Crítica | Motorista Fantasma #1 a 12 (All-New Ghost Rider – 2014 – 2015)

Obs: O nome do personagem, em inglês, é Ghost Rider, originalmente traduzido no Brasil como Motoqueiro Fantasma, já que a versão mais clássica do anti-herói, Johnny Blaze, usava (e ainda usa) uma moto. No entanto rider é uma palavra em inglês que pode ser usada para designar “motoqueiro”, “motorista” e até “cavaleiro” e a melhor tradução seria, talvez, Piloto Fantasma. Mas, para ficar próximo à versão original em português e considerando que esses arcos ainda não foram publicados por aqui, não tendo, portanto, um nome oficial, decidi usar o nome Motorista Fantasma, nome esse que já vem sendo usado informalmente internet afora para designar o novo personagem.

A Marvel Comics, nos últimos anos, embarcou em uma nobre missão: aumentar a diversidade de gênero, etnia e opção sexual em suas publicações. E, no geral, ela tem sido bem sucedida, ainda que sua estratégia esteja restrita a nos apresentar personas super-heroísticas recicladas, “vestidas” por personagens novos. Criar algo completamente do zero a editora nem tenta, sempre de alguma forma ligando a nova pessoa a algum super-herói já estabelecido. Foi assim com a versão feminina de Thor, com a homenagem muçulmana a Ms. Marvel, com a recente nova versão feminina e negra do Homem de Ferro e assim por diante. E o mesmo aconteceu com o Motoqueiro Fantasma (Ghost Rider, no original), que ganhou sua versão latina.

Mas um Motoqueiro Fantasma latino não é novidade. Durante o crossover A Essência do Medo, a nicaraguense (de pai americano e mãe mexicana) Alejandra Jones (ou Blaze) ganhou poderes demoníacos e assumiu a identidade do personagem. Roberto “Robbie” Reyes é, então, o segundo latino a assumir uma “identidade Ghost Rider”, ainda que ele seja tecnicamente americano. A verdadeira novidade, porém, é que o personagem não mais dirige uma moto (ou Hell Cycle), veículo clássico do Espírito da Vingança, e sim um carro, mais exatamente o muscle car Dodge Charger modelo 1969, devidamente modificado e na cor preta, apelidado de Hell Charger.

A nova série, cuja publicação começou em maio de 2014, foi cancelada após 12 números em maio de 2015 e contém apenas três arcos: Engines of Vengeance (Motores da Vingança), Legend (Lenda) e Great Power (Grande Poder). Eles ainda não foram publicados no Brasil e, nos EUA, dois encadernados foram lançados, um contendo o primeiro arco (edições #1 a #5) e outro contendo os dois arcos seguintes (edições #6 a #12). Para facilitar, tratarei, abaixo, de cada arco separadamente, com suas notas respectivas.

Engines of Vengeance (Motores da Vingança)
All-New Ghost Rider #1 a #5

estrelas 3,5

ghost_rider_engines_of_vengeance_capa_plano_criticoO arco inicial, obviamente, lida com a origem do novo Ghost Rider. Mas Felipe Smith não perde tempo com muitos detalhes ou explicações sobre a transformação propriamente dita – que acontece quase que aleatoriamente apenas na última página do primeiro número -, e sim com a construção do novo protagonista e hospedeiro de um demônio: Roberto “Robbie” Reyes. Em velocidade frenética, os principais traços do jovem são estabelecidos fortemente. Ele é um jovem mecânico de automóveis em Los Angeles que, sozinho, cuida de seu irmão caçula Gabriel (Gabe), paraplégico desde o nascimento e almeja sair da região tomada por gangues e violência onde mora. Com exceção da inclusão de um irmão com limitações motoras, o pano de fundo de Robbie é bastante simples e entremeado de clichês do gênero, sem um esforço muito grande para se fazer algo particularmente fora do comum ou original.

Mas isso em si não é ruim. Afinal, é fácil identificar-se com o rapaz e seu desespero em dar uma vida melhor ao irmão que o leva a furtar o (lindo) Dodge Charger turbinado da garagem onde trabalha para fazer um racha e ganhar 50 mil dólares. Claro que, sem ele saber, não só o carro continha um carregamento de drogas como também era habitado pelo espírito do criminoso e adorador do demônio Elias “Eli” Morrow que se funde com Robbie quando ele é crivado de balas pela gangue que tenta se livrar das drogas. Com isso, com uma cajadada só, Felipe Smith mata dois coelhos: ele entrelaça a nova origem com o primeiro caso que tem que ser “vingado” por Robbie possuído.

O que se segue é uma aventura em ritmo alucinante, com Robbie de um lado tentando conciliar sua vida com o fato que agora vive possuído por um demônio e se transforma em alguém com uma caveira flamejante e também tendo que lidar com o grande vilão do arco, Calvin Zabo ou, como é mais conhecido, Mr. Hyde, responsável pelas tais drogas que transformam as pessoas em seres monstruosos como ele. Apesar de o vilão e a trama criminosa não empolgarem muito, por serem simplistas, a manipulação de Robbie por Eli, algo que é trabalhado nas entrelinhas, funciona muito bem, deixando pontas de mistério e revelações para momentos seguintes.

Os traços no estilo mangá de Tradd Moore emprestam um ar diferente à história, notadamente quando ele se solta completamente e desenha os frenéticos e exagerados combates entre Ghost Rider e as gangue locais, além dos membros do cartel de Zabo, culminando com uma pancadaria entre o herói e um enormemente monstruoso Mr. Hyde. Além disso, ele trabalha muito bem a estrutura de quadros, com grande alternância em sua quantidade por página, mas sempre mantendo o ritmo e populando-os adequadamente, sem desequilíbrios. As cores vibrantes de Val Staples também ajudam a aumentar a impressão de energia que Moore tenta passar a cada punhado de páginas, criando um bombardeio visual que fica na medida, sem tornar desagradável a leitura.

Engines of Vengeance é uma boa, ainda que não particularmente original história de origem que deslumbra mais pelos visuais do que pelo roteiro básico. Robbie, o novo Ghost Rider, ganha relevo e o leitor fica curioso para ver como a história da possessão demoníaca continuará.

Legend (Lenda)
All-New Ghost Rider #6 a #10

estrelas 3

ghost_rider_legend_capa_plano_criticoO segundo arco de All-New Ghost Rider é cheio de novidades. Para começar, sai Tradd Moore e entra Damion Scott na arte. O resultado, porém, é inferior ao do primeiro arco, já que Scott, apesar de ter traços bonitos e caricatos para desenhar os personagens, se perde completamente nas sequências de ação, especialmente nas splash pages, que são todas confusas e extremamente exageradas. Moore já era exagerado, mas ele sabia organizar a disposição de suas páginas magistralmente, algo que Damion deixa muito a desejar. Nos dois primeiros números, a arte-final de Robert Campanella consegue frear os excessos do lápis de Damion, mas, depois, nos números seguintes, Cory Hamscher entra em sintonia e o resultado chega a dar dores de cabeça e tornar iguais praticamente todos os personagens, até mesmo os dois Ghost Riders.

O que me leva à segunda novidade: Johnny Blaze é trazido para a história! A decisão de Felipe Smith em fazer a reunião do Motoqueiro Fantasma clássico com Robbie Reyes funciona organicamente dentro da narrativa, já que o grande drama do arco é a influência cada vez mais nefasta que o espírito demoníaco de Eli Morrow exerce em Robbie. Blaze detecta mais um Ghost Rider (porque o Universo Marvel tem uma penca deles!) e parte para caçar Robbie e descobrindo que as duas almas coexistem em um corpo só e que, pelo que tudo indica, a de Eli está ganhando a briga. Afinal, mesmo com o novo Ghost Rider sendo um heróis depois da batalha contra Mr. Hyde ao final de Engines of Vengeance e  Robbie em si estar angariando fama em rachas automobilísticos, o jovem é inexperiente para lutar constantemente contra Eli.

São os embates internos entre Robbie e Eli que salvam o arco, já que, como pano de fundo, temos novamente Mr. Hyde como vilão, desta feia criando uma “pílula azul” que transformam os valentões locais em brutamontes ao seu serviço, dentro do plano de dominação do submundo de Los Angeles. Em outras palavras, é a mesma história do arco anterior, só que com pílulas azuis no lugar de pílulas rosas e com um prelúdio que conta com animais monstruosos que se alimentam da pílulas rosas e matam quem estiver pela frente que simplesmente é esquecido por Smith na progressão narrativa que tenta construir.

Assim, o que resta é a questão psicológica mesmo, que acaba afetando Gabe também, já que ele sofre quando o irmão é tomado completamente pelo espírito de Eli pela primeira vez, em uma sequência de cortar o coração. E o melhor é que, aos poucos, o roteiro vai revelando quem exatamente foi Eli Morrow e porque ele conseguiu encarnar em Robbie e como é que os poderes são parecidos aos de Johnny Blaze (não tem o Olhar de Penitência, mas, em compensação, tem teletransporte via porta malas do carro e também a habilidade de controlar o bólido à distância).

No final das contas, Legend consegue ser um arco instigador, ainda que menos competente que o primeiro.

Great Power (Grande Poder)
All-New Ghost Rider #11 e #12

estrelas 4

All-New Ghost Rider foi cancelada em maio de 2015, em seu 12º número, ostensivamente em razão do cancelamento geral das edições regulares Marvel para abrir espaço para Guerras Secretas e todos os seus tie-ins (há inclusive um sobre todos os Ghost Riders, inclusive Reyes, chamado Ghost Racers). No entanto, diferente de vários outros personagens, sua volta jamais foi confirmada até bem pouco tempo atrás, provavelmente em razão da participação do personagem em Agents of S.H.I.E.L.D.. Seja como for, Felipe Smith precisava então acabar de alguma maneira redonda dentro de apenas dois números.

E assim ele fez. Em Great Power, o foco é exclusivamente no conflito interno entre Robbie e Eli, tendo Gabe como o instrumento usado por Eli para fazer com que seu hospedeiro perca o controle sobre seu corpo. A abordagem é séria e até pesada, com ótima utilização de Gabe e de todas as suas limitações. Se ele já sofrera no arco anterior, ele literalmente come o pão que o diabo amassou aqui, ainda que eu tenha reservas sobre o que acontece com ele ao final, sob a influência de Eli… Ao longo da breve narrativa, aprendemos muito sobre o passado de Eli Morrow – algo que Blaze já havia começado a descobrir no arco anterior – e sua ligação com Robbie, que é mais do que apenas coincidência.

Quase que desafiando convenções, considerando que este seria o último arco, o que Smith efetivamente faz é entregar um “começo” às aventuras de Robbie como Ghost Rider com esse seu final. É a partir da última página do último número que sua condição como “um homem que faz um pacto com o demônio” fica solidificada, tornando os números anteriores não mais do que detalhados prelúdios a esse momento, o que demonstra que o autor tinha um plano de longo prazo para seu personagem.

Agora é torcer para que o retorno do Ghost Rider Robbie Reyes aos quadrinhos e sua encarnação live-action façam jus ao personagem!

All-New Ghost Rider #1 a #12 (EUA, 2014/5)
Roteiro: Felipe Smith
Arte: Tradd Moore (#1 a #5), Damion Scott (#6 a #10), Felipe Smith (#11 e #12), Kris Anka (#12)
Arte-final: Robert Campanella (#6 e #7), Cory Hamscher (#8 a #10)
Cores: Val Staples (#1 a #12), Ester Sanz (#5),
Letras: Joe Caramagna
Editora: Marvel Comics
Data original de publicação: maio de 2014 a maio de 2015
Páginas: 24 por edição

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.