Crítica | MPH

Como dito em minha crítica de Starlight, Mark Millar, apesar de variar as temáticas entre histórias sobre crime, espionagem, ficção científica, sempre acaba retornando para as histórias de super-heróis. Em essência, mesmo suas histórias que fogem desse subgênero trazem inúmeras similaridades com os quadrinhos de heróis, vide as habilidades invejáveis dos personagens de Kingsman, por exemplo. Em MPH, o autor cai de cabeça no mundo dos super humanos, trazendo, é claro, uma abordagem diferenciada, com um protagonista que muito bem poderia ser qualquer um de nós, como ele mesmo fizera em Kick-Ass.

A história foca em Roscoe, que, durante sua curta estadia na prisão em Detroit, acaba adquirindo uma droga, denominada MPH (cujo nome remete à abreviação de miles per hour, claro), que dá a ele super-velocidade. Utilizando os efeitos dessas pílulas, ele não só foge da prisão, como recruta seu melhor amigo, namorada e irmão dela para roubarem o máximo de bancos que for possível antes que tais drogas acabem, para que, então, possam se aposentar como milionários. O que não esperavam é que o governo alistaria um antigo usuário do MPH a fim de impedir as ações dessa nova gangue de velocistas.

O que chama nossa atenção de imediato nessa obra de Mark Millar é o quanto o autor se preocupa em fazer de seus personagens centrais pessoas mais pé no chão. Roscoe e seus amigos têm de lidar com as mazelas do dia-a-dia e é justamente a injustiça cometida pela sociedade em relação a essa parcela da população mais pobre que motiva suas ações. Eles são criminosos, claro, mas não cometem os crimes por ganância ou maldade e sim para conseguirem ter uma vida digna, enquanto vingam-se daqueles que determinavam os seus futuros até então.

Como pessoas normais, os acompanhamos fazendo brincadeiras, usufruindo de seus poderes de maneira descontraída, sem um grande senso de responsabilidade os motivando. Ponto esse que é bem caracterizado pela arte de Duncan Fegredo, que traz um visual descuidado, às vezes até sujo para os personagens centrais, tornando-os pessoas comuns, sem traços muito característicos, permitindo que os enxerguemos como algum qualquer, que, por acaso, colocou as mãos em uma droga super-poderosa.

O problema dessa abordagem de Millar é que ela acaba entrando em conflito com as doses cavalares de suspensão de descrença que são necessárias para o melhor aproveitamento dessa obra. O autor claramente exagera nas muitas ramificações dos poderes garantidos por essas drogas, chegando ao absurdo de um deles ser capaz de voltar no tempo, ponto que provoca nada menos que boas risadas no espectador, que se tiver qualquer conhecimento acerca da teoria da relatividade saberá que isso é algo completamente fora da realidade.

Estamos falando, claro, de ficção, mas é necessário que a trama respeite as premissas estabelecidas dentro de seu próprio universo, algo que ela falha em fazer, simplesmente para trazer alguns momentos divertidos ao leitor. Dito isso, por muito tempo, MPH resume-se a um grande e repetitivo teste de habilidades por parte de cada integrante dessa gangue. Aspecto que, felizmente, vai sendo reduzido nas duas edições finais. Novamente, o roteirista peca na forma como constrói seu desfecho de maneira um tanto apressada, mas nada que prejudique muito nosso aproveitamento da obra, contanto que consigamos ligar ao máximo nossa suspensão de descrença.

MPH, portanto, representa uma boa intenção de seu autor, que tenta jogar um novo ar nas histórias de heróis velocistas. O problema está justamente em seus exageros, muitos dos quais foram herdados dos famosos super-heróis de outras editoras, com habilidades completamente fora da realidade, que acabam não dialogando tão bem com essa realidade mais pé no chão de Millar. Trata-se, porém, de uma história divertida, capaz de nos entreter durante suas cinco edições se a encararmos sem grandes expectativas.

MPH — EUA, 2014
Roteiro:
 Mark Millar
Arte: Duncan Fegredo
Cores: Peter Doherty, Mike Spicer
Letras: Peter Doherty
Editora original: Image Comics
Data de lançamento original: maio de 2014 a  fevereiro de 2015
Editora no Brasil: ainda não publicado
Páginas: 137

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.