Crítica | Mr. Robot – 2ª Temporada

estrelas 4

No ano passado, Mr. Robot tomou a televisão americana de surpresa. Trouxe uma estética original e uma narrativa cativante movida por um tipo de protagonista que raramente vimos no formato seriado (dá até pra dizer que é uma figurinha difícil até mesmo na Sétima Arte) e com uma linguagem e cunho social muito relevantes. Foi vencedora de prêmios, picos de audiência e uma segunda temporada era inevitável para o criador Sam Esmail, que agora abraçaria a escola de Cary Fukunaga em True Detective e dirigiria todos os episódios da nova temporada – além de roteirizá-los.

É uma nova forma de televisão de autor.

Os acompanhantes da primeira temporada bem sabem que linearidade e total compreensão do que acontece na história é uma regra a ser quebrada, e já iniciamos o segundo ano de Elliot (Rami Malek) em confusão. Algum tempo se passou após o hack bem sucedido no Banco da E-Corp, colocando a implacável agente do FBI Dom DiPierro (Grace Gummer) atrás do grupo Fsociety e de Tyrell Wellick (Martin Wallström), que desapareceu misteriosamente após um breve encontro com Elliot. Já o nosso jovem hacker segue lutando para manter sua mente livre da identidade controladora do Mr. Robot (Christian Slater), que cada vez mais ameaça tomar posse de seu corpo para sempre.

Ainda que tenha os mesmos realizadores e agora o total controle de Sam Esmail, esta nova temporada difere bastante da anterior em muitos sentidos. O principal, sem dúvida, é que mergulhamos na mente de Elliot de forma muito mais profunda, sendo uma narrativa psicológica que não se preocupa em gastar tempo com descobertas e confusões de seu protagonista – que, novamente, interage e engana o público frequentemente -, mesmo que isso signifique arcos inconclusivos (como aquele envolvendo o personagem de Craig Robinson) ou a aparente sensação de repetição, uma corrida em círculos.

A interação com Mr. Robot é o ponto alto dessa abordagem. Tendo sido revelado como uma criação extremamente hostil e independente de sua mente, vemos Elliot e Robot disputando o controle da situação, gerando dilemas tensos, como o fato de seu alter ego saber o que houve com Tyrell Wellick e lhe ocultar a informação; a ideia de que Elliot tenha sido controlado por sua outra persona por um longo período de tempo também é amedrontadora, e rende bons momentos dos dois, beneficiados pelas sempre excelentes performances de Rami Malek e Christian Slater.

A ideia de Elliot tentar inibir Robot através de remédios, por exemplo, acaba por lhe proporcionar alguns dias de pura felicidade, até o momento assombroso em que é raptado em plena luz do dia, levado até uma garagem deserta e ter cimento fresco derramado em sua goela, fazendo-o vomitar… Até termos a revelação de que fora um mero truque de Mr. Robot para provocar essa reação em Elliot e fazê-lo livrar-se dos remédios que ameaçam sua presença. Coisas assim tornam esse segundo ano praticamente imprevisível em relação ao que é real ou não.

Visualmente, esse núcleo é interessantíssimo. Esmail retorna com a estética desproporcional e os enquadramentos que diminuem os personagens e nos mergulham nesse mundo bizarro e onírico. É algo ainda mais intenso nas cenas de Elliot na primeira metade da série, e que revela-se algo genial quando temos uma grande reviravolta que explica o isolamento de Elliot dos demais núcleos e a confusão dos eventos que se segue ali. Se a revelação da identidade de Mr. Robot na primeira temporada já estava na cara, o que acontece aqui é realmente uma surpresa das mais agradáveis – e quando a reavaliamos, todas as pistas estavam ali, incluindo a trilha sonora. Ainda no quesito visual e no que diz respeito à mente de Elliot, não poderia deixar de comentar a brilhante abertura do sexto episódio da temporada, na qual a série magicante transforma-se em uma sitcom dos anos 1980 e traz Elliot, Robot e toda a família em uma viagem de carro num chroma key falso e uma câmera de vídeo típica da época – com direito a trilha de risadas e uma cameo de Alf, o Eteimoso!

Com Elliot tendo seu maior conflito dentro de sua mente, ficou para os personagens coadjuvantes da primeira ganharem um grandioso destaque aqui. A começar pela Angela de Portia Doubleday, que ganha um arco muito mais complexo e envolvente desta vez, com sua carreira na Evil Corp sendo ameaçada por um comportamento niilista e quase autodestrutivo que a acaba deixando em perigo e conectada ao fsociety e até ao misterioso Whiterose (BD Wong, que performance incrível). Doubleday acerta em cheio nessa transição de garota certinha para uma figura imponente e perigosa, rendendo a espetacular sequência na qual traz uma versão melancólica de “Everybody Wants to Rule the World” em um karaokê.

Já tendo uma presença nebulosa e pontual na primeira temporada, a belíssima Stephanie Corneliussen assume as rédeas do sumiço de Tyrell Wellick na pele de sua esposa Joanna. Uma femme fatale impactante, Corneliussen oferece sensualidade e força à Joanna, tornando todas as suas cenas um festival de mistério e até suspense. Quem assume as rédeas após a ausência de um personagem é Darlene (Carly Chaikin), que se vê forçada a assumir a liderança da Fsociety com o isolamento inicial de seu irmão Elliot, o que leva a um dos arcos mais tensos e poderosos da série – o que dizer da subtrama que envolve o rapto de uma advogada?

Mas talvez a melhor personagem do novo ano seja Dom DiPierro. Começa com o estereótipo da agente do FBI badass, aos moldes de Clarice Sterling de O Silêncio dos Inocentes, e Dom de fato é, como vemos em seu desempenho formidável durante um tiroteio em plano sequência ou seu comportamento incisivo e determinado durante inúmeros interrogatórios. Mas é o lado problemático e a solidão que tornam a personagem tão especial, seja pelo fato de a vermos se masturbar logo em suas primeiras cenas ou quando conversa com a “siri” de seu celular à procura de alguém que a escute. Uma grande personagem.

E não poderia deixar de mencionar Joey Bada$$, que interpreta um novo amigo de Elliot, Leon. Não é um personagem tão importante para a história, mas já entrou no meu hall de favoritos pelo simples fato de passar boa parte do tempo oferecendo insights filosóficos para episódios de Seinfeld. Sam Esmail sabe bem como me agradar…

A segunda temporada de Mr. Robot talvez seja melhor e mais interessante do que sua antecessora, pelo simples fato de manter o foco em seus personagens e nos embates psicológicos e ideológicos que travam ao longo da narrativa. As atuações permanecem sólidas e a televisão de autor de Sam Esmail funciona e promete deixar os fãs morrendo de expectativa para o terceiro ano. Mal posso esperar.

Mr. Robot – 2ª Temporada (Mr. Robot: Season 2, EUA – 13 de julho a 21 de setembro de 2016)

Showrunner: Sam Esmail
Direção: Sam Esmail
Elenco: Rami Malek, Christian Slater, Portia Doubleday, Carly Chaikin, Stephanie Corneliussen, Grace Gummer, Craig Robinson, Michael Cristofer, Azhar Khan, Sunita Mani, Martin Wallström, Joey Bada$$, BD Wong.
Duração: 59 min (cada episódio, aproximadamente)

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.