Crítica | Muita Calma Nessa Hora

estrelas 2,5Em meio a um mar de comédias nacionais que, cada vez mais, usavam e abusavam do humor escrachado e quase ofensivo, Muita Calma Nessa Hora é uma produção que se destaca. O segundo longa-metragem de Felipe Joffily, de Ódiquê?, busca atingir principalmente o público jovem, investindo num humor mais cotidiano e que envolve situações sempre comuns entre este meio como romance, auto descoberta, decepções amorosas, e por aí vai. Neste sentido, o filme é eficiente em cumprir seu papel de gerar identificação sem deixar o bom humor de lado. Mas ainda fica aquela sensação de que é um cinema nacional sem identidade própria: clichês à torto e a direito que mais aproximam o filme de uma versão tupiniquim do seriado Sex and the City.

E não é pra menos, uma vez que temos três personagens femininas como protagonistas, que entre umas e outras, tecem diálogos sobre o sexo oposto, enquanto que as figuras femininas são relegadas a segundo plano. Numa espécie de Road movie tropical, temos Tita (Andréia Horta), Mari (Gianne Albertoni) e Aninha (Fernanda Souza), que decepcionadas com seus relacionamentos amorosos, caem na estrada em direção a Búzios em busca de diversão e distrações, e no meio do caminho, dão carona para a hippie Estrella (Débora Lamm), que busca por seu pai desconhecido.

O principal acerto do filme, como já dito, está em apostar num humor apoiado em situações cotidianas, o que talvez traga um certo ar de banalidade ao filme, mas também lhe traz certa sinceridade em seus objetivos. Objetivos estes que, certamente, deixam o público masculino desconfortável diante de um roteiro que disseca, brinca e estuda com o universo feminino e sua visão distante do machismo que impera em nossa sociedade. Por isso mesmo, elas poderão se animar facilmente com cenas onde Marcos Mion aparecem seminu, enquanto que eles deverão se contentar com muxoxos e lamentações.

Joffily consegue ser pop e dinâmico na medica certa, porém fica clara sua já comentada falta de identidade: tudo é entregue de bandeja aos clichês americanos eternamente reprisados nas comédias românticas vindas da terra do Tio Sam, o que dilui a própria graça da obra, uma vez que as diversas situações batidas que surgem ao longo dos 90 minutos de projeção nos deixam aquela conhecida (e incômoda) sensação de mais do mesmo, o que também acaba sendo algo extremamente frustrante diante de uma comédia que poderia ter trazido um “algo a mais” para sua abordagem.

O próprio marketing da obra é descaradamente vagabundo e mentiroso. O pôster estampa o nome de comediantes bastante conhecidos dentre o meio nacional como Sérgio Malandro, Marcelo Adnet e Bruno Mazzeo, mas todos com espaços ínfimos em um roteiro que insiste em focar a visão feminina da coisa, o que não apenas frustra, como também exibe certo reducionismo por parte da produção.

Mas como já dito, o filme é eficiente no humor e na identificação com suas protagonistas, o que já o salva do fiasco e destaca o filme dentre as inúmeras comédias nacionais repetitivas que tomam as salas de cinema a cada mês. Um passatempo agradável e esquecível.

Muita Calma Nessa Hora (idem, Brasil, 2010)
Roteiro: Bruno Mazzeo, João Avelino, Rosana Ferrão
Direção: Felipe Joffily
Elenco: Gianne Albertoni, Fernada Souza, Laura Cardoso, Lúcio Mauro Filho, Louise Cardoso, Marcelo Tas, Bruno Mazzeo, Lúcio Mauro, Leandro Hassum, Luis Miranda, Marcos Mion, André Mattos, Sergio Malandro, Marcelo Adnet
Duração: 92 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.