Crítica | Mr. Robot – 3X03: eps3.2_legacy.so

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SPOILERS! Leia a crítica para as temporadas e episódios anteriores aqui.

Quem já teve a sensação de, ao ler um livro (vou mudar de mídia apenas para dar voz ao impacto), ter a constante sensação de que no final de um capítulo, por mais que as peças apresentadas pareçam se encaixar, ainda falta alguma coisa para solidificá-las? E quem, nessa mesma situação, já chegou a um ponto e encontrou, com grande surpresa e alegria a “cola” necessária para tornar tudo mais firme? Pois bem, este eps3.2_legacy.so é exatamente isso. Uma cola dramatúrgica que gruda uma porção de elementos coadjuvantes, mas não menos importantes, que vimos acontecer sob outro ponto de vista nas temporadas 1 e 2.

Quem brilha neste episódio é Tyrell Wellick e Sam Esmail mais uma vez dá a oportunidade para um de seus atores mostrar trabalho. Martin Wallström passa por uma verdadeira transformação após o contato com Irving (Bobby Cannavale é absolutamente cativante!) na noite de Nove de Maio. Enfim entendemos por quê Mr. Robot não queria que Elliot soubesse o que aconteceu naquele dia. O risco em torno da dissociação de personalidade e a amaça que Elliot representa para a sua outra parte ganharia ainda mais munição se a verdade viesse à tona. E agora nós sabemos não apenas uma porção de segredos interessantes (alguém já havia suspeitado do chefe de Dom?) mas também uma série de indicações polícias guiadas por Whiterose (BD Wong segue roubando cada cena em que aparece).

A aparição de Donald Trump e a colocação dele na série como um boneco situacional de Whiterose já havia sido indicado em eps3.0_power-saver-mode.h, seguindo mais ou menos a trilha de manipulação das peças no governo Obama que os roteiros sugeriram na temporada anterior. Essa nuance política é boa para a série porque mantém o senso de grandeza. Tenho certeza que alguns espectadores terão dificuldade em aceitar Whiterose apoiando Trump apenas para poder usá-lo, tomando o argumento de imprevisibilidade do indivíduo. E sim, esta opinião é bastante sólida, uma vez que Trump é o tipo de ignorante orgulhoso infantil e imprevisível que pode falhar até como laranja político. Mas acho que é justamente por essas características que se tornou mais interessante vê-lo na série como puppet. Ele é como um programa de computador, também sujeito a erros de programação.

O mais impressionante aqui é como Esmail conseguiu aglutinar tanta informação recente (as consequências vistas no início desta 3ª Temporada) com eventos dos outros anos do show, ao mesmo tempo que abre espaço para novas descobertas e possibilidades de interpretar esse ou aquele personagem. Mais uma pulga é colocada atrás da nossa orelha quando Tyrell  diz (novamente) que ama Elliot. Alguma coisa muito importante tem aí no meio e eu não quero parecer apressado, mas se realmente estamos falando de manipulação do tempo… ooooh, isso de fato pode gerar gloriosos frutos.

Qualquer seriador que se preze sabe muito bem que um episódio inteiramente focado no passado, exibido em um momento avançado de uma série, pode ser um problema narrativo de peso. Todavia, se bem orquestrado, o recurso dá ao público uma chave especial da série, como é o caso deste episódio. Entre o isolamento, a luta para mudar o mundo e a exploração emocional ou de laços interpessoais de cada personagem, o capítulo nos traz duas boas pistas musicais (If You Could Read My Mind, na sequência de montagem com Tyrell rachando as toras de madeira e I Ain’t Goin’ Out Like That em sua tentativa de fuga) além de uma edição precisa, especialmente no início, e muita sugestão de planos importantes em andamento. É assim que se expõe um olhar relevante para o passado. Dá até orgulho dizer que a gente assiste a esta série.

Mr. Robot – 3X03: eps3.2_legacy.so (EUA, 25 de outubro de 2017)
Direção: Sam Esmail
Roteiro: Sam Esmail
Elenco: Rami Malek, Carly Chaikin, Portia Doubleday, Martin Wallström, BD Wong, Bobby Cannavale, Christian Slater, Michael Drayer, Omar Metwally, Erik Jensen, Grant Chang, Joey Bada$$, Wallace Shawn, Lyman Chen
Duração: 50 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.