Crítica | Mulher-Gato

Qualquer profissional deveria ter a grandeza de reconhecer suas limitações. Faz bem para o caráter admitir que alguma tarefa pode estar além do escopo de seu conhecimento ou de sua habilidades, mesmo que o dinheiro oferecido para que se aventure em algo que não domina seja tentador. No entanto, Pitof, francês que construiu sua carreira como especialista em efeitos especiais, certamente não admitiu não dominar o básico da cadeira de diretor.

Mulher-Gato, seu segundo longa nessa posição, é a prova absoluta disso. Não é nem mesmo necessário entrar no mérito do péssimo roteiro escrito a seis mãos por John BrancatoMichael Ferris e John Rogers que fingem adaptar a clássica personagem da mitologia do Batman, mas que, na verdade, fazem algo completamente descolado dela. Para verificar a incompetência de Pitof, basta verificar que a fita não é muito mais do que um videogame de 104 minutos, com a desvantagem de não ser interativa.

Tudo bem que hoje em dia filmes feitos à base de chroma key são a regra quando se fala de blockbusters descerebrados, mas isso não é uma licença para se jogar qualquer coisa na pós-produção achando que funcionará. Pitof utiliza suas habilidades com efeitos visuais para transformar o que até poderia ser um filme quase medíocre em uma obra hiperativa composta quase que unicamente de planos gerais com travellings de prédios em CGI em uma cidade em CGI, com uma Halle Berry em CGI pulando de telhado em telhado mais rebolativa que passista de escola de samba e vestida como uma dominatrix de filme pornô de quinta categoria ao som de uma trilha sonora medíocre de Klaus Badelt à base de música eletrônica.

A textura de toda a projeção é como se fosse de plástico, desde a roupa de couro rasgado da protagonista, até as paredes e todas as superfícies reflexivas usadas aleatoriamente pelo diretor. Até mesmo os poucos cenários práticos, como o chão “rochoso” da sequência em que um gato egípcio de CGI revive Patience Phillips depois que ela é morta pelos capangas do vilão, aproveitando para presenteá-la como poderes felinos mágicos, parece plástico rugoso, como se a produção tivesse pegado emprestado o material usado por Ed Wood em seu Plano 9 do Espaço Sideral.

Além disso, a fotografia epiléptica de Thierry Arbogast (o favorito de Luc Besson) não deixa as câmeras pararem um segundo sequer, com uma decupagem de Pitof que faz questão de usar ângulos impossíveis para acentuar os mais impossíveis ainda dotes atléticos da Mulher-Gato, o que, de quebra, termina por vulgarizar mais do que completamente a personagem e, de quebra, a atriz. É, literalmente, um filme-fetiche, daqueles que, se o espectador não for apreciador desse tipo de tara, sentirá constantes convulsões de vergonha alheia.

Aliás, é a vergonha alheia que realmente impera. A transformação da exageradamente tímida Patience na exageradamente desavergonhada Mulher-Gato é de um maniqueísmo tão imbecil que é realmente inacreditável – assim como salientei na crítica de Supergirl – que Halle Berry, atriz então já estabelecida em seu meio artístico, recebeu um roteiro desses, leu e achou ótimo aparecer seminua de chicote e máscara, miando e lambendo as pessoas (saudades de Michelle Pfeiffer, em uma encarnação incomparavelmente melhor da personagem!). E o mesmo vale para Sharon Stone, a “grande vilã”, ainda que, no caso dela, sua personagem Laurel Hedare, dona e garota-propaganda já passando da idade, mas ainda linda, de um império de cosméticos prestes a lançar uma linha rejuvenescedora que ela sabe ter graves efeitos colaterais, seja, perto da Mulher-Gato, bem mais crível e infinitamente menos constrangedora.

Pitof é tão inábil em seu trabalho que, apesar de querer usar o filme como veículo para demonstrar suas habilidades com os efeitos visuais, acaba metendo os pés pelas mãos ao imprimir uma dinâmica tão recortada para as sequências de ação, graças à montagem de milissegundos de Sylvie Landra (também parceira de Besson), que torna difícil a apreciação das coreografias e do próprio uso de CGI de forma predominante mesmo quando ele é completamente desnecessário. É uma sucessão de borrões de couro preto, batom vermelho e garras de purpurina passando na sua frente como um Teste de Rorschach em movimento.

A única vantagem de Mulher-Gato é que, apesar de, nos créditos, o filme nos informar que é baseado em personagem da DC Comics criada por Bob Kane, a grande verdade é que Patience Phillips é apenas uma anti-heroína com poderes derivados de gatos sem nenhuma relação com a amada criação da Nona Arte. Assim, fica fácil simplesmente ignorar essa bola de pelos regurgitada por um francês que não tem ideia do que significa ser diretor.

Mulher-Gato (Catwoman, EUA  – 2004)
Direção: Pitof
Roteiro: John Brancato, Michael Ferris, John Rogers (baseado em personagem criada por Bob Kane)
Elenco: Halle Berry, Benjamin Bratt, Sharon Stone, Lambert Wilson, Frances Conroy, Alex Borstein, Michael Massee, Byron Mann, Kim Smith, Christopher Heyerdahl, Peter Wingfield
Duração: 104 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.