Crítica | Mulher-Maravilha: A Bela e as Feras

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estrelas 3

Terceiro arco da fase da Mulher-Maravilha pós-CriseA Bela e as Feras é também o primeiro “tropeço” de Pérez no título. E vejam que eu coloquei “tropeço” entre aspas porque não se trata de um arco ruim, mas de um arco confuso e mal amarrado, com muitas coisas acontecendo e praticamente nenhuma elegância narrativa (como víramos em Deuses e Mortais e Desafio dos Deuses) na condução das histórias. Meu palpite é a coisa mais óbvia que se tem para falar a este respeito: Len Wein deixou o título na edição #16, e isso significou Pérez escreveu sozinho 3 das 5 edições do arco, além de ter desenhado todas e também participado nos desenhos no crossover com a revista do Superman, indicando, assim, uma menor qualidade derivada da sobrecarga de trabalho.

A história começa com um sonho de Diana beijando o Superman, algo que irá se realizar na edição comemorativa da Action Comics Vol.1 (#600a: Different Worlds) e se estenderá até a batalha de Diana com a Cisne de Prata (Valerie Beaudry), em um momento importante para a Princesa, que deveria aparecer em uma feira beneficente e é interrompida por esta fatalidade. O roteiro mostra o controle de Valerie pelo “esposo” e, como essa voz abusiva faz com que ela cometa atos que não queria. A configuração da personagem é interessante, porque nos coloca em um dilema ético na parte final, tanto pela hesitação da Cisne em utilizar seus poderes, quanto na relação opressora que ela tem com Henry Cobb Armbruster.

Por mais que percebamos a mudança de tom em relação aos arcos anteriores, ainda temos a narrativa em alta conta aqui. É preciso lembrar que estamos em um ponto de retorno de Diana ao mundo dos homens e que ela está revendo pessoas queridas e reaparecendo em eventos, novamente, servindo de ícone nacional ao mesmo tempo que recebe o ódio ou a desconfiança de algumas pessoas que acham que ela só quer publicidade — impressão que Myndi, a promoter da Amazona, ressalta sem querer. E por falar em Myndi, a personagem tem uma grande mudança ao longo dessas edições, passando de uma “feliz” profissional para alguém desequilibrada, claramente exagerando na bebida e servindo como cliffhager para o arco seguinte, quando Vanessa mostra para sua mãe e Diana, no aeroporto de Atenas, um jornal americano dizendo que a publicitária havia sido encontrada morta.

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Apesar desta primeira história da Action Comics #600 ser um misto de “coisa interessante” com “superficialidade e exageros“, ela traz algo maravilhoso: a tensão sexual quase inocente entre Clark e Diana, ambos completamente sem jeito e fofos nessa saga.

Após a edição #16, Bird of Paradise/Bird of Prey!, é aconselhável que o leitor pare a sequência da Mulher-Maravilha e vá conferir a primeira história da Action Comics #600, que conta o encontro marcado entre o jornalista Clark Kent e a publicitária Myndi Mayer (furiosa porque Clark não quis dar o endereço) para a Mulher-Maravilha e o Superman. Há uma linha cômica em tudo isso, mas a trama segue para algo mais sério, com uma história no Olimpo à beira da destruição, tendo Darkseid e DeSaad tomando o lar daqueles que descobrimos não serem exatamente os GRANDES DEUSES que imaginávamos. Por este aspecto, a história é muito interessante, mas todo o resto, especialmente a estúpida resolução do caso, são bastante superficiais.

A volta à revista da Mulher maravilha, em Traces, começa a dar caminho para a parte final do arco, que é na verdade o bloco-título da aventura. Nesse ínterim, vemos Etta perder bastante peso — uma das manias dos anos 1980, a proliferação da “geração saúde” –, Vanessa ter ciúmes de Diana com o garoto que ela gosta (e depois ficar exultante ao saber que Diana e o Superman “estão juntos”) e as coisas se ajustando para a Princesa ir para a Grécia visitar Júlia Kapatelis.

Até esta parte, o arco possui um ritmo interessante e os acontecimentos, mesmo que não tivessem a melhor exposição orgânica que se possa esperar de um roteiro, ia bem. Ao chegar nesta edição, as pequenas frentes narrativas começam a ficar levemente truncadas e, mais adiante, chegam a atrapalhar o andamento central, pois desviam a atenção do leitor para coisas sem muita importância, como o drama dos pastores gregos e todo o arcabouço místico que se alonga até o encontro de Diana com Circe, a deusa da magia e uma de suas maiores inimigas. O encontro entre as duas também não é a melhor coisa. Aliás, se tem algo que faz o arco realmente cair de qualidade é a batalha final entre as duas mulheres. Toda a cansativa explicação da feiticeira sobre Hécate, toda a confusa (e desnecessária) colocação da alma de Hécate + a alma de Circe; e todo o plano patético da vilã são grandes passos em falso de Pérez, que só consegue um bom resultado geral no arco pelas coisas vindas antes desta última contenda.

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Diana contra Cisne de Prata e contra Circe.

Exceto pela metade da última edição, A Bela e as Feras é um arco que engaja o leitor nessa fase de descobertas da Mulher-Maravilha. O que continua sem problemas é o notável trabalho de Pérez com a mitologia grega, seja na arte (que é primorosa em toda a jornada), seja na revisão sobre as divindades, seus pactos e reescritas do Olimpo que nos fazem pensar sobre este Universo da fé, não só na ficção, mas em nosso mundo também. Ainda sobra momentos para a crítica das tradições sociais e o silenciamento da mulher, embora esse lado se perca completamente quando Circe começa a se explicar e a narrar uma história chata e confusa sobre o seu passado, os deuses e como isso afeta Diana, terminando com um Deus Ex Machina capaz de nos fazer revirar os olhos.

A notícia da morte de Myndi é um choque e deve colocar a Amazona ainda mais em contato com os sentimentos, maldade e outras questões humanas que ela não estava acostumada em sua terra natal. É como se a convivência conosco também trouxesse para ela a dor de existir, a neurose o vazio existencial dos humanos comuns.

Mulher-Maravilha: A Bela e as Feras (Wonder Woman Vol.2 #15 – 19: Beauty and the Beasts #1) — EUA, abril a agosto de 1988
No Brasil: Lendas do Universo DC. Mulher-Maravilha – Volume 3 (Panini, 2017)
Roteiro: George Pérez, Len Wein (com Pérez sozinho a partir da edição #17)
Arte: George Pérez
Arte-final: Bruce D. Patterson, Bob Smith, Dick Giordano, Frank McLaughlin
Cores: Carl Gafford
Letras: John Costanza
Capas: George Pérez
Editoria: Karen Berger

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Action Comics Vol.1 #600a:  Different Worlds (EUA, maio de 1988)
Roteiro: John Byrne
Arte: John Byrne, George Pérez
Arte-final: George Pérez
Cores: Tom Ziuko
Letras: John Costanza
Capa: John Byrne, Kurt Schaffenberger, George Pérez, Mike Mignola, Jerry Ordway
Editoria: Renee Witterstaetter, Mike Carlin

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.