Crítica | Mr. Robot – 3X05: eps3.4_runtime-err0r.r00

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SPOILERS! Leia a crítica para as temporadas e episódios anteriores aqui.

Em séries de TV, a experimentação formal se tornou uma marca mais ou menos frequente dos grandes shows (e showrunners) ao longo dos anos 2000, uma oposição aos eventuais momentos desse tipo de direção em décadas anteriores. Desse grupo de icônicos episódios, dois são os que mais chamam a atenção do público e os que mais exigem do diretor, do fotógrafo, dos atores e do encadeamento do roteiro: aqueles confinados em um único espaço e aqueles com takes muito longos ou de fato com um único take. É importante deixar claro que eps3.4_runtime-err0r.r00 não é um episódio de take único. Ele possui diversos planos-sequências montados para nos dar a impressão de que são uma coisa só. Apenas em um momento do episódio é possível claramente perceber o ponto de passagem, que é quando a câmera avança para as costas de um transeunte em frente ao prédio da E-Corp e temos um black-out.

Em nenhum momento, porém, o uso de uma técnica exímia de montagem (assinada por Rosanne Tan, de StalkerThe Following e Time After Time) é suplantado pelo fato de não termos o mítico “plano único”. Continua sendo um excelente esforço técnico e com um grandioso resultado final. Antes de tudo, porém, é preciso pensar na função desse formato em relação ao tema do episódio, pois a escolha do molde de uma obra deve fazer sentido para o que está sendo contado (caprichos vazios não são bem-vindos em audiovisual) e isso vale tanto para a TV quanto para o cinema.

Do plano-sequência de seis minutos em um famoso episódio de True Detective à famosas locações únicas em séries, como no clássico episódio do restaurante chinês em Seinfeld; e até mesmo em filmes montados para se parecer com um único plano (Festim DiabólicoBirdman) ou longas que realmente possuem esse caráter único como Arca Russa (embora alguns defendam que o filme possui um corte, quando a câmera foca na luva branca de um dos funcionários do Hermitage) e inquestionavelmente O Rei Dave, sempre é necessário atentar para o motivo pelo qual o diretor escolheu filmar aquela história daquele jeito. Não adianta absolutamente nada usar grandes empreitadas fotográficas, coleção de planos-sequências; preto e branco (após a popularização da cor, obviamente), grande saturação ou qualquer outro recurso técnico/estético sem um motivo narrativo que sustente esse uso. Vejamos, portanto, o caso do eps3.4_runtime-err0r.r00.

Elliot está perdido. O excelente Rami Malek está cada vez mais empenhado em transmitir os rompantes emocionais e de percepção do mundo de seu personagem, logrando um trabalho aplaudível. Em um ciclo de luta contra sua personalidade de moral questionável, o Sr. Robô, Elliot procura se manter acordado, mas os eventos do episódio passado nos trouxeram para o estágio de confusão máxima aqui. Sem memória do que aconteceu e impedido de continuar seu plano, a cyber-luta que ele encabeça sofre a primeira grande ameaça. Levando isso em consideração, também temos um prazo curto para que algumas coisas sejam executadas. O Dark Army tem organizado levantes públicos. Darlene está no caminho de falar a verdade e sabe que terá um conflito sentimental e moral com o irmão. Reparem na quantidade de coisas importantes que estão acontecendo (e ainda há quem diga que a série está “enchendo linguiça”) e foquem no tema do episódio. No momento atual em que Elliot “acorda” de um de seus distanciamentos e percebe o mundo girar mais rápido que o normal, estando ele de mãos atadas. Desespero, violência, urgência. Ações no piloto automático, fuga, suspense. O perfeito episódio para ser feito em planos-sequências, já que a função do recurso é aproximar ao máximo a ação do realismo em uso de espaço e tempo, onde os personagens não conseguem escapar de grandes desafios e estão presos a situações definidoras, sendo obrigados a enfrentá-las diretamente.

Estabelecido a organicidade e bom uso de um dificílimo recurso narrativo, olhemos para o que de fato acontece nesse episódio 5. Entramos praticamente “nos finalmentes” do arco Fase 2 e a impressão que espectadores desavisados podem ter é de um afastamento maior da série em relação à sua história central. Alguns leitores aqui do Plano Crítico, inclusive, comentaram no Twitter sobre a gratuidade desse “plano único” (já provei acima que tal argumento não se sustenta) e é interessante perceber a forma como uma parte do público recebe histórias que se aproveitam do drama para adicionar elementos aos seus personagens e dar o máximo de dicas possíveis sobre o enredo a longo prazo. Claro que isso nem sempre funciona (todo seriador já viu uma porção de fillers na vida), mas aqui não há este problema. O tempo do episódio é aproveitado sempre nos dois esperados caminhos — o tema a curto prazo (relacionado ao título) e o tema a longo prazo (relacionado ao plano da temporada). Neste eps3.4_runtime-err0r.r00 vemos Elliot quase em crise existencial e em clara angústia para descobrir seus últimos passos. E terminamos com duas possibilidades em aberto, uma ligada a Darlene e outra a Angela.

Portia Doubleday está sensacional. Eu compreendo que alguns espectadores não gostem da personagem, mas isso não tem nada a ver com admitir um bom trabalho dramatúrgico e é exatamente isso que a atriz nos entrega aqui, uma das poucas vezes que sua participação é colocada em verdadeiro destaque na série, não apenas como ponte para alguma outra coisa. A concentração e latente desespero da personagem mais a missão que ela precisa cumprir na ausência de Elliot é guiada com primazia por Sam Esmail, que não só dirige um dos episódios mais ousados de Mr. Robot (e é válido também  adicionar o perfeito uso da trilha sonora, a aplaudível fotografia azulada e a incursão da violência e de elementos políticos do próprio Universo da série, como a anexação da República Democrática do Congo pela China) como também um dos que mais condensam elementos aparentemente dispersos na temporada. Existe apenas um momento de movimentação pouco elegante da câmera, no início do capítulo (o que é compreensível por ser uma cena dentro do elevador), mas isso logo se resolve e o que temos a seguir é uma verdadeira aula de controle cênico e de como criar tensão e ansiedade a toda prova. O mais incrível runtime error que você respeita.

Mr. Robot – 3X05: eps3.4_runtime-err0r.r00 (EUA, 8 de novembro de 2017)
Direção: Sam Esmail
Roteiro: Kor Adana
Elenco: Rami Malek, Carly Chaikin, Portia Doubleday, Bobby Cannavale, Christian Slater, Erik Jensen, Ramy Youssef, Rick Barone, Shannon Breckenridge, Scott Burik, Ray Crisara
Duração: 45 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.