Crítica | Mr. Robot – 3X02: eps3.1_undo.gz

PLANO CRITCO MR

SPOILERS! Leia a crítica para as temporadas e episódios anteriores aqui.

O ponto principal de Sam Esmail nesta temporada de Mr. Robot: Sociedade Hacker é apresentar mudanças em níveis diferentes. Primeiro, sacudindo as estruturas do show inteiro, abrindo as possibilidades para a presença de alterações em linha do tempo + realidades alternativas, algo sugerido e amplamente discutido após a estreia de eps3.0_power-saver-mode.h. Nesta camada, a ideia pode vir com a existência (ou criação ou aproveitamento de uma já existente, em outra realidade) tecnologia de viagem no tempo. Mas também poderá se estruturar em modo diferente de influência, algo mais dramatúrgico, ligado aos pontos reais que abarcam a série, como tecnologia, contatos oficiais, economia global e adendos de psicologia e comportamentalismo. É preciso entender que já tivemos grandes mind blows na série levados a cabo “apenas” com eficiência narrativa. Outros no mesmo estilo poerão vir.

Outra mudança claramente percebida é a condução de personagens. Passamos da dúvida de caráter e intenções na 1ª Temporada para o julgamento, a perdição, redenção e procura por novos caminhos na 2ª Temporada, o que abre caminho agora para o aprofundamento de um novo momento da vida dos protagonistas. E nós podemos ver isso claramente no cerne de eps3.1_undo.gz, com Elliot vivendo uma vida de funcionário na empresa que ele tanto odiou e que fez tudo para derrubar, sem saber que isso ia piorar o mundo que ele julgava estar ajudando. Não é um erro de principiante, é um erro de julgamento geopolítico. A graça disso tudo é que nesta temporada passamos a olhar os personagens a partir de um prisma diferente. Elliot lutando ao lado do sistema, tentando melhorá-lo por dentro (quem criticou Angela está arrependido?); Darlene “fazendo o que é necessário” para ajudar Dom e o FBI; Krista enfim atingindo resultados com Elliot e Mr. Robot pisando em ovos, misturando sua natural agressividade com um rancor por Elliot e um crescente desespero por não estar mais no controle.

A outra mudança está na intersecção entre as diversas realidades e os jogos de poder ou de “luta contra alguma coisa” que estão em andamento. Cada personagem da série parece engajado em alcançar alguma coisa importante (o grande vazio existencial de Elliot vem justamente por não se sentir parte desse projeto de grandeza em seu atual status) e com as peças do tabuleiro tomando diferentes atalhos, uma série de conflitos já se armam para acontecer. Nessa dança dramática, os muitos papeis sociais se confundem e Esmail mais uma vez não se poupou o esforço para tornar isso um problema da série e ao mesmo tempo, nosso. Vejam, por exemplo, o monólogo de Elliot quando ele começa a trabalha na E-Corp, chegando à fantástica cena dos emojis no trem. Ali estão cruzados o mundo do protagonista, que se vê atuando em um papel de funcionário — uma representação da “coisa”, assim como aquela figuração das emoções; o mundo do espectador, que vê a realidade de Elliot e os emojis como ícones de identificação; e o mundo da série, como gerador e representador das duas coisas, unindo diferentes realidades (tese e antítese) para criar uma terceira (síntese) onde tudo parece maior, mais problemático e progressivamente mais difícil do que realmente é.

Algumas dúvidas sobre quem estaria representando que papel (hello, Darlene!) já foram respondidas, assim como uma linha que tendia a se esgotar chegou ao fim (é bom mesmo que existam realidades alternativas nessa série, porque Joanna não pode nos deixar assim…) em uma rápida e eficiente virada de jogo. Sugestões de um drama ligado à ira de Tyrell assomam no horizonte e uma igual linha de rixas aparece entre Whiterose e Phillip Price, cuja espinhosa relação já tinha se revelado no capítulo anterior. A citação ao filme Esqueceram de Mim e as pistas deixadas pelas canções New Sensation (em um momento de edição precisa, com Elliot montando o seu novo plano de hack), One Week (no telefone do agente do FBI) e Listen to Your Heart (em uma cena de imenso impacto visual e repleta de simbolismos psicanalíticos, com Joanna morta ao lado do bebê chorando, todo respingado de sangue) somam-se ao detalhes de conteúdo que transbordam a cada novo episódio.

A dúvida sobre quem realmente está no controle, o aumento das piadas de humor negro, as cenas gráficas (a autópsia de Joanna que o diga…) e um novo páreo para grandes jornadas de poder já se podem ver em cena ou se aproximando. À medida que diferentes planos se estruturam, grandes obstáculos também se colocam no caminho. Em breve saberemos quem representará o “inferno” do outro nos conflitos da temporada. Até lá, ouça o seu coração.

Mr. Robot – 3X02: eps3.1_undo.gz  (EUA, 18 de outubro de 2017)
Direção: Sam Esmail
Roteiro: Sam Esmail
Elenco: Rami Malek, Carly Chaikin, Portia Doubleday, Michael Cristofer, Stephanie Corneliussen, Grace Gummer, BD Wong, Christian Slater, Gloria Reuben, Ramy Youssef, Omar Metwally, Erik Jensen, Jeremy Holm, Chris Conroy
Duração: 49 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.