Crítica | Ms. Marvel: Volume 1 – Nada Normal (2014-15)

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estrelas 4

Olha, há muito, mas MUITO tempo mesmo que não lia uma história de origem de super-herói mainstream novo tão bacana e tão agradável. A Marvel acertou em cheio com a nova Ms. Marvel, uma adolescente americana e muçulmana, residente em Nova Jersey, nos Estados Unidos, que ganha seus poderes depois que a Bomba Terrígena é detonada por Raio Negro ao final da saga Infinito.

ms_marvel_vol1_nada_normal_capa_plano_criticoNão entendeu nada sobre Bomba Terrígena, Raio Negro ou Infinito? Fique tranquilo, pois isso pouco importa, na verdade. Basta saber que Kamala Khan, a menina que se torna Ms. Marvel, tem genes inumanos e a bomba os ativou, revelando que ela tem poderes especiais que a permite alterar sua forma completamente, desde alterações cosméticas de aparência (de uma jovem com pele morena e cabelos escuros, ela pode mudar para uma mulher adulta loira, de pele clara e olhos azuis, por exemplo), até mudanças mais radicais como ficar gigante, crescer braços e pernas, além de ter uma espécie de “fator de cura”. Em poucas palavras, ela é uma mistura do Sr. Fantástico com Mística e Wolverine em um belo pacote problemático adolescente que lembra o Peter Parker de outrora.

Mas, voltando à história, Ms. Marvel foi “vendida” como a primeira super-heroína muçulmana da Marvel e isso rendeu grandes discussões e muito elogios antes mesmo de o primeiro número ser lançado lá fora. Claro, a diversidade e inclusão são elementos importantes, mas de nada serviriam se fossem só isso mesmo: ferramentas vazias de marketing. Felizmente, porém, o trabalho de G. Willow Wilson no roteiro gerou um arco inicial genuinamente muito bom, que merece elogios não somente por retratar uma heroína de ascendência paquistanesa, mas por contar uma história competente e bem acima da média, algo cada vez mais raro.

O arco de origem, composto pelos cinco primeiros números de Ms. Marvel não tem ritmo alucinante, o que logo de início já é um grande alívio. Ao longo de grande parte do primeiro número, somos apresentados à jovem e seus amigos e aprendemos sobre seus pais e seu irmão, com quem vive, além de seus melhores amigos, a também muçulmana Nakia, que faz questão de usar o lenço cobrindo os cabelos e Bruno, atendente de uma loja de conveniência. Também descobrimos que, como todo adolescente, Kamala quer descobrir seu lugar, seu espaço e vive reclamando das restrições impostas por sua religião (o primeiro quadro do #1, com ela literalmente cheirando deliciada a comida que não pode comer é impagável), dos pais que não lhe dão espaço e de tudo mais que um adolescente reclama como parte do “ser adolescente”. Além disso, naturalmente no texto, aprendemos que a menina é fã dos Vingadores, especialmente da Capitã Marvel, de onde obviamente ela tira seu nome super-heroístico assim que ganha os poderes, logo ao final do primeiro número em um sonho lisérgico sensacional com os Vingadores.

Nós dois números seguintes, vemos Kamala debater-se com seus poderes e aprendendo a usá-los, sem realmente compreender o que aconteceu e a extensão de seus dons. O roteiro de Wilson continua a impressionar pela facilidade com que elementos pop são inseridos na narrativa, assim como os problemas típicos da idade e os conceitos e pré-conceitos que os personagens e nós, leitores, temos sobre a religião da menina. Neste último ponto, porém, vi o primeiro problema no texto.

Trata-se da necessidade constante de Wilson de lembrar seus leitores que Kamala Khan é muçulmana. Sua religião passa a ser o ponto nevrálgico da narrativa e que é repetido diversas vezes para marcar pontos relacionados com a diversidade e inclusão que mencionei no início. Vejam, como disse acima, acho sensacional essa questão ser tratada diretamente em uma publicação mainstream de super-heróis, mas o roteiro começa a exagerar e a tratar a religiosidade a cada página, incessantemente. Entendo que este é o primeiro arco e isto precisa ficar “marcado” muito claramente, mas há formas de se fazer isso sem esfregar na cara do leitor em toda a oportunidade, especialmente porque, lá no fundo, não é essencial para a narrativa de origem que ela seja desta ou aquela religião.

Além disso, confesso que o “vilão” do arco não precisava existir e ele não convence, por parecer jogado, apressado e fantástico demais para esse primeiro arco. Wilson poderia ter economizado neste ponto e introduzido a narrativa apenas no segundo volume, mas imagino que apresentar um antagonista exclusivo logo era exigência da editora.

No entanto, apesar dessas questões, o texto de Wilson é tão fluido e fácil de ler e sua personagem é tão adorável que é fácil esquecer dos problemas ou minimizá-los. Ajuda muito, também, a arte de Adrian Alphona casada com as cores de Ian Herring. Alphona, que é especialista em desenhar adolescentes problemáticos (vide Fugitivos), não precisa recorrer a splash pages ou ação exagerada graças ao roteiro enxuto de Wilson e, com isso, consegue, com seus traços, capturar a atmosfera adolescente de descoberta e maravilhamento por que passa Kamala e, por tabela, nós, leitores. E Herring, cores tendendo para tons pasteis que ganham tonalidades vibrantes em momentos de ação, empresta beleza e simplicidade à narrativa, exatamente o que ela pede.

Ms. Marvel – pelo menos esse primeiro volume – é um triunfo da Marvel que merece ser conferido por todos.

Ms. Marvel: Vol. 1 – Nada Normal (Ms. Marvel: Vol. 1 – No Normal, EUA – 2014)
Contendo: Ms. Marvel (2014) #1 a #5
Roteiro: G. Willow Wilson
Arte: Adrian Alphona
Cores: Ian Herring
Letras: VC’s Joe Caramagna
Editora original nos EUA: Marvel Comics
Datas originais de publicação: fevereiro a junho de 2014
Editora no Brasil: Panini Comics
Data original de publicação no Brasil: 19 de janeiro de 2016 (encadernado)
Páginas: 128

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.