Crítica | Muito Barulho por Nada (2012)

estrelas 3,5

É difícil imaginar que o projeto de estimação do diretor do gigantesco e bilionário Os Vingadores seja a adaptação cinematográfica de uma comédia de Shakespeare. Mas Joss Whedon, aparentemente, sempre sonhou com esse filme e não se fez de rogado ao iniciar a produção quase que em seguida ao seu grande filme de 2012.

E o mais interessante é que Whedon trabalhou em segredo, iniciando a fotografia principal de seu projeto intimista em preto-e-branco sem avisar a ninguém, sem alardear na imprensa, sem envolver um estúdio. Ele trabalhou com muitos de seus atores preferidos, incluindo Nathan Fillion, o eterno Capitão Malcolm de Firefly.

O resultado mostra que Whedon é mesmo muito eclético, capaz de trazer para as telas uma eficiente adaptação de Muito Barulho por Nada da mesma maneira que fez o impossível ao reunir um enorme grupo de heróis contra alienígenas. Apenas trazendo a produção para os dias atuais – o que faz óbvio sentido, considerando que uma produção de época consumiria dinheiro demais e tornaria o segredo literalmente impossível, Whedon, também responsável pelo roteiro, manteve o texto de Shakespeare, fazendo mínimas alterações, além das inevitáveis abreviações.

Filmado em sua própria residência, com um filtro para esmaecer as cores e dar uma qualidade de sonho em toda a projeção, Whedon trabalhou muito bem seu elenco dentro dos limites dessa micro-produção. Ao reduzir o tom de comédia, o diretor conseguiu de maneira muito eficiente aumentar a sensualidade de seu trabalho, algo que acaba sendo um grande diferencial nessa obra. As paixões são mais quentes, os corpos mais expostos, mas Whedon nunca apela para imagens fáceis, apelativas.

Trabalhando com a bela fotografia em preto-e-branco e o já citado filtro para suavizar as imagens, seus personagens acabam se tornando, de uma maneira ou de outra, anjos do amor, com Don Pedro (Reed Diamond) sendo o cupido-mor. O embate de mentes entre Beatrice (Amy Acker) e Benedick (Alexis Denisof) tem subtexto carnal evidente pela forma como os rostos e corpos são enquadrados, o que acaba tornando o diálogo de Shakespeare surpreendentemente atual e relevante.

A comédia fica muito mais focada e limitada a Dogberry (Nathan Fillion) e seus policiais. Sua investigação atabalhoada sobre a trama de Don John para separar Hero (Jillian Morgese) e Claudio (Franz Kanz) funciona maravilhosamente bem com o timing cômico de Fillion.

Quando a comédia sai do universo ao redor de Dogberry, o filme desanda um pouco. Tentando expandir o tom cômico também para a sequência em que Benedick entreouve a conversa entre Dom John, Claudio e Leonato (Clark Gregg), a película flerta perigosamente com o pastelão, fugindo, assim, da linha narrativa até esse momento. O mesmo vale para o diálogo imediatamente posterior, entre Benedick e Beatrice, com o primeiro tentando fazer comédia corporal à la Monty Python sem qualquer resultado minimamente satisfatório.

Outra questão que me incomodou foi o uso de câmera na mão. Whedon aparentemente tentou evitar essa sensação ao negociar o aluguel de steady-cams, mas os valores proibitivos o fizeram reverter para um trabalho de aparência um pouco mais amadora, especialmente no começo, em que a (leve) tremedeira das câmeras não tem justificativa alguma na narrativa. Quando, porém, o filme engrena e mais personagens se envolvem na trama, esse problema acaba se tornando mínimo, às vezes desaparecendo completamente.

Mas, se esquecermos essas questões ao menos por um momento, a versão whedonesca de Muito Barulho por Nada é um exercício narrativo refrescante, muito divertido e bonito, além de extremamente sensual. Os atores estão todos muito à vontade e não há como se divertir com o diálogo shakespeariano em um contexto moderno sem que, porém, esse contexto seja efetivamente reconhecido pelos personagens.

Joss Whedon está, no momento, intimamente envolvido com o Universo Cinematográfico Marvel, mas, se entre um grande filme e outro, em termos de orçamento, ele se dedicar a pequenos trabalhos frutos de seu amor pelo cinema, os espectadores de todas as idades não terão do que reclamar. Avante, Whedon!

Muito Barulho por Nada (EUA, 2012)
Roteiro: Joss Whedon (baseado na peça de William Shakespeare)
Direção: Joss Whedon
Elenco: Alexis Denisof, Amy Acker, Fran Kranz, Nathan Fillion, Reed Diamond, Jillian Morgese
Duração: 109 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.