnante. Desculpe, mas isso aqui não é cinema: é Palhaçada, com P maiúsculo mesmo.

Por fim, eis que chegamos ao nosso astro. Não, não é o bigode: é Johnny Depp. Chega a ser doloroso olhar para ele na tela. Aquela quantidade de espasmos e caretas e afetações absurdas e aleatórias já não fazem mais parte de uma composição séria de personagem: é tique! O cara precisa se tratar, e já! Acredito seriamente que este Mortdecai: A Arte da Trapaça seja o filme definitivo para sepultar Johnny Depp. Até o nome ajuda: tem, se nos esforçarmos um pouco para sermos os engraçadinhos do trocadilho, as palavras “Morte” e “Cai”. Visualizei um futuro próximo no qual poderá ser lido na certidão de óbito da persona cinematográfica de Depp o seguinte sobre o seu falecimento na profissão: “Morto de Cair”. De tanto cair, ele morreu. Caiu na Fantástica Fábrica de Chocolate, caiu em Sweeney Todd, caiu em Alice No País das Maravilhas, caiu… e chegou a Mortdecai: A Arte da Trapaça. Desvendei então o segredo por trás desta trapaça: trata-se, enfim, do anúncio do fim de Johnny Depp.

Enquanto Leonardo DiCaprio, por exemplo, tenta desesperadamente ganhar o Oscar, Depp parece mais interessado no Framboesa de Ouro. O estereótipo de galã de Titanic livrou DiCaprio do estereótipo de galã de Titanic; abriu-lhe horizontes, e hoje ele é o queridinho do todo poderoso Martin Scorsese. Já o estereótipo de Jack Sparrow, aquele pirata transloucado e cheio de manias, aprisionou Depp em Jack Sparrow. Praticamente tudo o que ele faz hoje é uma repetição canhestra do “Pirata do Caribe”, e isso já não é mais novidade para ninguém.

Se o pobre coitado do DiCaprio não ganhar o Oscar com essas 24 personalidades que ele está prestes a interpretar em The Crowded Room, e precisar de uma 25ª personalidade para ser enfim consagrado, deduzo que tal personalidade só poderá ser ele mesmo… depois de morto… recebendo um Oscar póstumo… pelo conjunto da carreira. Porque, meu Deus! Se o Johnny ganhar o Oscar antes do Leonardo… nem sei o que será da Vida, depois deste ponto de virada imprevisível e aterrador.

Quanto ao filme, quer saber? Sou uma pessoa bruta, sarcástica e “sem paciência pra quem tá começando”. Bigodes… argh!

Mortdecai – A Arte da Trapaça (Mortdecai, EUA – 2015)
Direção:
David Koepp
Roteiro:
Eric Aronson (roteiro), Kyril Bonfiglioli (romance)
Elenco:
Johnny Depp, Gwyneth Paltrow, Ewan McGregor, Paul Bettany, Olivia Munn, Aubrey Plaza, Jeff Goldblum, Oliver Platt, Ulrich Thomsen, Michael Byrne, Jamie Bernadette, Carly Steel, Camilla Marie Beeput, Alec Utgoff, Guy Burnett
Duração:
107 min

KARAM . . . Desde 1992, o ano em que foi apresentado ao mundo por duas admiráveis criaturas que logo se identificaram como "pais", Karam vem se aventurando pelos caminhos da Arte, da maneira que pode. Na música, Aretha Franklin é a sua pastora. Na Literatura, andou se entendendo muito bem com Clarice Lispector e Oscar Wilde. Embora faça faculdade de Cinema, não esconde que seu filme preferido – ao contrário do que muitos poderiam presumir – não é nenhum cult de Bergman ou Fellini, mas sim O Rei Leão; é!, aquele lá mesmo, da Disney. Um dia leu, em Leminski, que "isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além" e, assim, resolveu investir na ideia proposta pelo poeta para, quem sabe um dia, chegar ao além sem precisar passar pelo infinito – que é a pra não ter a infelicidade de esbarrar com o Buzz Lightyear no meio do caminho (fora, concorrência!).