Crítica | Movidos Pelo Ódio

estrelas 3,5

Movidos Pelo Ódio foi o antepenúltimo longa dirigido por Elia Kazan, cujo roteiro ele adaptou de seu próprio livro. Tanto a obra literária quanto o filme geraram grandes polêmicas quando lançados. A película recebeu duras críticas de praticamente toda a imprensa, que atacou não só a decisão de Kazan em adaptar o livro como também a sua direção e a atuação de Kirk Douglas, o protagonista. Mas em meio a toda essa má recepção, há um grande exagero.

É certo que Movidos Pelo Ódio não é um filme maravilhoso, mas está bem longe de ser um filme ruim, a começar pela história, que é interessantíssima. Eddie (Kirk Douglas, em uma atuação que destaca a sua versatilidade) é um profissional de sucesso, com um casamento aparentemente feliz, dinheiro e boa posição social. Quando ele rompe o relacionamento com sua amante Gwen (Faye Dunaway, encantadora), questionamentos pessoais começam a lhe perseguir e vão minando a sua sanidade. Ele tenta suicídio e, ao falhar, adota uma vida de perigos e más escolhas que colocarão a si e a sua família em constante perigo.

Kazan tenta mergulhar na alma do cidadão representante do modo de vida americano, confrontando-o com sua riqueza e expondo para ele o quão vazio, auto-boicotado e insatisfeito ele é. A jornada vai se tornando um verdadeiro labirinto narrativo — algo que muitos espectadores e críticos taxaram de “confuso”, uma prova máxima de desatenção à história — e vemos Eddie ser atormentado e acalentado por suas memórias de infância, adolescência e juventude, uma viagem ao passado que se liga ao presente através da insatisfação e da tragédia que, nesse momento de sua vida, o rodeia.

Kazan consegue retirar do elenco as mais incríveis interpretações e não existe um único ator que esteja “vazio”, “caricato” ou “apático” na obra. Os personagens encarnam os tipos mais comuns de indivíduos em torno de alguém rico que começa a enlouquecer. Há o aproveitador que quer ficar conquistar a mulher do homem que será “afastado do convívio social”; há o advogado (que aqui é o aproveitador também), o médico, a família disfuncional… Deborah Kerr, como a esposa de Eddie, passa por momentos de bastante delicadeza e maravilhosos diálogos com Kirk Douglas; Faye Dunaway faz sua personagem crescer em cinismo e desfaçatez, nunca perdendo o comportamento sexy e o ar dominador, postura que prende não só Eddi, mas também o público.

Depois de Vidas Amargas, Movidos Pelo Ódio foi o filme em que Kazan mais ousou em termos técnicos. Mas, se no primeiro filme tínhamos apenas os ângulos diagonais e alguns movimentos pouco elogiáveis de câmera, neste, temos quase um experimento vanguardista. Sem apoio da direção de fotografia para fortalecer a diferença entre flashback e “presente” (as mudanças são apenas de iluminação básica mas não caracterizam o ambiente de forma dramática, fazendo todo o filme ter um padrão “uniforme” para uso de cores e luzes, algo que não coloco como negativo, até porque isso reflete perfeitamente a visão do protagonista para as coisas, mas é necessário citar tal escolha), o diretor precisou investir fortemente na montagem, o que resultou em duração de planos, transições e sequência geral de cenas bastante incomuns dentro da filmografia do cineasta, exigindo muita atenção do público para a passagem e permanência dos blocos cênicos distribuídos como “alucinação”, “passado” e “presente”.

O corte final ainda tem o demérito de ser desnecessariamente longo (e aqui não reclamo do tempo, a rigor, como duração, mas como necessidade: há um número absurdo de cenas — especialmente dos devaneios de Eddie — que poderiam ser retirados e não fariam falta à obra) e o diretor jogou para os últimos minutos toda a desesperança do personagem, terminando a fita com um vazio que não cabia ali.

Embora tropece do meio para o desfecho, Movidos Pelo Ódio tem um início cativante e uma estrutura narrativa que mostra Kazan querendo sair um pouco (bastante) de sua zona de conforto. O exercício não foi de todo vitorioso mas o filme vale muitíssimo a pena ser visto, afinal, ele traz de maneira curiosa, uma das especialidades do diretor que é explorar relações amorosas destrutivas; as complexas relações familiares (com direito ao uso de uma cena de Terra do Sonho Distante) e dramaturgia-modelo. Mesmo em se tratado de um filme aquém das obras que Kazan dirigiu na década de 1960, Movidos Pelo Ódio não deixa de ser um bom filme.

Movidos Pelo Ódio (The Arrangement) – EUA, 1969
Direção: Elia Kazan
Roteiro: Elia Kazan (baseado em seu livro)
Elenco: Kirk Douglas, Faye Dunaway, Deborah Kerr, Richard Boone, Hume Cronyn, Michael Higgins, Carol Eve Rossen, William Hansen, Harold Gould, Michael Murphy, John Randolph Jones
Duração: 125 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.