Crítica | Mr. Robot – 3X01: eps3.0_power-saver-mode.h

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SPOILERS! Leia a crítica para as temporadas e episódios anteriores aqui.

Se precisasse definir o que foi o meio da 2ª Temporada de Mr. Robot: Sociedade Hacker para esta premiere de 3ª Temporada, eu diria que o termo mais correto seria “despertar”. E aqui é importante pensar esse termo em diversos níveis. Nós tivemos praticamente uma temporada inteira para aprender a lidar com as inconstâncias mentais/comportamentais de Elliot (Rami Malek) e agora fica claro que não haverá meandros do roteiro para contextualizar esta ou aquela passagem de uma personalidade para outra. Neste eps3.0_power-saver-mode.h (os títulos dos episódios dessa série são maravilhosos!) vimos Elliot entrar e sair do comando de seu corpo de maneira fluída, até mesmo sem deixas simples da direção ou da montagem. Entendendo a particularidade da múltipla personalidade em questão, é hora de vermos Mr. Robot (Christian Slater) aparecer e sumir em cena como algo bastante comum.

Mas como eu dizia antes: despertar. Primeiro, o despertar (ou a constante tentativa de) ligado à mente de Elliot. Depois, o despertar político que alcança os personagens de maneira bem diferente, apresentando mudanças que ainda são um mistério mas que certamente acenam para um incremento das inúmeras relações sociais que Sam Esmail (aqui, seguindo como diretor e roteirista) vinha colocando principalmente desde a temporada passada. Nesta estreia, Angela (Portia Doubleday) é quem avança firme por este terreno, imbuída de um sentimento de esperança e aparentemente de alumbramento após a conversa com Whiterose (BD Wong, que cada minuto na tela nos faz entender um pouco mais o poder da dramaturgia) no finale da temporada passada.

O nível de avanço narrativo aqui é pontualíssimo. Aqui se aglutinam e fervem as fases do alter-ego de Elliot, as ações moralmente questionáveis de Angela, as ações agora um pouco suspeitas de Darlene (Carly Chaikin), a participação cada vez mais apaixonada e… estranha de Tyrell (Martin Wallström) em todo o plano e, por fim, a apresentação de um personagem que só precisou de dois minutos em cena para nos mostrar que vai entrar para a lista de grandes destaques da temporada, o curiosíssimo Irving, interpretado por Bobby Cannavale, uma espécie de “consertador de problemas humanos” do Dark Army, organização que tem níveis de interesses completamente diferentes para seus membros. Pobre Cisco… O que nos deixa bastante apreensivos — de maneira positiva — é pensarmos o quanto Angela sabe dessa jornada toda. E o que ela quer dizer por “desfazer tudo de mal que a E-Corp fez“?

O ponto central do capítulo foi estabelecer as falhas e talvez acertos da Fase 2 do projeto “Nove de Maio” e, a partir daí, nos mostrar como um sistema capitalista pode se recuperar rapidamente, utilizando as armas que lançaram contra ele e, a partir daí, se fortalecer, principalmente lucrando com isso. Parece um certo episódio de Black Mirror, mas tudo vai muito além. O solilóquio de Elliot começa do reconhecimento de que uma manifestação X, feita para empoderar os que estavam à margem da sociedade e destruir o seu maior pilar econômico-midiático, acabou se voltando contra os próprios “revolucionários”, diminuindo o seu escopo de poder, espalhando o medo e abrindo portas para diversos tipos de submissão, marcados pela ascensão de grupos e pessoas que, via um governo viciado em ter mais poder, faz acordos temporários para certificar-se de que certas coisas e pessoas permanecerão para sempre nos becos e sem acesso a muita coisa…

Este é o momento que o roteiro utiliza para criticar inúmeros setores da sociedade americana, marcando como uma das consequências da “revolução fracassada” a subida de Donald Trump ao poder, mais uma proximidade de atualidades e geopolítica contemporânea que faz a série realmente pertencer ao nosso mundo. Ainda é válido destacar que a soberba direção de fotografia, que se aproveita do apagão para tornar as cenas noturnas um verdadeiro arsenal emocional, fazendo de cada cômodo, galpão, rua, restaurante e beco percorrido um lugar com uma atmosfera e composição de luz diferente, dando a miríade de sensações que o roteiro tão brilhantemente nos apresenta. Agora é esperar para ver como uma quase-revolução (ou todo um projeto de grandes mudanças para a maioria) , depois de simplesmente se boicotar e ser utilizada como instrumento pelo próprio alvo, pode olhar para trás e desfazer o horror que causou sem querer. Melhor proposta de retcon dramático dos últimos anos em uma série de grande porte. Salve, salve, Sam Esmail!

Mr. Robot – 3X01: eps3.0_power-saver-mode.h (EUA, 11 de outubro de 2017)
Direção: Sam Esmail
Roteiro: Sam Esmail
Elenco: Rami Malek, Carly Chaikin, Portia Doubleday, Martin Wallström, BD Wong, Bobby Cannavale, Christian Slater, Josh Mostel
Duração: 49 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.