Crítica | Muito Barulho por Nada (1993)

estrelas 4,5

Muito Barulho por Nada é uma das comédias mais espirituosas e divertidas de Shakespeare. Escrita entre 1598 e 1599, mais ou menos no meio da carreira do bardo britânico, a peça é uma das mais peculiares de suas obras, por tratar de amor, piqueniques, honra, banhos coletivos, traição, galanteios e absolutamente nenhuma morte ou mesmo um semblante de morte.

E Kenneth Branagh, que dirigiu, escreveu e atuou essa adaptação da peça de Shakespeare, entendeu o espírito da obra original e a transplantou ao cinema com o mesmo tom alegre, jovial e digno. Mantendo o texto original substancialmente intocado, ele conseguiu um feito raro: tornar o trabalho do autor original perfeitamente acessível a todo tipo de público sem abrir concessões que maculariam a obra em seu objetivo. Além disso, Branagh foi capaz de reunir um elenco que é raro de se encontrar populando um filme apenas, composto por nomes como Denzel Washington, Emma Thompson, Keanu Reeves, Michael Keaton, Kate Beckinsale e Robert Sean Leonard, além de um trabalho de design de produção belíssimo, incluindo cenários, filmagens em locação (na bela região da Toscana) e figurinos.

A história é cativante do começo ao fim. O jovem Claudio (Robert Sean Leonard) apaixona-se por Hero (Kate Beckinsale) depois que volta vitorioso de uma campanha em nome do nobre Dom Pedro (Denzel Washington) contra seu meio-irmão Dom John (Keanu Reeves). Dom Pedro não perde tempo em servir de cupido aos dois e, ao mesmo tempo, ao seu amigo Benedick (Branagh) e a afiadíssima Beatrice (Emma Thompson), puramente por diversão. Do lado de lá do jogo de amor que logo se estabelece, há Dom John, que, apesar de ter perdido a batalha e se reconciliado com seu meio-irmão, ainda não se dá por derrotado e quer impedir a alegria de Dom Pedro. O alvo do vilão – com direito a cabelo ensebado, barba pontuda e olhar permanente de desgosto – é a dupla formada por Claudio e Hero. Ele faz de tudo para separá-los, não se furtando de montar tramoias exageradas e inacreditáveis (para nós, espectadores, claro) que obviamente não podem dar certo. É quase como ver o Coiote tentando pegar o Papa Léguas nos clássicos desenhos Looney Tunes.

Mas quem rouba o show mesmo são Benedick e Beatrice ou, melhor dizendo, Kenneth Branagh e Emma Thompson. Nós não temos dúvidas que eles se gostam, mas o amor entre os dois é demonstrado no melhor estilo shakespeariano de diálogos arrasadores. Cada frase é uma adaga. Cada palavra, uma agulha. Cada sílaba, um beliscão. E Branagh e Thompson tiram de letra os papeis, mostrando-se completamente à vontade em seus respectivos personagens. A contraposição deles com o casal de pombinhos formado por Claudio e Hero torna o filme ainda mais interessante. Enquanto rimos e sofremos com as maquinações de Dom John de um lado, aplaudimos os ataques e contra-ataques de Benedick e Beatrice do outro. Fica evidente a mensagem que, se Dom John recrutasse Benedick e Beatrice para derrubar o amor de Claudio e Hero, talvez ele tivesse sido bem sucedido.

Em termos narrativos, Branagh trabalha sua direção de modo a dar grande fluidez ao vasto número de personagens que desfilam pela tela. Uma montagem eficiente e econômica consegue impedir a confusão por parte dos espectadores, além de distribuir muito bem as histórias paralelas e pequenas sub-tramas.

Ao longo de sua projeção, somente a atuação de Michael Keaton, no papel de Dogberry, parece deslocada. É difícil apontar o dedo no problema, mas Keaton parece se esforçar demais no papel, visivelmente incomodado por alguma razão misteriosa. Como seu papel é relativamente importante na história, esses momentos estranhos destoam um pouco do trabalho como um todo, detraindo da obra.

Branagh acerta mais uma vez com uma adaptação shakespeariana. Ele já tinha em seu currículo Henrique V à época e viria, depois, a dirigir Hamlet, Love’s Labour’s Lost e As You Like It.  Mas Muito Barulho por Nada, pela leveza do material e excelente reunião de atores com produção impecável, continua sendo, para mim, seu melhor trabalho adaptado de Shakespeare.

Muito Barulho Por Nada (Much Ado About Nothing, Reino Unido/EUA – 1993)
Direção: Kenneth Branagh
Roteiro: Kenneth Branagh (baseado em peça de William Shakespeare)
Elenco: Keneth Branagh, Richard Briers, Kate Beckinsale, Emma Thompson, Denzel Washington, Keanu Reeves, Patrick Doyle, Michael Keaton, Robert Sean Leonard
Duração: 111 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.