Crítica | Morto Não Fala

Posso estar completamente equivocado, mas, quando os créditos finais de Morto Não Fala começaram a rolar, meus primeiros pensamentos, ainda no escurinho da sessão de cinema, voltaram-se ao que o diretor estreante na direção de longas teria sentido ao longo da produção de sua obra. Minha impressão, baseada unicamente nas entrelinhas do filme, foi de que Dennison Ramalho estava de corpo e alma ali, em cada sequência, em cada susto, em cada momento sobrenatural de sua obra. Foi impossível deixar de sentir indiretamente uma particular alegria e excitação por parte dele em colocar nas telonas um terror nacional, algo por si só raro, realmente digno, capaz de competir com muitos dos melhores exemplares estrangeiros do gênero.

Há um inegável cuidado em cada fotograma do longa, uma beleza plástica de se tirar o chapéu e um roteiro que transita entre o estranho e o macabro, o terno e o nojento, o sanguinolento e o sobrenatural  com grande facilidade e, mais ainda, com extrema lógica, sem invencionices tiradas do nada para trazer surpresas baratas ao espectador. Que fique logo claro, para aqueles que porventura tiverem reticências, que Morto Não Fala não é terrir, não é um filme que chegaria perto de ser chamado de trash (e existem vários trashes bons!). Ele é um bom e velho exemplar clássico de filme de terror que faz ótimo uso de absolutamente todos os clichês do gênero sem medo de ser feliz ou de fazer os mais suscetíveis passarem mal, claro.

A história é simples: Stênio (Daniel de Oliveira), um legista do turno noturno do IML, tem o poder – ou, talvez melhor dizendo, a maldição – de falar com os mortos, algo que ele lida muito bem até que, em um belo dia, por razões pessoais, ele resolve usar informações vindas da boca de um cadáver para vingar-se, fazendo com que o feitiço acabe voltando-se contra o feiticeiro. Essa simplicidade toda pode até ser lugar-comum, mas isso nem de longe é suficiente para retirar o frescor da fita, já que o mero ato de falar com os mortos, normalmente estendidos nas macas de metal do IML, é trabalhado de forma original, com os corpos realmente falando com Stênio, mexendo só o rosto em uma reunião de efeitos práticos, maquiagem e computação gráfica de leve que surpreende de tão bem feita, com um resultado final inusitado e que já começa “incomodando” o espectador, que logo nota que a habilidade de Cole, em O Sexto Sentido, é a versão light e higienizada da coisa.

E o melhor é que o roteiro não perde tempo com pseudo-explicações para o poder de Stênio. Ele é assim e acabou. Temos que aceitar isso como premissa, o que não é pedir demais, convenhamos. Com isso, o roteiro abre velozmente espaço para o macabro e o nojento (corpos são abertos e fechados com realismo e perturbadora tranquilidade), logo levando à violência e, em seguida, servindo de ponta de lança para que a pegada sobrenatural entre de sola, com o casebre de Stênio passando a ser a versão brasileira das piores e mais terríveis mansões mal-assombradas do cinema e da televisão. Para piorar as coisas, Ramalho não tem pudor algum em envolver crianças na narrativa, aqui Ciça (Annalara Prates) e Edson (Cauã Martins), filhos de Stênio. E, quando digo envolver, é envolver de verdade, assim mesmo com a palavra negritada, sem receio de jogá-las no meio da ação e da pancadaria fantasmagórica.

A fotografia, que ficou ao encargo de André Faccioli, dialoga bem com a trama sombria, mas sem apelar para a escuridão total, daquelas genéricas. Ele trabalha uma paleta de cores esverdeada que transporta a sensação da sala do IML para outros ambientes, além de trabalhar ângulos que ajudam a colocar o espectador como parte da história, o que só amplifica a sensação claustrofóbica e incômoda que o filme transmite do começo ao fim. Há algumas sequências antológicas, notadamente a que transforma a sala de Stênio em uma versão de cerol dos filmes de “roubos de banco”, com aquela malha de lasers para proteger o grande tesouro. É um momento infelizmente muito rápido, mas extremamente aflitivo, que a fotografia de Faccioli realça muito bem.

O elenco é todo muito bem azeitado, especialmente Daniel de Oliveira. Há alguns pequenos problemas com as reações “atrasadas” das crianças em determinadas sequências, mas que eu reputo muito mais à montagem do que algo com os pequenos Prates e Martins. Fabiula Nascimento, como Odete, esposa de Stênio, é a encarnação do exagero teatral, mas seu trabalho, dentro do que o roteiro exige, é exatamente o que é necessário para fazer o filme funcionar. Somente a bela Bianca Comparato, com Lara, a filha do dono do bar que Stênio frequenta e que se torna a babá das crianças é que não tem muito espaço para ter uma performance destacada, mas ela mostra competência em todas as cenas em que aparece.

Mas aquela empolgação de Dennison Ramalho que percebi nas entrelinhas do filme, e que pode ser imaginação minha, causa um problema: ele não sabe quando parar. Morto Não Fala tem, praticamente, um pouco de tudo que o gênero tem a oferecer, inclusive a “pia da cozinha” como os americanos dizem e, com isso, a projeção passa um pouco do ponto. No afã de lidar com muita coisa, Ramalho acaba espremendo várias novas situações no terço final do filme que criam diversos finais falsos que chegam perigosamente próximos do cansativo e retiram um pouco do poder dos sustos. Falando neles, aliás, apesar de toda a atmosfera lúgubre da fita, o que por si só faz o cabelo da nuca ficar eriçado, o diretor não resiste em inserir jump scares desnecessários e mais do que telegrafados, daqueles que colocam a trilha sonora no volume 11 de repente. Felizmente, porém, ele é econômico nesse artifício batido e barato.

Morto Não Fala é terror “raiz” como está na moda falar. Um filme que sabe construir sua própria mitologia, desenvolve bons personagens e boas situações, mantém uma lógica impecável do começo ao fim, assusta (e causa aversão) na medida certa, não entrega um final pelo caminho mais viajado, e, acima de tudo, diverte demais. Dennison Ramalho e equipe estão de parabéns por essa pérola do terror brasileiro que, espero com todas as minhas forças, chegue em amplo circuito nacional para que mais gente possa apreciá-la.

Morto Não Fala (Brasil, 2018)
Direção: Dennison Ramalho
Roteiro: Cláudia Jouvin, Dennison Ramalho (baseado em conto de Marco de Castro)
Elenco: Daniel de Oliveira, Fabiula Nascimento, Bianca Comparato,  Annalara Prates, Marco Ricca, Cauã Martins
Duração: 110 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.