Crítica | Mr. Robot – 1ª Temporada

estrelas 4

A figura do hacker no audiovisual mudou consideravelmente nos últimos anos, muito em parte pela importância mundial que esse tipo de profissão ganhou recentemente. De nerds obesos e barbudos nos filmes dos anos 80 e 90, o hacker transformou-se em uma persona muito mais complexa e interessante, assim como a própria internet e os meios de comunicação em rede, que podem levar desde um total isolamento social entre pessoas até a queda de governos, como a Primavera Árabe nos bem mostrou. São de todos esses elementos que Mr. Robot toma o ponto de partida para uma das mais originais e ambiciosas séries de 2015.

Criada por Sam Esmail, a série gira em torno de Elliot Alderson (Rami Malek), funcionário de uma das maiores empresas de segurança do país, a Allsafe. Com diversos problemas sociais e uma interação humana limitadíssima, Elliot secretamente age como um hacker, invadindo a vida de praticamente todos aqueles próximos a ele, e também adotando um certo vigilantismo para expor maridos infiéis, golpistas e outras situações do gênero. É quando seu trabalho ganha a atenção do misterioso Mr. Robot (Christian Slater), o perturbado líder da Fsociety, uma organização revolucionária que pretende destruir a grande potência econômica dos EUA, a Evil Corp, e instalar uma nova ordem.

Não é difícil encontrar semelhanças fortes com obras como Taxi Driver, Matrix e especialmente Clube da Luta – todos estes inspirações confirmadas por Esmail. O voice over de Elliot é ácido e poderoso, ainda mais considerando que a narração não é direcionada para ninguém em específico, como se este conversasse com um ser dentro de sua mente. E lá, somos bombardeados por diálogos que criticam pontos importantes como a fragilidade das redes sociais, os perigos de uma sociedade anônima, consumismo em massa e, pasmem, até mesmo os filmes de super-heróis. explico: Elliot confessa que adoraria ter uma vida normal e conformista, onde poderia tranquilamente tomar café no Starbucks todo dia e assistir os filmes idiotas da Marvel. É com muita sutileza que o protagonista traça um perfil apurado de considerável porção da sociedade contemporânea.

São reflexões fascinantes que ajudam a tornar Elliot um personagem hipnotizante, adjetivo que também confiro à excelente performance de Rami Malek. Seu nome pode não soar familiar, mas você certamente já o viu dando bicos em filmes como Larry Crowne: O Amor Está de Volta, Uma Noite no Museu e até mesmo no último capítulo da saga Crepúsculo. Malek vive Elliot com um olhar sempre vidrado, que sugere ao mesmo tempo medo e fascínio pelo mundo exterior, em um trabalho repleto de nuances e detalhes; sempre de capuz, como se lhe transmitisse segurança, ou o fato de armazenar os dados de cada pessoa hackeada em um CD com o título de um álbum musical. E mesmo sendo uma figura isolada, é sempre interessante observar as mudanças sutis em seu comportamento quando na presença de Angela Moss (Portia Doubleday), uma amiga de infância que certamente é um interesse amoroso oculto.

O personagem-título também rende um trabalho magnético de Christian Slater, capaz de fazer do Sr. Robot um homem inspirador e do qual acreditamos ser um visionário inteligente. Porém, quando o próprio se  rotula como “louco, e não do jeito fofo”, o espectador imediatamente teme pela segurança dos personagens ao seu redor, particularmente Elliot e a estranha relação paternal que é criada entre os dois. Mas é mesmo o impecável Martin Wallström que cria um dos antagonistas mais psicóticos dos últimos tempos com seu Tyrell Wellick. A ambição assumida em forma humana, Tyrell é metódico, arrogante e egocêntrico, tomando ações chocantes e bizarras para alcançar seu objetivo de tornar-se o Chefe de Segurança da Evil Corp (a cena em que este toma uma ação mortal da qual se arrepende, ao som de uma canção pop eletrônica é desde já antológica). Um vilão mais do que digno.

Esteticamente, Mr. Robot é diferente de qualquer coisa na televisão atual. Seus enquadramentos se destacam pela distribuição desproporcional de elementos e pela posição da câmera, que parece valorizar mais os cenários do que os personagens. Estão sempre conversando no canto da tela, com enquadramentos que cortam quase que totalmente seus corpos, criando assim um efeito surreal que parece diminuir os personagens dentro daquele universo dominado por corporações e ambientes de arquitetura clean. A trilha sonora de Mac Quayle é outro fator que transporta o espectador para o universo de Esmail: seus acordes eletrônicos são atmosféricos e perturbadores, remetendo constantemente ao trabalho da dupla Trent Reznor e Atticus Ross nas produções de David Fincher e até mesmo a Stanley Kubrick, na dupla referência ao trazer uma versão eletrônica muito parecida com as que Wendy Carlos fazia (especialmente em Laranja Mecânica) para a lindíssima “Waltz 2 from Jazz Suite” (pessoalmente, uma de minhas composições preferidas de todos os tempos), tema de De Olhos Bem Fechados.

O problema com a narrativa reside na grande reviravolta que descobrimos no penúltimo episódio. É um pouco previsível para o espectador mais atencioso, ainda mais considerando o grande leque de inspirações que o próprio Sam Esmail confirmou. Porém, é tudo executado com inteligência e habilidade, principalmente no grande season finale que vai além do que as obras citadas como referência apenas sugerem, e o terreno preparado para a já confirmada segunda temporada é empolgante. E fica o aviso: não percam a cena pós-créditos do último episódio, que além de conter um fabuloso plano sequência, oferece pistas sobre o tipo de história que veremos futuramente neste universo recém-instalado.

Mr. Robot surge como um sopro de ar fresco com sua proposta estética e a profundidade de seus excelentes personagens, encabeçados pelo fantástico Rami Malek. Mas talvez mais importante do que uma lição em estilo, seja encontrar uma série com algo tão impactante e relevante para dizer.

Mr. Robot – 1ª Temporada (Mr. Robot: Season 1, Eua – 2015)

Showrunner: Sam Esmail
Principais diretores: Sam Esmail, Niels Arden Oplev, Jim McKay, Nisha Ganatra, Christoph Schrewe, Deborah Crow, Tricia Brock
Elenco: Rami Malek, Christian Slater, Portia Doubleday, Carly Chaikin, Martin Wallström, Frankie Shaw, Bruce Altman, Ben Rappaport, BD Wong.
Duração: 49 min (cada episódio)

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.