Crítica | Morte Branca em Água Azul

Mitos fundacionais são complicados. Os estudos em ciências humanas comprovam isso constantemente. O sucesso comercial de Tubarão e as suas qualidades narrativas são praticamente inquestionáveis, mas a captação de imagens do temido tubarão-branco foi ao público muito antes da narrativa ficcional de Spielberg, convenhamos, um mago das imagens nos anos 1970. Por isso, ao realizar a crítica do filme mais simplório, fico com a filosofia do marxista Frederic Jameson: “historicizar sempre”. Todo exercício reflexivo requer um panorama.

No caso deste documentário, tudo começou no primeiro ano da produtiva década de 1970. Sob a direção de Peter Gimbel e James Lipscomb, também responsável pela condução do roteiro, Morte Branca em Água Azul traz 99 minutos de uma trajetória árdua dos pesquisadores no que tange ao registro de imagens do tubarão-branco. Mas não se trata de qualquer imagem. Os realizadores estavam interessados em inovar, pois o material sobre a espécie era praticamente nulo na cultura da mídia e na sociedade do espetáculo.

A produção segue a trajetória da expedição liderada por Peter Gimbel junto ao seu grupo de fotógrafos interessados na captação das primeiras imagens de tubarões-brancos. Proprietário de uma loja de departamentos durante bastante tempo, Gimbel decidiu apelar para seu lado aventureiro e partiu com a expedição para tentar fazer algo diferente e mais relevante para a sua história. O trabalho, entretanto, não foi nada fácil. Foi preciso bastante tempo para conseguir encontrar com a espécie numa situação favorável para captação de imagens. Passou pela África do Sul, mas foi na Austrália que a produção conseguiu alcançar o sucesso almejado. Com o apoio de Rodney Fox, inicialmente um caçador de tubarões que depois mudou para o time da preservação da espécie, os realizadores encontraram e se deliciaram com as imagens para ganhar dinheiro e, posteriormente, ganharem convites para participação do processo de produção de Tubarão, bancado pelos executivos da Universal.

No mesmo ano de lançamento do documentário, Peter Matthiessen escreveu Blue Meridian. Nas páginas da publicação, o escritor contou detalhes sobre a expedição e com isso, injetou mais adrenalina no imaginário dos futuros leitores de Tubarão, de Peter Benchley, e por sua vez, no filme baseado no romance homônimo. Foi uma série de imagens prontas, outras criadas na mente do leitor, o material responsável por começar a fermentar o burburinho em torno da produção de Spielberg. De acordo com Benchley, o documentário foi a sua maior fonte de inspiração para escrever o seu best-seller.

Morte Branca em Mar Azul, entretanto, tem os seus méritos e não precisa necessariamente de Tubarão para ser apontado como uma produção relevante. Com direção de fotografia de James Lipscomb, também responsável pela concepção geral do filme, provavelmente inspirado pelas imagens famosas de Cousteau, o documentário também conta com a eficiente edição de John Haddox e seu trabalho exaustivo de seleção dos nove meses de imagens captados pela produção.

Morte Branca em Mar Azul é, na opinião de Peter Benchley, “o melhor filme sobre tubarões já realizado”. A opinião importa bastante, mesmo que discordemos, afinal, estamos falando de ninguém menos que o romancista que escreveu o livro que deu o pontapé inicial na carreira de Spielberg, bem como no surgimento do subgênero “filmes sobre ataques de tubarões”, uma seara de produção que possui muita produção ruim, mas que de vez em quando traz uma atração divertida e relevante.

Morte Branca em Água Azul — (Blue Water White Dead) Estados Unidos, 1971.
Direção: Peter Gimbel, James Lipscomb
Roteiro: Peter Gimbel
Elenco: James Lipscomb, Peter Gimbel, Rodney Fox, Stuart Cody, Tom Chapin, Peter Lake, Phil Clarckson, Ron Taylor, Valerie Taylor
Duração: 94 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.