Crítica | Mr Selfridge – 2ª Temporada

estrelas 4

Obs: Leiam as críticas das demais temporadas, aqui.

Sem perder a fleuma, a segunda temporada de Mr Selfridge, série britânica produzida pela ITV Studios e Masterpiece, dá um pulo temporal desde o final da 1ª temporada, para o quinto aniversário da inauguração de uma das mais famosas lojas de departamentos do mundo, a Sefridge & Co., hoje mais conhecida como Selfridges. De 1909, chegamos ao fatídico ano de 1914, às vésperas da 1ª Guerra Mundial, que estouraria em julho desse ano.

No momento que a temporada começa, Harry Selfridge (Jeremy Piven) tem vivido longe sua família, que está em Nova York depois que sua esposa, Rose (Frances O’Connor) e deixou depois dos adultérios em série do marido. Harry continua igual: mulherengo, mas empreendedor; duro, mas preocupado com seus funcionários. Sua loja está estabelecida em Oxford Street, no coração de Londres e é literalmente o ponto focal da moda e do consumismo da época. Seus leais funcionários continuam cercando-0: a jovem Agnes Towler (Agnes Towler) volta depois de um tempo estudando em Paris, às custas de Selfridge, para ser a vitrinista da loja agora que Henri Leclair (Grégory Fitoussi) se foi; o gentil e antiquado Arthur Crabb (Ron Cook) permanece como seu braço direito; o sisudo e falso-moralista Roger Grove (Tom Goodman-Hill) tem três filhos agora e não consegue mais se organizar no cargo de gerente dos funcionários, a recatada Josie Mardle (Amanda Abbington) continua triste e solteira, gerenciando o departamento de acessórios; George Towler (Calum Callaghan), irmão de Agnes, agora comanda o departamento de carga e descarga e Victor Colleano (Trystan Gravelle) é, agora, o gerente do restaurante da loja.

A engrenagem da narrativa começa a andar logo de imediato, com a volta temporária de Rose para o lado de seu marido em razão das comemorações do aniversário da loja e com a descoberta de que Henri Leclair, que se tornara amigo de Harry Selfridge, mas que partira para os EUA brigado com ele, voltou e está em péssimas condições financeiras. Por cima desses acontecimentos, há a sombra da guerra no horizonte, que estoura logo no comecinho da temporada, trazendo do campo o interesseiro e falido Lorde Loxley (Aidan McArdle) para se aproveitar como um urubu da carniça deixada pelo conflito em seu começo e, no processo, atazanar a vida de Lady May Loxley (Katherine Kelly) que vivia uma vida de princesa sem ter que dar satisfações a “seu príncipe”.

Com essas diversas peças sendo movidas simultaneamente, o foco da 1ª temporada na emancipação das mulheres usando Harry Selfridge como veículo perde um pouco seu vigor. As mulheres fortes e decididas ainda estão lá – Agnes, Rose e Lady Mae, principalmente, que ainda ganham o reforço de Delphine Day, emancipada romancista e dona de casa noturna que Rose conhece a caminho de Londres – mas a grande questão discutida nessa temporada é mesmo os efeitos da guerra no dia-a-dia de Londres, notadamente no comércio e nas relações governamentais. As tramas pessoais – o triângulo formado por Agnes, Victor e Henri; a relação entre Henri e Harry e tudo mais – funcionam como bem acabadas peças de um quebra-cabeças que, quando montado, exibe o horror da guerra sob outro ponto de vista, sem ter que efetivamente fazer o espectador ir ao fronte (toda a ação permanece em Londres).

O resultado disso é que os assuntos não se repetem, ao mesmo tempo que não são esquecidos. E isso mantém a série fresca e divertida, com o mesmo verniz de quase santidade que Harry Selfridge já ganhara na temporada inaugural, mas que faz parte do processo, já que ele, apesar do nome da série, não é, necessariamente, o elemento mais importante. E isso mesmo considerando a atuação magnética de Jeremy Piven (que fez o ótimo Ari Gold em Entourage), que gera ampla empatia do espectador com o personagem e ótima química com todos os demais, cada um muito bem encaixado em seus respectivos papeis.

O cuidado da produção com figurinos, cenários e fotografia facilmente transporta o espectador para a Londres do começo do século XX, mesmo que vejamos em Selfridge um modernismo talvez um tanto quanto exagerado. A maioria das tomadas é feita em interiores e, delas, uma boa percentagem é na loja em si, mas não há uma repetição enjoativa graças ao esforço do roteiro em constantemente inserir na narrativa alterações orgânicas em uma loja que literalmente se reinventa todos os dias. E a próprio foco em Agnes Towler, a jovem que veio de baixo e ascendeu de maneira meteórica na prestigiosa instituição, ajuda nesse aspecto, pois ela é a vitrinista sem experiência que tem que lidar com o preconceito e inveja de Mr. Thackeray (Cal MacAninch), personagem novo responsável pela moda feminina e que faz de tudo para derrubar a moça (diga-se de passagem, esse é um dos poucos papeis irritantemente rasos da temporada).

A segunda temporada de Mr Selfridge é diversão garantida, com pitadas de história e muito apelo visual tanto em termos de atuação quanto de design de produção. Definitivamente merece ser conferida por amantes de séries de época.

Mr Selfridge – 2ª Temporada (Idem, Reino Unido – 2014)
Direção: Anthony Byrne (eps. 1 e 2), Rob Evans (eps. 3, 4, 8, 9 e 10),  Lawrence Till (eps. 5, 6 e 7)
Roteiro: Andrew Davies (ep. 1), Kate Brooke (eps. 1, 3, 6 e 8), Kate O’Riordan (eps. 2, 5 e 10), Dan Sefton (eps. 4, 7 e 9) (baseado em livro de Lindy Woodhead)
Elenco: Jeremy Piven, Frances O’Connor, Aisling Loftus, Tom Goodman-Hill, Amanda Abbington, Kika Markham, Katherine Kelly, Ron Cook, Grégory Fitoussi, Trystan Gravelle, Samuel West, Amy Beth Hayes, Lauren Crace, Deborah Cornelius, Calum Callaghan, Greg Austin, Aidan McArdle, Cal MacAninch
Duração: 490 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.