Crítica | Moulin Rouge – Amor em Vermelho

estrelas 5,0

Antes de começar a minha análise, assumo que devo muito ao musical de Baz Lurhmann. Escrevo, leio e sou professor universitário na área e o filme me propiciou alguns dos melhores momentos no preâmbulo de uma carreira ainda em constante devir, pois foi a produção que me despertou o interesse em ver o cinema como algo além do diletantismo. Moulin Rouge – Amor em Vermelho surgiu em minha vida durante o carnaval de 2002, momento marcado pela decisão de não frequentar mais a festa anual e dar vazão a um ritual realizado até os dias atuais. Sentar, em feriados como a Páscoa, o Natal, o Reveillon ou as festas juninas, e assistir, em sequências extensas, filmes geralmente demarcados por eixos temáticos.

Em Moulin Rouge, Baz Lurhmann nos oferece um inusitado coquetel: tango, valsa, dança contemporânea, dentre outros estilos, misturam-se a trilha sonora que mescla música erudita com a polifonia do estilo pop, referências literárias, cinematográficas e das artes plásticas, que nem após, vejamos, 60 ou mais sessões do filme, tenha sido possível cataloga-las. A produção é um festival de excentricidades, com números musicais bem elaborados, personagens bem delineados e a narrativa fluida e eficiente, graças ao talento do diretor, na linha de frente da produção, associado aos talentos que integram a sua equipe: montagem, direção de arte e o casal protagonista, itens que dão o toque de charme necessário para Moulin Rouge ser considerado o filme da minha vida.

Por se tratar de um filme com tantas questões que não podem ser tratadas em sua totalidade neste espaço, vou dividir o texto em quatro partes, numa maneira de sistematizar e tentar dar conta do que for elementar. Convido-lhe, caro leitor, a passear pelo enredo, e assim, conhecer os personagens e as suas dimensões, a linguagem cinematográfica no filme, bem como os recursos intertextuais presentes na narrativa.

Christian (Ewan McGregor) é um poeta pobre que chegou de Londres e decidiu se estabelecer em Paris, especificamente em Montmartre, bairro boêmio da cidade, local considerado por seu pai como “um reduto de perdição”. Sozinho, decide escrever uma peça, mas ainda não possui os contatos para a realização do seu espetáculo que representa os ideais da chegada do novo século e das revoluções sociais. Durante uma confusão entre inquilinos da pensão em que se encontra instalado, conhece Toulouse-Lautrec (John Leguizamo), boêmio inspirado no famoso artista do Moulin Rouge que o leva até o cabaret para conhecer o “diamante cintilante”, a cortesã Satine (Nicole Kidman).

Satine logo se encanta pelo poeta, mas por causa de outra trapalhada em um número musical. Ela para ela se encantar pelo Duque, pois este é o mecenas das artes, burguês que fará do Moulin Rouge uma casa de shows novíssima. Mas para reformar e manter o local, o Duque exige a exclusividade dos serviços de Satine, a cobiçada cortesã. O amor, obviamente, chega para atrapalhar tudo, colocando a vida dos protagonistas e a estrutura do Moulin Rouge em perigo.

Geralmente não misturo afetividades de artistas com crítica, mas é importante ressaltar que um dos trunfos do filme é o charme, a elegância e o talento de Nicole Kidman, em sua melhor fase no cinema. Recém-separada do ator Tom Cruise, após anos de um casamento, como nas palavras da atriz, “sufocante”, Nicole embarcou numa onda de projetos dignos de alta nota. Lançou, no mesmo ano, Moulin Rouge, Os Outros, um ano depois, foi premiada pelo filme As Horas, além de outras produções igualmente interessantes. A construção da sua personagem é o que consideramos chamar na Teoria da Literatura de pastiche, um mosaico de referências. Há, no perfil da personagem, a base literária de A Dama das Camélias, peça teatral de Alexandre Dumas Filho, bem como características de Greta Garbo, Marlene Dietrich, Marilyn Monroe e Madonna.

Christian é interpretado com maestria por Ewan McGregor. A sutileza na construção da personagem, aliada ao talento vocal do ator é um dos requisitos apaixonantes do filme. Baz Luhrmann orquestra com cautela as cenas de dança e música entre o casal, além de equilibrar drama e comédia nas cenas de Toulouse-Lautrec, personagem do ótimo e versátil John Leguizamo, e conta ainda com um extenso elenco coadjuvante. Zilder (Jim Broadent) e o Duque (Richard Roxburgh) formam uma dupla forte, sejam juntos ou separados, construídos numa estrutura caricatural proposital que tende a dar o tom teatral e exagerado do filme.

Moulin Rouge é cinema, mas parece uma série de pinturas misturadas a aspectos teatrais, com traços da linguagem do videoclipe, numa espécie de manifesto artístico que aponta o cinema como a sétima arte, mas desmonta a estrutura em alguns trechos, nos deixando entender onde há teatro, literatura, artes plásticas, dança e música, de forma unitária, para depois juntar tudo novamente. A montagem consegue tornar o que poderia ser uma confusão visual em algo compreensível, a direção de arte envolve, de maneira inusitada, elementos de vanguardas distintas, como o barroco, o romantismo e a arte renascentista em meio ao cenário urbano parisiense em fase de expansão.

O roteiro, que vai de A Dama das Camélias ao mito de Orfeu, é complementado pelo surgimento de canções que mesclam ópera e música pop. Em suma, é um festival extenso de informações que são codificadas ao passo que você assiste ao filme numerosas vezes. Historicamente, a produção representa a ascensão da burguesia, o avanço tecnológico da eletricidade, numa história ambientada em Paris, alguns anos após a primeira exibição de cinema, realizada pelos irmãos Lumiere, ainda um aparato tecnológico em estado de decifração, prenúncio de uma arte narrativa e completa, marco do século XX.

Ao fechar a Trilogia das Cortinas Vermelhas, Baz Luhrmann nos entrega um espetáculo rico em referências artísticas, um filme que para ser parcialmente desvendado, requer muitos anos de estudo e análise. Na seara do cinema, as referências estão entre a A Noviça Rebelde, Cabaret, Na Cama com Madonna, Drácula; na literatura, A Dama das Camélias, o mito grego de Orfeu, homem amaldiçoado a ficar por toda a vida “cantando” a sua amada, assim como a base do ciúme que conhecemos através de Othello, de William Shakespeare, bem representada na cena do Tango de Roxanne; na trilha sonora, David Bowie, Alessandro Safina, Christina Aguilera, Bono, Pink, dentre outros.

Em suma, uma obra para quem quer amar e ser amado em retribuição. Uma produção que homenageia o cinema e o representa como aquilo que já sabemos. Um filme para diletantismo, assim como uma abissal fonte de estudos da linguagem cinematográfica e das artes em geral, com traços históricos mixados que nos oferece uma intensa aula de cinema, de literatura e de história. Um filme completo e complexo. Uma experiência única que a depender do seu momento de recepção, pode ser amada ou odiada. Assista e depois nos conte o que você achou. E, se me dão licença, preciso fechar as cortinas vermelhas agora, tudo bem? Desejo-lhes bons filmes.

Moulin Rouge: Amor em Vermelho (Moulin Rouge!) — EUA, Austrália, 2001
Direção: Baz Luhrmann
Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce
Elenco: Nicole Kidman, Ewan McGregor, John Leguizamo, Jim Broadbent, Richard Roxburgh, Garry McDonald, Jacek Koman, Matthew Whittet, Kerry Walker, Caroline O’Connor, Christine Anu
Duração: 127 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.