Crítica | Mulher-Maravilha (1974)

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estrelas 3

Poucos sabem ou se lembram de que a primeira vez que vimos a Mulher-Maravilha em live-action não foi na interpretação de Lynda Carter, mas sim na pele de Cathy Lee Crosby, em um telefilme que serviu como piloto de uma série televisiva que jamais chegou a ser produzida. Um ano antes de vermos a clássica primeira aparição de Carter como a heroína, o longa-metragem Mulher-Maravilha estreou na televisão, não alcançando a audiência necessária para que a série fosse comprada pela ABC. O que vemos, neste filme, é uma abordagem completamente diferente da personagem, colocando-a mais como espiã do que super-heroína de fato, influência clara dos quadrinhos da era de bronze, nos quais Diana se espelhava na série britânica Os Vingadores, de 1961.

A trama tem início com o roubo de livros contendo informações sobre agentes secretos americanos por um dos capangas do sr. Smith (Ricardo Montalban). Em seguida vemos Diana (Cathy Lee Crosby) se despedindo das outras amazonas, prestes a iniciar sua jornada pelo mundo dos homens. Não muito depois, já a encontramos como secretária de um agente do governo americano que visa recuperar os livros roubados e somos informados que quinze milhões de dólares também foram perdidos no processo. Diana, cuja identidade secreta não é um mistério tão grande assim, encarrega-se, portanto, de acabar com os planos do sr. Smith.

O que mais nos chama a atenção no roteiro de John D.F. Black é que o fato de Diana ser a Mulher-Maravilha não faz a menor diferença para a história em questão. Ela é apenas uma espiã habilidosa, que sequer tem poderes, contando até com alguns gadgets à sua disposição, como um bracelete que explode e outro que se transforma em um gancho que se acopla à corda escondida em seu cinto. A história é desenvolvida de maneira similar aos velhos filmes de espião, lembrando, inclusive, dos clássicos 007, especialmente em se tratando do vilão, interpretado pelo eterno Khan, da série original de Star Trek.

Montalban é, indiscutivelmente, um dos pontos altos da obra, tornando a projeção extremamente divertida quando dá as caras de fato, carregando toda a sua interpretação de canastrão e panache habituais. A interação de Diana com esse sr. Smith muito no lembra Bond dialogando com seus adversários, como em Goldfinger, com ambos se tratando de forma respeitosa e, em momento algum, deixando esse respeito ir embora. Evidente que é preciso enxergar tais sequências com um olhar menos exigente, deixando-se entregar à esse ar mais descontraído de aventura descompromissada.

Infelizmente, o restante da obra não consegue nos envolver da mesma maneira, apoiando-se demais no plano excessivamente complicado de Smith para conseguir aquilo que já poderia ter feito desde o início do filme – plano esse que envolve burros carregando os livros e o dinheiro roubado, o que não faz o menor sentido e sequer é explicado no roteiro; simplesmente devemos acreditar que essa é a melhor maneira de tais itens chegarem às suas mãos secretamente.

Além disso, temos, é claro, algumas pontas soltas, fruto do formato de piloto de televisão, como uma das amazonas que aparece sem mais, nem menos no meio da história para lutar contra Diana. Já que entramos nesse ponto, os combates, como esperado, são uma tragédia à parte, com péssimas coreografias que geram mais risadas no espectador do que a almejada tensão. É lógico que precisamos levar em conta o ano de produção, mas não podemos perdoar totalmente em razão da duração dessas poucas lutas. Caso a obra focasse exclusivamente na espionagem setentista, certamente seria muito melhor. Outro aspecto revelador da idade do programa são os intervalos comerciais, precedidos por dramáticos cliffhangers acompanhados de transições coloridas que trazem espontâneas risadas todas as vezes.

Mulher-Maravilha, portanto, testa a paciência do espectador durante grande parte da projeção, mas, assim que entramos no terço final, a obra se torna notavelmente mais divertida. Aqui, Diana Prince é uma versão feminina de James Bond, carregando consigo desde o vilão caricato até os gadgets mirabolantes. Está longe do que esperaríamos de um filme sobre a mais importante heroína dos quadrinhos, mas, para aqueles com a mente mais aberta, certamente provará ser uma fonte de entretenimento descompromissada.

Mulher-Maravilha (Wonder Woman) — EUA, 1974
Direção: 
Vincent McEveety
Roteiro: John D.F. Black
Elenco: Cathy Lee Crosby, Kaz Garas, Andrew Prine, Ricardo Montalban, Charlene Holt, Anitra Ford, Richard X. Slattery,  Jordan Rhodes
Duração: 73 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.