Crítica | Mr Selfridge – 1ª Temporada

estrelas 4

Obs: Leiam as críticas das demais temporadas, aqui.

Londres, 1908. Uma época não tão longínqua, mas em que as mulheres ainda eram vistas com um enorme olhar preconceituoso (não que isso não aconteça hoje em dia, claro). Ficavam basicamente em casa cuidando da família, não podiam se maquiar livremente, não podiam usar roupas coloridas e muito menos curtas, não podiam nem mesmo votar. Mas, na Inglaterra, o movimento das sufragettes estava a todo o vapor, com o voto representando a emancipação das mulheres, sua saída debaixo da sombra do homem.

Esse importante momento histórico, curiosamente, é capturado sob o ponto de vista de um homem, um visionário para a época, um ianque na terra dos colonizadores: Harry Gordon Selfridge. Viajando para a Inglaterra com sua família inteira, Selfridge tinha apenas um objetivo, que era inaugurar a até hoje famosa loja de departamentos Selfridges, um marco da Oxford Street em Londres. Não foi a primeira loja de departamentos, mas a visão de futuro de Mr. Selfridge ajudou a pavimentar o caminho para o “mundo moderno”, para o mal ou para o bem.

Baseada em biografia escrita por Lindy Woodhead (Shopping, Seduction & Mr. Selfridge) a série da ITV Studios e da Masterpiece foca nesse fascinante homem, mas apenas como veículo para pontuar as mudanças que já estavam acontecendo e que se intensificariam ao longo dos anos. Pode parecer estranho uma série com proposta de valorização das mulheres se basear em um homem e olhar para o consumismo como símbolo maior de emancipação, mas acontece que isso faz todo sentido.

Afinal de contas, estamos falando em um mundo dominado pelos homens, em que as mulheres não eram mais do que “acessórios”, “ornamentos” para serem exibidos no momento escolhido pelos maridos e pais. O consumismo, na série, representa a quebra de paradigmas. Maquiagem e perfumes eram vendidos de forma discreta, atrás do balcão. Selfridge vem para mudar isso, para mostrar que fazer-se bela (ou belo) por meio do uso de instrumentos que os mais “antigos” da série só admitem em prostitutas ou atrizes (basicamente a mesma coisa, nessas cabecinhas toscas) é algo perfeitamente natural. Saem o preto e o branco, para dar lugar às cores, às escolhas, à variedade. Selfridge entende isso e quer isso tanto como força motriz de seu negócio como por compreender que esse é o futuro.

Ainda que a série enalteça até exageradamente a figura de Mr. Selfridge, tenho para mim que muito da inevitável admiração que sentimos pelo homem é em virtude do trabalho de Jeremy Piven. Apesar dele nunca ter sido um grande ator, ele traz uma energia e uma simpatia ao papel que torna o personagem alguém que o espectador simplesmente não consegue resistir. Quem conhece o trabalho de Piven na série Entourage reconhecerá diversos traços idênticos que o ator trouxe do agente Ari Gold para Mr. Selfridge. Mesmo a canalhice do personagem, com sua sucessão de amantes que mal esconde da esposa, consegue ser perdoada pelo espectador, mas não pela série, que muito evidentemente condena seus atos.

Mas Piven não está sozinho. Há que se destacar o trabalho de France O’Connor no papel de Rose Selfridge, a recatada esposa de Harry que, aos poucos, vai mostrando seus sentimentos sobre as indiscrições do marido e vai crescendo como personagem, tomando, a cada episódio, mais tempo de tela. O mesmo se pode dizer de Agnes Towler (a bela Aisling Loftus), funcionária contratada por Mr. Selfridge e que demonstra enorme capacidade de crescimento profissional. Passamos, na medida da progressão da temporada, a acompanhá-la tanto profissionalmente quanto em momentos privados, cuidando de seu irmão mais novo e tentando se desvencilhar de um pai abusivo. Amanda Abbington vive Josie Mardle, uma chefe de departamento que tem um caso de muitos anos com Roger Grove (Tom Goodman-Hill), o inseguro segundo-em-comando da loja e nós a vemos desabrochar de alguém servil ao amante para uma mulher forte, com posição.

Falando em forte, como esquecer de Lady Mae Loxley (Katherine Kelly), ex-chorus girl que, depois de se casar com um aristocrata que prefere morar no campo, vive em Londres sozinha empregando sua influência para fazer o que quer, incluindo a defesa do movimento de emancipação feminina. Ela é essencial não só para os negócios de Mr. Selfridge como, também, para a própria reafirmação do sexo feminino na série, com uma posição já moderna logo de início.

Em outras palavras, Harry Selfridge até pode ser o centro da narrativa, mas o que realmente se sobressai é a constelação feminina ao seu redor e o olhar de “um futuro melhor” que a série tem. Isso sem contar, claro, com a visita de personagens históricos importantes como o aviador Louis Blériot, a bailarina Anna Pavlova e o escritor Sir Arthur Conan Doyle, que Mr. Selfridge tem a visão de usar como forças atrativas para novos consumidores do que sua loja oferece.

Mas é claro que não poderia encerrar essa crítica sem falar na reconstrução de época, elemento que é fundamental para a credibilidade da série. E, nesse ponto, vê-se o cuidado do criador Andrew Davies com o material base e com o design de produção, incluindo figurino. Tudo está em seu lugar, desde o onipresente saguão principal da loja (reconstruído em estúdio), passando pelas ruas tomadas de carruagens e carros da época, além de pequenos mercados em becos, até as casas da família Selfridge e de Lady Mae, do lado dos abastados e de Agnes Towler e de Roger Grove do lado menos favorecido (mas nem tanto, no caso de Grove!). A produção não se furta em mostrar cada detalhe, incluindo os desagradáveis, como os dejetos dos cavalos e a sujeira em algumas regiões, tudo para permitir a imersão do espectador em uma época não tão distante, mas muito diferente da que vivemos hoje (se é melhor ou não, fica para seu julgamento pessoal).

Mr Selfridge é uma série que, em sua primeira temporada, consegue cativar o público tratando de um assunto tão fascinante como a emancipação feminina dentro de um contexto histórico muito abrangente e interessante, com personagens marcantes. Altamente recomendada!

Mr Selfridge – 1ª Temporada (Idem, Reino Unido – 2013)
Direção: Jon Jones (eps. 1 e 2), John Strickland (eps. 3 e 4), Anthony Byrne (eps. 5, 6 e 7), Michael Keillor (eps. 8, 9 e 10)
Roteiro: Andrew Davies (eps. 1, 2 e 10), Kate Brooke (eps. 3, 5, 6 e 8), Kate O’Riordan (eps. 4, 7 e 9)
Elenco: Jeremy Piven, Frances O’Connor, Aisling Loftus, Zoe Tapper, Tom Goodman-Hill, Amanda Abbington, Kika Markham, Katherine Kelly, Ron Cook, Grégory Fitoussi, Trystan Gravelle, Samuel West, Amy Beth Hayes, Lauren Crace, Deborah Cornelius
Duração: 490 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.