Crítica | Much Loved

estrelas 5,0

Estamos em um quarto de hotel, algumas mulheres, prostitutas, estão agradando seus clientes através de risadas, flertes, danças e outras formas de sedução. Um dos homens, então, começa a jogar dinheiro no chão, elas pulam atrás das notas. Uma melancólica melodia começa a tocar enquanto elas lutam entre si, no chão, para pegar o dinheiro que chove sobre elas. Essa é uma das cenas de Much Loved, de Nabil Ayouch, um filme que retrata a vida de um grupo de prostitutas em Marraquexe – forçadas a sobreviver com o que obtém através de seu árduo trabalho; forçadas a se submeterem a degradações e maltrates enquanto o psicológico e o emocional de cada uma delas é profundamente abalado.

Nesse cenário, o foco permanece em Noha (Loubna Abidar), que atua como “líder” desse grupo. Ela é a mais experiente e já aceitou sua vida, ela vê nesse sofrimento uma forma de negócio, uma maneira de sustentar a si própria e a sua família, que mesmo assim a trata como lixo, assim como a maioria dos outros à sua volta. Vivendo com Raina (Asmaa Lazrak) e Soukaina (Halima Karaouane), ela se vê responsável pelas duas – cada uma com seus problemas próprios e personalidades diferentes, mas que são unidas pelo que tem de aguentar para sobreviver.

Não há um glamour na forma como como Ayouch retrata os aspectos dessa vida, a forma como o roteiro é conduzido cria no espectador uma forte angústia. Cada momento de aparente alegria, diversão das garotas acaba se transformando ou sendo intercalado com algo que nos deixa enojados. Não pelas suas atitudes, mas pelas das pessoas à volta delas, que ora as enxergam como carne, ora como inferiores. É a desumanização do ser humano, criando uma melancolia na audiência que permanece durante toda a projeção.

O texto sabiamente ainda nos oferece um olhar sobre a vida das principais personagens, mostrando que, de fato, são seres humanos, por mais que não sejam tratadas como tal. O destaque vai para Loubna Abidar, no papel de Noha, que esconde uma real tristeza em seu olhar, especialmente quando visita sua família. Nesse ponto vemos o porquê de ela seguir essa vida e entendemos sua falta de opções, diante da atitude de seus familiares em relação a ela. A pluralidade da narrativa é garantida através de tais sequências, demonstrando a profundidade desse olhar do diretor.

Ao mesmo tempo, a fim de garantir nossa imersão ainda mais através de uma constante tensão, presenciamos cenas nas quais o perigo para esse grupo de mulheres é evidente. A violência é uma constante nessa vida e jamais sabemos se cada encontro com um cliente irá terminar de uma péssima maneira. O roteiro antagoniza essas possibilidades através do motorista particular das meninas, que as trata como pessoas de fato, oferecendo um grande alívio perante tamanha degradação provocada pelos outros personagens. Chega ao ponto que torcemos para que elas estejam a salvo dentro do carro ou em casa e mesmo nessas ocasiões a violência se faz presente em virtude da pressão psicológica pela qual todas passam.

Much Loved é uma daquelas obras que nos deixa estáticos ao término da projeção, procurando absorver tudo o que assistimos, tentando nos desvencilhar das fortes imagens que acabamos de assistir. É um triste retrato da realidade que milhares de mulheres são forçadas a viver ao redor do mundo – uma vida de violência e desrespeito, que as obriga a se humilharem a fim de conseguir sustentar a si próprias e a família. Certamente uma obra que deveria ser assistida por todos, de repente, assim, um pouco de bom senso recairia sobre aqueles que agem da mesma forma com outras mulheres.

Much Loved — França/ Marrocos, 2015
Direção:
 Nabil Ayouch
Roteiro: Nabil Ayouch
Elenco: Loubna Abidar, Asmaa Lazrak, Halima Karaouane,  Sara Elhamdi Elalaoui,  Abdellah Didane
Duração: 104 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.